Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

São Paulo divulga áudio que derrubou Aidar

Nos trechos mais controversos da conversa gravada por Ataíde Gil Guerrero, ex-presidente fala sobre comissões em contratos de atletas e de patrocínio

O São Paulo divulgou nesta quinta-feira o áudio gravado pelo vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, em conversa com o então presidente do clube, Carlos Miguel Aidar. O material foi o estopim da crise política que causou a renúncia do mandatário, envolvido em acusações de corrupção e desvio de dinheiro durante a gestão de um ano e meio no clube.

A gravação foi realizada na noite do dia 3 de outubro, na sala da presidência, no estádio do Morumbi. Ataíde levou um gravador guardado no paletó para produzir provas contra Aidar. O então presidente motivava desconfiança do vice de futebol por supostamente desviar dinheiro de transferências, cobrar comissões e favorecer a namorada, Cinira Maturana, em contratos do clube.

Leia também:

Leco ‘recontrata’ dirigente que agrediu Aidar no São Paulo

Aidar oficializa renúncia da presidência do São Paulo por e-mail

Crise no São Paulo: Ataíde Gil Guerreiro admite briga com Aidar

Aidar pede demissão de toda a diretoria do São Paulo e fala em ‘pacificação’

Ataíde decidiu gravar a conversa para produzir provas que fizessem Aidar se afastar no clube. No material de 17 minutos, reproduzido no CT da Barra Funda na manhã desta quinta-feira, alguns trechos estão inaudíveis pela má qualidade da gravação. O dirigente afirmou que decidiu levar o gravador escondido depois de o ex-presidente oferecer que repartissem a comissão pela contratação de Gustavo Cascardo, um jogador da Portuguesa.

Na gravação, os dois falam primeiramente sobre a divisão política do clube até Ataíde retomar uma conversa realizada dias antes, quando Aidar lhe ofereceu repartir a comissão pela vinda de Gustavo, que tem como empresário um cliente do escritório de advocacia do ex-presidente. “Ele paga honorários para mim. Só isso. E eu repasso a você em dinheiro. Não é nem em cheque, não tem rastro nenhum, nem para você nem para mim”, diz Aidar no áudio.

Minutos depois, Aidar afirma que o então vice-presidente de comunicações e marketing, Douglas Schwartzmann, tinha por hábito pedir 15% de comissão em todos os contratos do clube. O ex-mandatário ainda escuta do vice de futebol a acusação de favorecer a namorada no contrato com a marca Under Armour para fornecimento de material esportivo. “Caiu nas minhas mãos o acordo que a Cinira fez com a Under Armour. Ela recebeu 1 milhão de reais e dez parcelas de 500.000 reais, a última termina em julho de 2019.”

No último momento da conversa, Ataíde e Aidar conversam sobre a contratação ilegal do zagueiro Iago Maidana, que rendeu multa de 100.000 reais ao clube. Em meio a palavrões, Aidar diz que não sabia da ilegalidade dos contratos e diz ter sido enganado por empresários – um deles, inclusive, teria sido apresentado como amigo do colombiano Juan Carlos Osorio, então técnico da equipe.

Durante a apresentação do áudio, Ataíde afirmou que decidiu gravar o então presidente por estar irritado com uma série de irregularidades na gestão, como, por exemplo, desvio de dinheiro em outras transferências anteriores de jogadores como Douglas e Denilson, além de decidir e resolver sozinho as contratações de Alan Kardec e Wesley sem consultar o departamento de futebol.

O áudio foi gravado dois dias antes dos dois dirigentes brigarem durante reunião da diretoria em hotel na capital paulista. O episódio da discussão e também a gravação são alvo de investigação da Comissão de Ética do clube, formada por cinco membros. O grupo teve alterações em três dos integrantes nesta semana.

A gravação foi divulgada pela primeira vez na manhã desta quinta-feira para a imprensa. Os conselheiros do São Paulo e demais membros da diretoria do clube ainda não tiveram acesso à reprodução do material. Abaixo, vídeo com o áudio e a transcrição completa da conversa:

Ataíde: E esse negócio do Gustavo (zagueiro da Portuguesa), quando a gente pode fazer?

Aidar: Ah, amanhã.

Ataíde: Mas não é outro batom na cueca, p****?

Aidar: Ele me paga honorários. Ele paga honorários pra mim. Só isso. E eu repasso a você em dinheiro. Não é nem cheque, não tem rastro nenhum, nem pra você nem pra mim.

Ataíde: Pô, Carlos Miguel, e eu não quero esse dinheiro também, não. O que eu não quero é que você vá mexer no futebol. Vou te contar uma coisa que ninguém sabe. Caiu nas minhas mãos o acordo que a Cinira fez com a Under Armour. Ela recebeu um milhão e dez parcelas de 500, a última termina em julho de 2019. Eu não abro isso pra ninguém, eu não vou falar pra ninguém, mas eu quero que me deixe mexer no futebol, eu quero seriedade no futebol, eu não quero dinheiro de nada. Eu sou um duro, mas nunca fiz nada de errado. Eu fiquei triste quando você me ofereceu dinheiro. Você achou que eu topava essas coisas, eu não topo nada, não quero nada. E outra coisa, esse da Cinira, da mesma forma, maneira, que eu tenho, qualquer dia alguém pega.

