Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Schweinsteiger: ‘Preferiríamos ter vencido por 2 a 0’

Reportagem de VEJA no fim de 2014 revelou que os jogadores da seleção alemã desceram ao vestiário no intervalo do 7 a 1 no Mineirão com medo da reação da torcida e constrangidos com o placar (5 a 0 nos primeiros 45 minutos). Um pacto firmado com a anuência do treinador Joachim Löw os fez voltar a campo mais leves

Por Gregor Derichs 8 jul 2015, 12h54

Eles entraram no vestiário do Mineirão sem entender nada. O placar marcava incríveis 5 a 0 a favor da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo. Em apenas um tempo de jogo, estava tudo resolvido, no mais inesperado resultado de todos os tempos em Mundiais. O que ocorreu nos quinze minutos de intervalo foi extraordinário. No lado brasileiro, era o silêncio. No alemão, o espanto. Foram quinze minutos de trégua, de rearranjo de posições em um combate que fez história. “Isso não pode ser real”, disse o tanque Bastian Schweinsteiger, ao entrar no túnel. “O que está acontecendo com os brasileiros?”, berrava o capitão Philipp Lahm. A euforia era grande, os jogadores alemães estavam cada vez mais certos de que levariam a seleção pela oitava vez a uma final de Copa. Ainda assim, o clima entre o grupo era de preocupação.

Vote: Quem deveria ser o técnico da seleção brasileira?

“Temos de tomar cuidado com o que vai acontecer”, afirmou Thomas Müller. “Nosso lugar no Maracanã, com certeza, já está garantido. Mas como será que a torcida brasileira vai reagir a isso tudo?”, concluiu o camisa 13. Frases aflitas como essas destacavam-­se em meio ao tumulto de emoções. O técnico Joachim Löw carregava um sorriso de satisfação nos lábios. Confiante, pediu aos jogadores que se acalmassem. A nova leva de camisas para o segundo tempo já estava posicionada diante dos armários dos atletas, e em cima de uma maca de massagem eram servidas frutas e bebidas. Aos poucos, os ânimos foram se acalmando, era preciso voltar ao gramado. Nesse momento, o do retorno à realidade, firmou-se um acordo entre o time, hoje conhecido como “O Pacto”.

Qual pacto? “Não queríamos ser arrogantes nem humilhar os brasileiros, jogando com displicência. Não queríamos, em hipótese alguma, fazer firulas, sair driblando ou trocando passes rapidamente, recursos pelos quais nossos adversários pudessem sentir que não estavam sendo levados a sério. Algo como passar a bola pelo meio das pernas do adversário era tudo o que queríamos evitar”, lembra Müller, descrevendo o acordo selado. “Queríamos e tínhamos a obrigação de nos comportar de forma extremamente séria, jogando o futebol a que estamos acostumados, sem prepotência por causa do resultado do primeiro tempo. E foi assim que fizemos.” O pacto seria um ato de lealdade para com os jogadores brasileiros, um símbolo de respeito a um futebol venerado pelos alemães, uma homenagem à trajetória da amarelinha. “Os brasileiros estão muito inseguros. A pressão de ter de chegar à final a qualquer custo provavelmente está forte demais para eles”, disse o meia Toni Kroos na entrevista feita durante o intervalo do jogo.

A seleção brasileira de Luiz Felipe Scolari era a favorita ao título para quase a unanimidade dos especialistas. Os alemães eram realistas, evitavam sonhar alto. Ao deixarem o “Campo Bahia”, como nomearam sua concentração, sediada nas cercanias de Porto Seguro, a impressão era de estar marchando rumo à final antecipada. No documentário Die Mannschaft (A Seleção), que estreou nos cinemas alemães em novembro de 2014, as primeiras cenas, que antecipam o magistral epílogo, mais até do que a taça erguida no Rio, mostravam flagrantes da partida contra o Brasil. Na chegada ao Mineirão, um membro da comissão técnica fez questão de escrever num pequeno quadro a palavra FINALE, reforçando o caráter decisivo daquele embate. A ausência de Neymar e de Thiago Silva apontava para o óbvio: a seleção brasileira não entraria em campo em sua melhor forma. Poderia ser uma vantagem para a Alemanha, sim, mas brincar com o Brasil, e na casa brasileira? Não. “Foi uma pena, preferiríamos ter enfrentado o time completo. Mas mesmo assim venceríamos”, diz Schweinsteiger.

https://youtube.com/watch?v=hut2hYAvthM%3Frel%3D0

O intervalo pareceu muito pouco tempo para mastigar o que houve entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo (que Felipão, sem outra explicação possível, chamou de “o apagão”). Em seis minutos foram marcados um, dois, três, quatro gols. O Brasil dava a saída, perdia a bola e levava gol. “Gol da Alemanha”, frase que virou um bordão. O festival, depois do 1 a 0 de Müller, começou com o 16º gol de Miroslav Klose em Copas do Mundo. Naquele momento, 2 a 0 no placar, todos os jogadores sabiam que Ronaldo Fenômeno estava sendo destronado do posto de maior artilheiro em Copas. Aquele Ronaldo que na final da Copa do Mundo de 2002 havia roubado as esperanças alemãs de chegar ao quarto título mundial. A comemoração foi frenética, assim como a que sucedeu ao terceiro e quarto gols marcados um após o outro por Toni Kroos. De repente, o velho orgulho de carregar a águia alemã estampada no peito voltou a reinar.

