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Sebastian Coe: ‘Sou contra o vale-tudo’

No comando da Federação Internacional de Atletismo, um dos maiores atletas da história diz que a cruzada contra o doping vai se acirrar

Por Alexandre Salvador e Monica Weinberg 14 ago 2016, 13h49

Há um ano, o ex-atleta inglês Sebastian Coe, aliás Lord Coe, duas vezes ouro olímpico na prova de 1 500 metros rasos, assumiu a presidência da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) no olho de um furacão: foi dela a decisão de punir toda a equipe de atletismo da Rússia após a revelação de um monumental esquema de doping no país. A repercussão do escândalo afetou até sua relação com os filhos, de quem Coe conta ter ouvido “perguntas duras”. Ele se diz opositor radical do uso de substâncias ilícitas e adversário do grupo que defende sua legalização. “Se isso acontecer, o esporte estará f…”, resume Coe, com um palavrão muito à inglesa. Antes de comandar a federação, ele, que foi também o grande rival de Joaquim Cruz nas pistas, esteve à frente da organização da Olimpíada de Londres de 2012, o que lhe deu um olhar único para avaliar, agora como espectador, os Jogos cariocas. A seguir, sua entrevista a VEJA.

Os atletas russos estão sendo vaiados na Olimpíada do Rio. A vaia é justa?
Não me agrada ver um atleta sendo vaiado. A Rússia implantou um vasto esquema de dopagem e foi punida, porque é dever das autoridades assegurar que todos possam competir em condições de igualdade. Mas sou contra essa demonização dos russos. Não condiz com o espírito olímpico.

Com ou sem vaias, a punição da Rússia lavou a alma dos atletas limpos?
Atletas limpos sempre querem um jogo limpo. Quando eu competia, nas décadas de 70 e 80, o nível de frustração era altíssimo. Naquele tempo, a regra era fingir que o problema não existia. Não havia agência reguladora, nem laboratórios, nem mesmo um sistema razoável de fiscalização na maioria das federações. Era um vale-tudo.

Como era um vale-tudo, o senhor não tomou alguma substância ilegal na época?
Nunca. Nunca tomei nada, sempre fui um atleta limpo.

O que mudou do tempo do vale-tudo para hoje?
A virada começou com a criação de uma agência independente para fiscalizar o doping, a Wada, em 1999. Em termos de tecnologia, o principal avanço foi a possibilidade de refazer exames de até uma década atrás e detectar o que era impossível antes. Na minha área, o atletismo, passamos os últimos meses revendo resultados e redistribuindo medalhas com base no reexame de amostras. Estamos pondo ordem no passado.

A Wada recomendou o banimento de toda a delegação russa da Olimpíada, mas o Comitê Olímpico Internacional abriu uma brecha que permitiu a presença de boa parte dos atletas. A Wada e o COI não se entendem?
Não posso e não vou comentar as relações entre eles. O que dá para dizer, como presidente da IAAF, é que julgo extremamente importante que, assim que os Jogos acabem, todas as entidades envolvidas na tomada de decisões sobre processos antidoping — COI, Wada, federações e associações — abram um amplo debate sobre atribuições e responsabilidades de cada uma. O controle do doping tem de funcionar com coerência, de forma estruturada. Definir as regras é o desafio agora.

O senhor quer dizer que os papéis estão misturados, sem divisão clara?
Na associação que presido está tudo muito claro, sem ambiguidades.

Pouco depois que o senhor assumiu o comando da Federação Internacional, a entidade decidiu banir o atletismo da Rússia da Olimpíada do Rio. O senhor é a favor de punições radicais?
Não foi bem assim. Deixamos uma janela aberta. Demos aos atletas a chance de ser avaliados individualmente, e 67 deles chegaram a apresentar sua apelação. Foram os advogados e a própria delegação russa que fecharam a janela, ao nos comunicar que todos teriam de ser julgados em bloco, em vez de um a um. Criamos forças-tarefa para analisar os relatórios da Wada e decidimos o que consideramos ser melhor para os atletas. Foi uma decisão madura e independente. Minha associação representa o atletismo dentro do COI, não o COI dentro do atletismo.

Já o Comitê Paralímpico Internacional fez o que o COI não fez e baniu todos os russos da competição no Rio, em setembro. O que o levou a tomar uma decisão mais radical?
Na posição em que estou, não posso responder a essa pergunta.

