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Rúgbi: aos trancos, em busca de um caminho no Brasil

Por Silvio Nascimento, com reportagem de Davi Correia - 17 jan 2011, 13h42

A moda das camisas de rúgbi, com listras grossas e brasões bordados, se difundiu no Brasil há pelo menos cinco anos. Mas agora, dentro dessas camisas, cresce a chance de encontrar alguém que de fato pratica esse esporte de origem britânica. Segundo a Confederação Brasileira de Rúgbi, hoje há 30.000 praticantes no país, em 230 clubes, distribuídos em 22 estados – em 2004 eram apenas 5.000 adeptos. A popularidade do esporte deve aumentar nos próximos anos: nos Jogos do Rio, em 2016, o rúgbi de sete atletas será modalidade olímpica pela primeira vez. Além disso, a expansão da classe média mudou o perfil do praticante do esporte: não é mais apenas a elite ou o estudante de escola com influência estrangeira. O rúgbi ultrapassou os muros daquelas instituições e hoje as gerações que vão ao exterior fazer intercâmbio estudantil trazem de volta na bagagem uma boa afinidade com o esporte e suas regras. Ainda assim, poucos vivem exclusivamente do rúgbi no Brasil, somente agora as federações estão se fortalecendo e aos poucos quase todo o país tem clubes com alguma expressão. São Paulo, Niteroi, Rio de Janeiro e São José dos Campos são as cidades que mais têm praticantes no país, sendo que em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre a presença é forte, muito provavelmente pela influência dos países vizinhos com tradição no rúgbi, como Argentina e Uruguai. As melhores equipes do Brasil são a São José (São José dos Campos), a Desterro (Florianópolis), a Spac e a Bandeirante (São Paulo).

Infográfico
Infográfico VEJA

Apesar da aparente brutalidade e da ameaça de uma coleção de hematomas pelo corpo, as mulheres também começam a fazer número no esporte. A Seleção Brasileira feminina se reúne uma vez por mês para treinar. A maioria das vinte atletas cursa os primeiros anos da universidade e teve o primeiro contato com o rúgbi dentro da escola ou por meio de amigos e namorados. No último sábado, no campo de grama sintética na zona sul de São Paulo, que exige roupas que protejam principalmente as pernas, a vaidade é deixada de lado. É hora de correr, suar, passar bola em jogadas rápidas. As reservas fazem uma gritaria, tentando orientar as jogadas das sete colegas dentro de campo – no Brasil, o feminino só tem a categoria com 7 jogadoras (há uma outra modalidade que envolve 15).

Jogadoras da seleção brasileira feminina de rúgbi
Jogadoras da seleção brasileira feminina de rúgbi VEJA

A comunicação entre as atletas é o fundamento mais explorado pelo técnico João Nogueira. “O mais importante é o jogo sem a bola” – elas precisam estar bem posicionadas para receber o passe e partir velozmente para a definição. Daí a importância de cantar as jogadas. As jogadoras têm formas bem definidas, corpos trabalhados em academia de ginástica. Na média são altas, mas não grandalhonas. As de tipo “mignon” também podem encontrar lugar no campo: são rápidas e driblam as adversárias com maior facilidade. E não tem moleza no treino. O cansaço chega e o técnico cobra empenho. “Enxuga o suor, levanta a cabeça e toca a bola para trás. É fácil pensar quando estão descansadas e na sombra…” Popularização – Há uma variante do rúgbi tradicional, na versão praia, que promete crescer rápido no Brasil. O Rio de Janeiro tem até um torneio, na praia de Copacabana, recheado de estrangeiros que passam férias na cidade. Eles se divertem com o que a cidade oferece e praticam um esporte com o qual têm intimidade. É uma festa. A popularização é um passo importante para que o nível de um esporte melhore num país. O Brasil tem um desafio até 2016: o atrair mais gente para o rúgbi e tentar melhorar as condições daqueles que já se dedicam a ele. Das mais de duas centenas de equipes nacionais, apenas dez têm campos oficiais. As demais precisam improvisar o tempo todo, usando espaços sem as dimensões oficiais e de todo tipo de piso. Alguns jogadores já vivem do rúgbi, mas a maioria pratica o esporte como amador.

Sebá, vocalista do grupo de samba Inimigos da HP, jogando pela seleção brasileira
Sebá, vocalista do grupo de samba Inimigos da HP, jogando pela seleção brasileira VEJA

O vocalista do grupo Inimigos da HP, Sebastian Matias Arietti, o Seba, 39 anos, nascido na cidade argentina de Paraná, na província de Entre Rios, começou a jogar aos cinco anos e participou da seleção brasileira de 1987 a 2003, nas categorias juvenil e adulto. “O rúgbi no Brasil sempre foi para pouca gente. Sempre tive de pagar as viagens e os uniformes da seleção brasileira. Estava lá por amor. Só jogava quem podia.”

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De acordo com dados da CBR, o rúgbi é o esporte mais praticado no planeta depois do futebol: 3 milhões de adeptos em 120 países. Seu campeonato mundial é um evento que, pelas proporções e pela popularidade, só perde para a Copa do Mundo de Futebol e a Olimpíada. Os grandes craques jogam por seleções como Nova Zelândia, Austrália e África do Sul, três ex-colônias inglesas onde o esporte é tradição secular e que ocupam, respectivamente, as três primeiras posições do ranking mundial. Inglaterra, Irlanda e França vêm a seguir, e o Brasil ocupa a 28ª posição – a Argentina é a oitava na lista. Criado na Inglaterra no início dos anos 1800, o rúgbi é disputado num campo de 100 metros com dois postes em forma de H, em duas modalidades: com 15 jogadores, em dois tempos de 40 minutos, e com sete atletas, em dois tempos de sete minutos – esta a modalidade olímpica a ser disputada no Rio em 2016. Por ser muito dinâmica, a modalidade de sete permite que sejam realizados torneios que terminem no mesmo dia; na de 15, em que o contato físico é muito maior, é preciso mais tempo de recuperação dos jogadores. Uma Copa do Mundo (a deste ano será na Nova Zelândia, em setembro), dura quase 45 dias. O objetivo do jogo é marcar o try (cruzar a linha de fundo com a bola e tocá-la no chão), desde que se livre dos ataques dos adversários, que podem derrubá-lo e tomar a bola – só o jogador que estiver de posse dela pode ser derrubado. O principal “golpe” para derrubar um adversário é o tackle, que deve ser aplicado somente com o ombro, abaixo da linha do pescoço. É a regra. O rúgbi tem uma tradição que poderia ser copiada por outros esportes. A equipe que recebe o visitante é sempre a responsável pela confraternização após a partida, perca ou ganhe. É o chamado terceiro tempo, que no meio universitário é regado a bebida e muita comemoração.

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