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Silvana Lima: ‘Tenho de surfar pensando em pagar contas’

Sem patrocínio, a única brasileira na elite do surfe profissional, vice-campeã mundial em 2008 e 2009, superou lesões e é forte candidata ao título

Se no surfe masculino os atletas do Brasil já ganharam o respeito internacional – os sete representantes do país no circuito profissional já têm até apelido: a “tempestade brasileira” -, no feminino cabe a uma única guerreira a mesma missão: das 17 competidoras do WCT, a elite do surfe mundial, a cearense Silvana Lima, de 30 anos, tem bagagem no esporte muito maior que a de seus compatriotas homens.

Vice-campeã mundial duas vezes, profissional desde 2003, Silvana enfrentou a hexacampeã mundial Stephanie Gilmore nas quartas-de-final da etapa de Gold Coast (Austrália) e foi eliminada. “A Stephanie tem seis títulos mundiais, inclusive nos dois anos em que eu fui vice. Mas esse é um novo ano, não pretendo ficar pensando no passado. Estou na minha melhor fase e meu objetivo é ser campeã mundial.” Silvana e Stephanie travaram uma batalha logo no primeiro round em Gold Coast e a brasileira levou a melhor, mandando a australiana para a repescagem. No round 3, encontraram-se novamente, e, desta vez, Silvana foi para a repescagem – lá mostrou seu potencial: atingiu a primeira nota 10 do ano do circuito profissional, com uma manobra aérea conhecida como air reverse (no vídeo abaixo).

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Silvana começou cedo no surfe. Aos 7 anos, em Paracuru, cidade a 81 quilômetros de Fortaleza, dava as primeiras braçadas em cima de uma prancha. “Minha mãe sempre morou no Ceará, em uma barraca de praia na beira da areia. A única coisa que tinha na frente de casa era o mar.” A paixão pelas ondas surgiu graças aos dois irmãos mais velhos que surfavam, mas dividia espaço em seu coração com o futebol e a capoeira. E é dos tempos em que Silvana jogava futsal profissional pela sua cidade que vem o número 6 estampado na lycra de competição da surfista. “Era camisa 6, chutava forte. Na época, esse era o número do ex-lateral Roberto Carlos, a quem admirava e que também tinha um chute potente.Virou meu número da sorte.” De família humilde, até os 17 anos Silvana disputava apenas o campeonato cearense e as etapas regionais mais próximas. “Eu era um bicho do mato, tinha vergonha de carregar a prancha debaixo do braço. Ganhava a competição, mas não gostava de subir no palco e fazer discurso.”

Em 2002, tudo começou a mudar. Seu antigo shaper, Udo Bastos, a levou para o Rio de Janeiro, e, de lá, começou a disputar os principais campeonatos do eixo Rio-São Paulo. “Foi muito difícil no começo, porque não consegui patrocínio. Comecei a ganhar eventos e venci o SuperSurf, que na época dava muito dinheiro. Ganhei, também, as duas etapas de um campeonato em São Paulo que dava um carro como premiação. Foi aí que tirei a minha mãe da barraca e comprei uma casa para ela.”

No ano seguinte, mesmo sem patrocínio, Silvana tirou dinheiro do bolso para disputar algumas etapas do WQS, a segunda divisão do surfe. Em seu primeiro ano, bateu na trave e quase se classificou para a elite. Em 2006, entrou para o WCT e conseguiu um patrocinador principal, a marca de surfwear australiana Billabong, e conquistou seus principais resultados no tour: o 2º lugar em 2008 e em 2009. “Quando me machuquei, em 2011, eles não quiseram renovar o contrato. Estou sem patrocínio principal desde 2011. Tive que começar tudo de novo.”

Recomeço – As lesões sofridas por Silvana seriam suficientes para encerrar a carreira de qualquer esportista – ela rompeu os ligamentos cruzados anteriores dos dois joelhos. Em 2012, se machucou logo na primeira etapa do WCT, e ficou fora do resto do campeonato. No ano seguinte, voltou como convidada da Associação dos Surfistas Profissionais, atual World Surf League, na vaga para surfistas lesionados. “Minha recuperação teve de ser muito rápida. Não pude me preparar tanto e em 2013 passei o ano inteiro com dor no joelho. Não conseguia treinar, porque ficava dolorido disputar as baterias, então ia direto para a competição.” Longe de sua melhor forma, Silvana não se classificou para a elite em 2014 e, aos 29 anos, sendo a surfista mais velha do tour, estava novamente na divisão de acesso. “Nunca pensei em desistir nem me preocupei quando falavam que estava muito velha. Algumas marcas não quiseram me patrocinar porque achavam que meu surfe não ia voltar da mesma forma, que não me recuperaria das cirurgias.” Estavam enganados.

As dores foram embora e Silvana retornou com força total em 2014. “Tinha de usar todas as minhas cartas. Vendi um apartamento no Rio de Janeiro e o meu carro para participar de todas as etapas da segunda divisão.” Depois de duas vitórias e outros bons resultados, foi campeã do WQS e retornou à elite em sua melhor forma. “Hoje me sinto com 20 anos de idade. Estou na melhor fase do meu surfe, meu corpo responde bem e estou mais madura.”

Crise – A brasileira não esconde sua insatisfação com o cenário atual do surfe. Apesar de acreditar que o título mundial de Gabriel Medina ainda vá abrir muitas portas para o esporte, ela diz que a situação no Brasil está péssima. “Os homens ainda têm algumas etapas, mas as meninas não. Acho que as garotas que surfavam antigamente voltaram para a faculdade, estão trabalhando ou dando aula de surfe. O surfe feminino no Brasil acabou, já era.” Silvana acredita que as grandes marcas de surfwear não estão investindo nos atletas e promovendo campeonatos. “Eles devem pensar: para que vou investir em um evento se a minha loja está sempre cheia? É difícil para nós, atletas, neste momento. Quem ganha com o surfe não quer investir na gente. Temos de procurar outras formas de marketing.”

Futuro – Silvana é considerada por muitos a surfista mais radical do grupo feminino. É exatamente com o estilo agressivo de encarar as ondas, abusando das manobras aéreas, que quer se destacar da concorrência e faturar o sonhado título mundial. E, para isso, se inspira nos atletas masculinos. “Meu objetivo é sempre evoluir e meu estilo fica mais próximo do estilo masculino. Isso me diferencia das outras surfistas. Mas agora as meninas também estão treinando manobras aéreas, o que não faziam.”

Silvana sabe que tem de dar um passo de cada vez. Ainda sem patrocinador, não sabe se vai participar de todas as etapas e precisa de bons resultados. “Se ganhar aqui em Gold Coast, consigo bancar três ou quatro etapas, vou ficar em casa de amigo, pedir carro emprestado. Isso é ruim para o atleta. Tenho de surfar pensando em pagar as contas. Essa é a parte chata.”