Aidar: A Cinira tentou fazer um negócio com a Under Armour e não conseguiu. Ataíde, ela não tem contrato com a Under Armour.

Ataíde: O cara falou que tinha.

Aidar: Não tem contrato com a Under Armour.

Ataíde: Então tá bom, melhor pra você.

Aidar: Deixa eu falar uma coisa, quem tem contrato com a Under Armour é o tal do Jack, que é o Douglas (…)

Ataíde: E como é que o Douglas faz reunião lá?

Aidar: Não sei. Faz reunião onde?

Ataíde: Na casa dele pra ir contra você.

Aidar: A Cinira não tem nenhum contrato com a Under Armour.

Ataíde: Mas chegou a fazer, né?

Aidar: Isso é verdade. Ela negociou. Mas naquela época que o Douglas (…)

Ataíde: Eu não quero nada.

Aidar: O negócio da Under Armour estava perdido. Vieram uns caras para cá que falam inglês, nós fizemos uma reunião no meu escritório, almoçamos, desfizemos o negócio, e eles foram embora. Não teve negócio nenhum, nenhum. Depois eles voltaram via Jack. Agora, como é que o Jack voltou, eu não também não sei, Ataíde. Mas chegou porque eu conheci o cara aqui.

Ataíde: O Julio contou aquele dia pra nós isso.

Aidar: Eu estive com o cara, isso é verdade, o cara esteve comigo. Assinou o contrato. Agora, se tem rolo aqui, juro por Deus que não sei e também não quero saber.

Ataíde: Agora tem outra coisa, sabe o negócio da hamburgueria aí, tem um negócio da hamburgueria? Fez contrato com o Palmeiras, fez contrato com o Corinthians, fez contrato com o Grêmio. E o advogado do Palmeiras falou que está fazendo contrato com o São Paulo, mas o que atrapalhava é que o Douglas pediu 15%…

Aidar: O Douglas tá pedindo comissão em tudo. Ele veio aqui e descaradamente.

Ataíde: Por que você não acaba com isso, pô? Vamos acabar com isso, pô!

Aidar: Ataíde, eu tô com o seguinte problema, bem. Se eu mandar o Douglas embora, vai o Dedé junto. Você não percebe que eu tô acuado? Completamente acuado? Eu tô a ponto de largar isso aqui a qualquer hora. Eu tô de saco cheio. Eu não preciso disso. Se eu voltar pro escritório pra mim é muito melhor.

Ataíde: Ah, eu estou tão nervoso com essas coisas todas, rapaz, mas tão nervoso…Esse negócio do Iago foi uma m*** né?

Aidar: Mas, p****, o que você queria?

Ataíde: E por que você fez essa confusão toda?

Aidar: Porque, Ataíde, você não queria o jogador? Queria ou não queria?

Ataíde: Não queria assim! Pra pagar, não, ele vinha de graça.

Aidar: O cara nunca veio de graça. Aí apareceu a p**** lá na (…). Taí a Cinira, pergunta pra ela!

Ataíde: Dois filhos da puta aqueles dois, o Walter e o Raul.

Aidar: No Juan Figuer, o Raul trouxe operação de crédito, dinheiro do exterior. Esse Raul eu conheci no Centro de Treinamento como se fosse amigo do Osorio.

Ataíde: Você me contou.

Aidar: P****, eu não sei merda nenhuma (…) aí o cara liga precisava atender (…) O nego fala “o presidente não é empréstimo não, é meu! Precisa fechar. Então fecha! Espera um pouco Oswaldo, tá quê? Dá pra pagar? Então tá bom, bom, então fecha, foi isso (…) Eu não sentei com o cara. Não sei a do cara.

Ataíde: Ah, eu estou tão nervoso com essas coisas todas, rapaz, mas tão nervoso…Esse negócio do Iago foi uma merda né?

Aidar: Mas, p****, o que você queria?

Ataíde: E por que você fez essa confusão toda?

Aidar: Por que, Ataíde, você não queria o jogador? Queria ou não queria?

Ataíde: Não queria assim! Pra pagar, não, ele vinha de graça.

Aidar: O cara nunca veio de graça. Aí apareceu a p**** lá na (…). Taí a Cinira, pergunta pra ela!

Ataíde: Dois “fdp” aqueles dois, o Walter e o Raul.

Aidar: No Juan Figer, o Raul trouxe operação de crédito, dinheiro do exterior. Esse Raul eu conheci no Centro de Treinamento como se fosse amigo do Osorio.

Ataíde: Você me contou.

Aidar: P***, eu não sei m**** nenhuma (…) aí o cara liga precisava atender (…) O nego fala “o presidente não é empréstimo não, é meu! Precisa fechar. Então fecha! Espera um pouco Oswaldo, tá quê? Dá pra pagar? Então tá bom, bom, então fecha, foi isso (…) Eu não sentei com o cara. Não sei a cara do cara.

(com Estadão Conteúdo)