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Rivais de Madri preparam novas casas (sem verba pública)

O Real vai transformar o Santiago Bernabéu e o Atlético deverá se mudar para arena moderna – ao contrário do país da Copa, sem vazar os cofres públicos

Por Giancarlo Lepiani, de Madri - 21 Maio 2014, 08h05

Por serem investimentos totalmente privados, eles têm como objetivo produzir mais riqueza, e não consumir mais recursos com o passar do tempo, como nos estádios públicos erguidos para a Copa do Mundo

Na semana da final da Liga dos Campeões, o prédio do governo regional de Madri, na Puerta del Sol, a praça mais movimentada da cidade, foi decorado com as cores do Real e do Atlético, junto da seguinte frase: “Ganhe quem ganhar, ganha Madri”. Para os cartolas das equipes rivais da capital espanhola, porém, não é bem assim. Além da conquista esportiva, outra recompensa estará em jogo na decisão de sábado, em Lisboa. Calcula-se que o clube campeão terá acumulado mais de 100 milhões de reais com as premiações obtidas no decorrer da campanha, sem contar os bônus acertados com patrocinadores e demais parceiros comerciais. E esse dinheiro, mesmo para clubes que estão acostumados a arrecadações polpudas, chegará em ótima hora tanto para a agremiação branca (a mais rica, de longe) como para o clube vermelho e azul (que está afundado em dívidas calculadas em mais de meio bilhão de euros). Em ambos os casos, não se trata apenas de reforçar o caixa para contratar novos craques. Real e Atlético também tentam viabilizar a construção de seus novos estádios, projetos que despertam discórdia dentro dos próprios clubes.

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Ainda que os torcedores e sócios de Real e Atlético estejam divididos sobre a necessidade de erguer essas novas arenas, ambos os projetos diferem de maneira notável do modo brasileiro de construir novos estádios. Enquanto o país da Copa do Mundo despejou bilhões de reais de verba pública nas obras para 2014 (de forma direta, nas arenas bancadas pelos governos estaduais, ou indireta, nos estádios privados beneficiados por linhas de crédito com juros camaradas), Real e Atlético deverão pagar suas próprias arenas. Por serem investimentos totalmente privados, eles têm como objetivo produzir mais riqueza, e não consumir mais recursos com o passar do tempo (para muitos especialistas em gestão esportiva, o pior ainda está por vir nos estádios da Copa, quando as receitas obtidas com as arenas forem incompatíveis com o tamanho do investimento e os administradores tiverem de arcar com os altíssimos valores envolvidos na manutenção de um estádio moderno). Os clubes de Madri acreditam que suas novas casas serão capazes de aumentar de forma significativa as receitas tanto nos dias de jogos como no resto da semana.

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O Real está muito mais próximo de seu objetivo. Seu projeto, anunciado no início do ano, consiste numa reforma profunda do Estádio Santiago Bernabéu, sua casa atual. Orçada em cerca de 1,2 bilhão de reais, a renovação do lendário campo do bairro de Chamartín, uma região de prestígio na capital espanhola, deverá durar três anos, período em que o Real continuará mandando seus jogos no local (a transformação será gradual, com apenas alguns setores fechados a cada etapa da obra). “Queremos ter o melhor estádio do planeta”, avisou o controverso presidente do clube, o empresário Florentino Pérez. O cartola não quer reformar o estádio só para aumentar o conforto do público ou tornar a arena mais bonita. É uma questão de dinheiro: com o Santiago Bernabéu ampliado e modernizado, Pérez calcula que o Real será capaz de aumentar sua arrecadação mensal com o estádio – que já é significativa – em cerca de 30%. O estádio passa quase a semana toda em constante atividade, já que o museu do Real e a visita às dependências do clube estão entre as principais atrações de Madri. Nesta semana, com o cidade vivendo o clima da final de Lisboa, o estádio e sua megaloja tornaram-se ainda mais concorridos.

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https://youtube.com/watch?v=ci–X4cCJ2c%3Frel%3D0

Só em 2016 – A frequência também aumentou no Estádio Vicente Calderón, a casa do Atlético, campeão nacional no fim de semana, depois de um empate com o Barcelona, fora de casa. Assim como o Bernabéu, a casa da segunda principal equipe de Madri também tem museu, visita guiada e loja de produtos oficiais, mas as instalações são muito mais modestas. Erguido com muito sacrifício ao longo de mais de uma década, o estádio é menor (comporta 55.000 pessoas, contra 81.000 do rival) e bem menos confortável, sem nenhum luxo e com certo descuido na conservação. Mas a escassez de investimentos para aperfeiçoar o Calderón é fácil de entender: o Atlético sonha com a mudança para uma nova casa, que vem sendo preparada a passos lentos, na zona leste da cidade, perto do Aeroporto de Barajas. Para muitos torcedores, a mudança é uma péssima ideia, já que o estádio atual, a poucos quilômetros do centro, tem uma localização mais conveniente. Os cartolas, porém, insistem no projeto, argumentando que ele pode ser um fator decisivo para fazer o clube subir de patamar. Assim como no caso do rival local, o grande objetivo é alavancar as receitas e, com isso, dispor de mais recursos para fortalecer o elenco e conquistar mais títulos.

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Além de sua pesadíssima dívida, o clube enfrentou outras dificuldades para concretizar seu plano. Depois de muita negociação, uma complicada operação financeira permitiu ao Atlético renovar seu sonho – o governo local aceitou mudar o zoneamento da área do Calderón, na zona sudoeste, para permitir que o terreno do estádio, somado à área de uma cervejaria vizinha, dê origem a um empreendimento residencial e a um novo parque. Enquanto o velho estádio, cuja última reforma significativa ocorreu antes da Copa do Mundo de 1982, ocupa uma área apertada, limitada pelo Rio Manzanares, a futura casa do Atlético será erguida num terreno amplo, no local onde seria construído o Parque Olímpico de Madri. Derrotada em três eleições consecutivas para cidade-sede dos Jogos (numa delas, pelo Rio), a capital espanhola aceitou vender o esqueleto do que seria o estádio olímpico, um campo de atletismo apelidado de La Peineta (por parecer um pente de cabelo), ao clube dos brasileiros Diego Costa, Miranda e Filipe Luís. Nos últimos meses, as fundações foram concluídas e a construção do anel inferior do estádio, que deverá ter capacidade para 73.000 torcedores, teve início. A inauguração foi prevista para 2015, mas o Atlético, repita-se, não é o Real – na cidade, ninguém acredita que o prazo será cumprido, e poucos acham que o clube ocupará a nova casa antes da temporada 2016. Pelo menos nesse aspecto, um dos novos estádios de Madri se assemelha às arenas da Copa no Brasil.

https://youtube.com/watch?v=r0P659nhtVs%3Frel%3D0

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