Uma corrente considera que o uso de substâncias que melhoram o desempenho seria mais controlado se algumas delas fossem legalizadas. O senhor concorda?
De jeito nenhum. O esporte existe há mais de trinta séculos e não teria sobrevivido nem três semanas se fosse aberta uma brecha na moralidade sob esse tipo de argumento. O essencial para uma boa performance é trabalho duro, bom treinamento e apoio de governos dispostos a investir em esporte. Não se pode admitir de forma alguma que o velocista da pista 3 tenha no organismo mais componentes químicos que o da pista 4. Se o esporte seguir por essa trilha, estaremos f…

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Existe alguma chance de ganhar a guerra contra o doping?
É verdade que a ciência sempre será usada tanto para fins legítimos quanto para objetivos escusos. Também sempre haverá aqueles que trapaceiam, como acontece nos negócios, na academia, na mídia, nas artes. Temos de ser realistas, mas vamos continuar lutando até conseguir que o esporte seja o mais limpo possível. No centro das reformas que defendo está uma união em torno da integridade. Em nome dela, advogo uma mudança na cadeia de decisões sobre resultados positivos de doping. Hoje as federações têm voz nessas decisões. Minha proposta é que elas se afastem totalmente do processo decisório e que cada caso seja julgado e sentenciado por um tribunal disciplinar independente. As federações não são a polícia mundial antidoping. Esse papel é da Wada. A agência, inclusive, aprova minha proposta. O próprio COI já se manifestou favorável à remoção das federações da decisão sobre resultados.

Por que assim seria melhor?
Porque impede que a federação proteja o atleta por não querer vê-lo fora das provas. O risco de conflito de interesses fica reduzido.

Por que a equipe de atletismo da Rússia foi proibida de vir ao Rio, enquanto a do Quênia, também sob suspeita, foi liberada?
São casos diferentes. A Rússia montou um esquema de dopagem patrocinado pelo Estado, que incluía manipulação de amostras, falsificação e obstáculos ao trabalho dos órgãos internacionais de controle. O governo prejudicou seus atletas limpos ao manchar a integridade da competição. Já o Quênia é um dos cinco países que a IAAF pôs preventivamente sob “acompanhamento crítico” por falhas no sistema nacional antidoping. Os outros são Etiópia, Bielorrússia, Ucrânia e Marrocos. Demos a eles um prazo de trinta dias para que iniciassem as melhoras necessárias. Os atletas dessas nacionalidades vêm sendo testados por nós exaustivamente.

Quando o senhor assumiu a IAAF, ela estava mergulhada em acusações de leniência com casos de doping. Havia mesmo displicência?
A instituição em si nunca foi leniente. Mas de fato permitiu que umas poucas pessoas enveredassem por um caminho que nunca deveria ter sido trilhado.

Que caminho?
Há casos ainda sob investigação. Mas seria ridículo dizer que não tivemos problemas. É claro que tivemos. E por isso mesmo introduzi reformas na associação. No futuro, o senhor se vê em cargos mais altos, como no topo do COI? Não. Eu comecei no atletismo com 11 anos. Agora, perto dos 60, cheguei ao comando mundial do esporte pelo qual sou apaixonado. Essa é a posição que lutei para ter e que levo muito a sério. Minhas ambições param por aí.

Em termos de organização, como o senhor compara a Olimpíada de Londres com a do Rio?
Como presidente do comitê de Londres, sei muito bem que mil coisas estão sendo coreografadas a cada hora de cada dia no Rio. Sediar uma Olimpíada é o projeto de gerenciamento mais complexo que uma cidade pode encarar. Agora, é muito difícil comparar Jogos Olímpicos. A natureza de cada sede é diferente, com circunstâncias muito peculiares, tanto sociais quanto políticas e econômicas.

No Rio, todas essas circunstâncias eram desfavoráveis. Isso chegou a lhe causar preocupação?
Realmente, acho que esse foi o cenário maiscomplicado de uma cidade-sede desde Montreal, em 1976, quando o mundo enfrentava guerras no Oriente Médio, salto no preço do petróleo e hiperinflação. Mas, apesar de tudo, os Jogos estão correndo muito bem.

O Brasil não ganha medalha em provas de pista desde 2004. O que é preciso para ser uma potência nesse esporte?
Deveria ser fácil para o Brasil, onde sobra talento para corridas e saltos. O que acontece é que esse talento tem ido para o vôlei e o futebol. Mas ele está aí. O desafio é fazer com que o atletismo volte a ser atraente. Isso, na verdade, precisa acontecer no mundo inteiro. A idade média das pessoas que assistem a provas de atletismo atualmente é de 55 anos.

Em que lugar da história o senhor colocaria Joaquim Cruz, campeão dos 800 metros?
O Brasil tem tradição nessa modalidade. Quando eu competia, Cruz fazia parte de um trio de brasileiros de nível internacional na média distância, junto com Agberto Guimarães, que ficou em quarto lugar na Olimpíada de Moscou, e Zequinha Barbosa, sexto em Seul. Cruz era um ótimo adversário. Estou ansioso por encontrá-lo no estádio olímpico.

O senhor ainda fica triste quando lembra da vitória de Cruz em Los Angeles, nos Jogos de 1984?
Sempre corri para ganhar, mas naquela prova, depois de ter competido quatro vezes em quatro dias, sabia que ia ser duro. Nos últimos 100 metros, ele abriu uma diferença que acabou com minha chance de ultrapassagem. No fim, bateu o recorde olímpico. Éramos dois gigantes do esporte e, naquele dia, eu fui o derrotado. Ele era excepcional e sempre me deu trabalho. Com Cruz, não tinha corrida fácil.

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