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Ronaldo se rende ao inevitável: ‘Perdi para o meu corpo’

Ao anunciar aposentadoria, Fenômeno diz que as dores o consomem muito

O Ronaldo que entrou a passos lentos na sala de imprensa do CT do Corinthians não lembra em nada o jogador ousado e de passes ágeis que ele sempre foi em campo. E a expressão de esforço e dificuldade para subir os dois míseros degraus que interligam o chão à mesa da coletiva não deixam dúvida: “Perdi para o meu corpo”, admitiu ele, resignado, durante uma entrevista tomada pela emoção.

Ele e o presidente do Corinthians, Andres Sanchez, já chegaram ao local, pouco antes das 13h, com os olhos vermelhos e marejados. Uma multidão de jornalistas brasileiros e correspondentes internacionais os aguardavam havia mais de duas horas ocupando os 86 lugares sentados e mais todo o fundo da sala de imprensa, em pé – além da parte anexa que ficava ao lado -, com câmeras cujos cliques ensurdeciam a cada movimento do craque.

O pequeno Alex, embaixo da mesa O pequeno Alex, embaixo da mesa

O pequeno Alex, embaixo da mesa (/)

O jogador levou consigo seus dois filhos, Ronald, de 10 anos, e Alex, de 5, – ele também é pai de duas meninas -, a exemplo do jogador Washington que anunciou sua aposentadoria ao lado das duas filhas, em janeiro passado. “Achei lindo e tentei copiá-lo, mas o Alex não está ajudando muito”, disse, em um de seus poucos momentos risonhos e enquanto o pequeno se escondia embaixo da mesa coberta pela faixa #prasemprefenomeno – hashtag da campanha promovida por um patrocinador no Twitter por meio da qual o craque recebeu mensagens de apoio de personalidades, admiradores anônimos e torcedores.

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Tirando a tímida descontração com o filho, Ronaldo mostrou-se tenso e emocionado durante toda a coletiva, o que já era esperado. “Ele vai chorar”, apostou um jornalista antes mesmo do craque entrar para se despedir de uma carreira de 18 anos no futebol profissional. E o que se viu foi mesmo um homem de olhar triste, que parecia buscar as palavras certas enquanto ocupava as mãos com uma caneta que usava para rabiscar uma espécie de “cola” que ele assumiu ter levado. “Ai, ai”, foi a primeira fala que conseguiu soltar em um suspiro ao se sentar. “Fiz uma cola tremenda, sei que não vou conseguir falar nada”, completou em seguida.

A primeira (e talvez única) passagem que claramente ele seguiu do discurso previamente elaborado foi a revelação de que sofre de hipotireoidismo – doença homonal que, entre outras coisas, dificulta o emagrecimento. “Tenho certeza que muitos de vocês estão arrependidos, agora, de terem feito chacotas sobre meu peso”, alfinetou os jornalistas, retomando a postura emotiva logo em seguida: “Mas não guardo mágoa de ninguém”.

Ronaldo e Sanchez emocionados ao falar da eliminação Ronaldo e Sanchez emocionados ao falar da eliminação

Ronaldo e Sanchez emocionados ao falar da eliminação (/)

Libertadores – Com a voz trêmula, ele tentava responder às perguntas dos jornalistas que queriam saber os bastidores daquela decisão há tanto tempo aventada, mas ainda assim anunciada de surpresa. “Não era o que tínhamos programado. Como Corinthians, me sinto muito triste”, declarou Sanchez, em uma das poucas vezes que foi ao microfone, também visivelmente emocionado e enxugando as lágrimas que teimavam em cair no momento em que Ronaldo falava da eliminação do time da Pré-Libertadores, no início do mês.

“Quero pedir desculpas publicamente pelo fracasso no Projeto Libertadores”, falou, dirigindo-se ao presidente do clube e revelando que pensou em deixar os gramados no dia seguinte à derrota para o colombiano Tolima, por 2 a 0. Mas o fato derradeiro, de acordo com Ronaldo, foi uma nova lesão que surgiu na semana passada, no músculo adutor da coxa. “Refleti muito em casa, sozinho. E tomei a decisão na quinta-feira. Parecia que eu estava em estado terminal na UTI. Foi a minha primeira morte”, descreveu, destacando que se doou ao máximo, “como nunca imaginei que poderia”.

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Dores – E para assimilar o próprio veredito, isolou-se inclusive da família por dias. “É muito difícil abandonar algo que te faz tão feliz. Eu entreguei minha vida ao futebol“, justificou. Ao filhos, ele contou apenas no domingo e, assim como na coletiva desta segunda, foi bombardeado de questões. “O Ronald me fez essas mesmas perguntas que vocês estão fazendo agora”, contou sobre o mais velho, que sorriu, confirmando levemente com a cabeça.

Definindo sua saída como uma derrota física que precisa ser assumida, salientou, por fim, que as dores o consumiam de tal maneira que não conseguia pensar em mais nada. “Sinto dor até para subir escada. E não tenho elevador em casa.” E essa sua dificuldade ficou visivelmente clara quando ele precisou enfrentar de novo, agora na descida, os dois degraus da sala de imprensa para deixar a coletiva – não sem antes se emocionar mais uma vez ao receber de Andres Sanchez a camisa número 9 do Corinthians que vestiu nos últimos dois anos.

Jogo de despedida? “Em junho ou julho vamos fazer alguma coisa, reunindo jogadores que estiveram comigo ao longo da minha carreira. Uma festa de despedida.”