Continua após a publicidade

E no entanto… “Todos nós sabíamos que não deveríamos nos gabar da situação”, diz Kroos. “Era nítido quão chocados estavam nossos adversários dentro de campo, e a decepção do público que assistia à partida era absoluta.” O constrangimento era evidente. A comemoração dos gols que se seguiram tornou-se mais branda – apenas alguns movimentos com os ombros, o peito e a cabeça já eram mais que suficientes, qualquer euforia era evitada. Foi assim com o quinto gol, de Sami Khedira, e com os dois que viriam a ser marcados no segundo tempo. “Cinco gols antes do intervalo, 7 a 1 no placar final. Números históricos para uma semifinal de Copa do Mundo, mas preferiríamos ter vencido por 2 a 0”, confessou Schweinsteiger. O pacto de lealdade no segundo tempo era a única saída alemã. O discurso sobre respeito foi reiterado pelos jogadores na pré-estreia de Die Mannschaft. O longa explorou os dias gloriosos protagonizados pela Alemanha no Brasil e se tornou sucesso de bilheteria. Da semifinal, foram coletadas imagens em que Müller, Schweinsteiger, Lahm, Neuer e outros campeões mundiais aparecem consolando seu colega de time Dante, que joga no Bayern de Munique. Júlio César, Marcelo e outros brasileiros também aparecem sendo abraçados, enquanto ouvem palavras de conforto dos campeões.

Não só para Schweinsteiger, oficialmente vice-capitão e o verdadeiro líder da equipe dentro de campo, o pacto de lealdade e o consolo à seleção brasileira tiveram papel fundamental na vitória final sobre a Argentina. O técnico Löw compartilhou o sentimento. “O modo como meus jogadores se comportaram foi espetacular”, disse Löw. “Estou muito orgulhoso deles. Todo time está suscetível a perder partidas, e minha seleção sabia que o Brasil só estava enfrentando um dia difícil.”

Logo depois do episódio, no entanto, chegaria da Inglaterra uma declaração que poria em xeque todo o respeito e a lealdade demonstrados pelos alemães. Nas entrevistas feitas após o jogo em Belo Horizonte, os jogadores afirmaram que não queriam diminuir (erniedrigen, em alemão) os colegas brasileiros, não queriam tratá-los desrespeitosamente. O tabloide inglês The Mirror, por sua vez, traduziu a declaração utilizando o verbo humiliate (humilhar, em tradução direta), em uma versão grosseira. A língua alemã é, em muitos aspectos, mais rica e precisa do que a inglesa. Por conseguinte, o verbo alemão correspondente a humiliate, demütigen, carrega uma carga de significado muito mais forte e negativo que erniedrigen, e nunca seria empregado pelos jogadores nessa situação. Nunca foi intenção do time alemão se colocar em uma posição de superioridade em relação aos brasileiros, a ponto de não querer humilhá-­los. Um dia após a declaração do jornal inglês, Hummels desabafou em seu perfil no Twitter: “Não consigo me imaginar dizendo que nós fizemos um pacto para não humilhar o Brasil, ou algo do gênero. Essa não é a maneira com a qual me refiro a meus adversários”. (No inglês, para não haver dúvida: “I can’t imagine I said ‘we agreed a pact not to humiliate Brasil’ or something in that way. It’s not the way I speak about opponents”.)

Post do zagueiro Mats Hummels, explicando a sua declaração após o 7 a 1
Post do zagueiro Mats Hummels, explicando a sua declaração após o 7 a 1 VEJA

No caminho do Aeroporto de Confins, no dia seguinte aos 7 a 1, a presença de torcedores brasileiros que acenavam para o time alemão era grande. O clima amistoso repetiu-se também na chegada a Porto Seguro. Para a equipe, serviu de conforto, foi entusiasmante. Todos ficaram tocados com gestos de tamanha generosidade. Nenhum insulto foi ouvido, e pouco a pouco foi ficando claro para o time que ele tinha conseguido realizar algo grandioso. Wolfgang Niersbach, presidente da Federação Alemã de Futebol, fez um breve discurso aos campeões durante a viagem de volta para casa, na Bahia. “O que realmente acabou de acontecer hoje? Essa é uma história que seus netos vão relembrar daqui a trinta anos.” O pacto de lealdade, assim esperam os alemães, ficará para sempre associado à grande vitória contra a seleção recordista de títulos mundiais. E o apoio do povo brasileiro na final disputada contra a Argentina, no Maracanã, jamais será esquecido.

Gregor Derichs, 60 anos, é jornalista e cobriu nove Copas do Mundo desde 1982

Tradução de Juliana Doraciotto

Enquanto isso, no vestiário ao lado…

O técnico Luiz Felipe Scolari, seu auxiliar Flávio Murtosa, o preparador físico Paulo Paixão e o diretor técnico Carlos Alberto Parreira saíram do banco e caminharam em silêncio para o interior do Mineirão. Reuniram-se por pouco mais de três minutos em uma sala reservada. Cada um falou um pouco. O sentimento dos quatro era que, naquele momento, o único discurso possível seria o de lutar para evitar uma humilhação maior. Tomaram uma decisão tática – pôr Paulinho no lugar de Fernandinho e Ramires no de Hulk – e saíram da sala. Depararam com um cenário de desolação: alguns jogadores estirados no chão, tentando relaxar a musculatura; outros sentados, inertes, de cabeça baixa. Silêncio. Felipão e Parreira percorreram o espaço falando com os jogadores que teriam a inglória missão de diminuir os estragos feitos na primeira etapa. “Sabíamos que não tinha como virar, mas precisávamos dar força a eles para, no segundo tempo, perder de 5 a 2, 5 a 3, e pelo menos sair de campo com dignidade. Era uma ideia ao mesmo tempo viável e honrosa”, conta Parreira. O capitão Thiago Silva, que não jogou porque estava suspenso, tomou a palavra: “Esquece o resultado. A gente é a seleção brasileira e dá pra melhorar esta situação”, pregou o zagueiro, sem muita convicção. 7 a 1. (Leslie Leitão)

Continua após a publicidade
Publicidade