Clique e assine a partir de 9,90/mês

Rio Open prega a democratização do esporte: ‘O tênis não é elitista’

Maior torneio de calendário olímpico do Brasil chega à sua 7ª edição nesta segunda-feira, com objetivos que vão além do sucesso dentro de quadra

Por Danilo Monteiro - Atualizado em 19 fev 2020, 22h07 - Publicado em 17 fev 2020, 09h10

“O maior evento de calendário olímpico do Brasil”, assim o Rio Open é orgulhosamente tratado pela diretora geral, Marcia Casz, e pelo diretor do torneio, Lui Carvalho. Com expectativa de receber mais de 50 000 pessoas durante a semana, o ATP 500 – terceiro na escala de importância dos campeonatos internacionais do circuito masculino – começa sua sétima edição nesta segunda-feira 17 e, após seis anos de consolidação, tenta evoluir para ajudar no desenvolvimento do tênis brasileiro. “Nosso sonho é ter um telão na praia de Copacabana para transmitir a final do Rio Open”, disse Marcia, em entrevista a VEJA, que fez questão de lembrar que o esporte, tachado de elitista por um ex-presidente da República, está hoje presente no enredo da novela de maior audiência da TV Globo.

“O Rio Open é o maior evento esportivo de calendário olímpico do Brasil, ponto. Nosso slogan esse ano, inclusive, é: ‘o maior torneio da América do Sul é nosso’. O Rio Open é uma versão de um ATP 500, mas com um DNA carioca, uma pegada brasileira. É algo descontraído, aberto”, comentou Carvalho. “Foi um tsunami a primeira edição do torneio. O evento hoje está incorporado no calendário da cidade, queremos democratizar o esporte cada vez mais. Nos inspiramos nos torneios lá de fora para trazer o que há de melhor para cá”, completou Casz.

Confira abaixo os principais pontos da entrevista com os organizadores do Rio Open:

“Sempre planejamos ter pelo menos dois top 10 e conseguimos entregar isso nos últimos sete anos”

Rafael Nadal vai desfilar ao lado do brasileiro Gustavo Kuerten
Rafael Nadal recebe prêmio do Rio Open ao lado do brasileiro Gustavo Kuerten Ivan Pacheco/VEJA.com

Uma das missões mais complicadas é a de negociar com os melhores tenistas do circuito. A tarefa dada a Lui Carvalho é realizada ao longo de todo o ano e nem sempre dá certo, muitas vezes pelo mesmo motivo: o saibro. A data do Rio Open fica próxima aos Masters 1000 de Indian Wells e Miami, nos Estados Unidos, ambos em quadra dura. A melhor preparação para os jogadores seria, teoricamente, em torneios com o mesmo tipo de piso, mas o diretor tenta ano a ano para convencer os atletas de que a teoria é subjetiva.

Continua após a publicidade

“É um desafio adicional (o piso), pois temos cada vez menos especialistas em saibro como no passado. Temos mais tenistas que preferem o piso duro. O saibro é um dificultador para atrairmos esses caras, mas nem por isso deixamos de ir atrás. Sempre planejamos ter dois top 10 e conseguimos entregar isso nos últimos sete anos. Tenho bastante contato com os agentes dos atletas durante o ano, mas é uma questão controversa. O Thiem, ano passado, jogou Buenos Aires e Rio no saibro e depois conquistou o Masters 1000 de Indian Wells, no piso duro. As condições climáticas do Rio se assemelham mais às de Indian Wells e Miami do que as de um torneio indoor europeu, a menos de 10ºC. São argumentos que tentamos usar para convencer mais atletas. Buenos Aires e Rio também ajudam na preparação para Roland Garros”, explanou Lui.

O sarrafo é ainda maior para conseguir uma data no concorrido calendário do Big 3, formado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. “É difícil. Eles têm propostas de todos os eventos, não só da ATP, mas não desisto. Minha última conversa com o agente do Federer foi exatamente sobre isso. Eu disse: ‘ele tem todos os títulos, 250, 500, 1000, piso duro, saibro, gelo e tudo, mas não tem um título na América do Sul, como ele vai terminar a carreira sem um título aqui? (risos)’. Brincadeiras à parte, tentamos todos os anos. O ano de 2020 é desafiador porque temos Jogos Olímpicos, ATP Cup e a Laver Cup, são datas novas que enchem o calendário deles”, revelou o diretor do Rio Open.

“O Parque Olímpico é muito lindo, mas precisaríamos de investimento de R$ 5 milhões devido ao estado das instalações e falta de manutenção”

Quadras de tênis do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro Mario Tama/Getty Images

Com quadra dura, o Parque Olímpico seria a solução natural para as dificuldades com relação ao piso, mas a mudança precisa de uma negociação complicada com a ATP. Além disso, os organizadores do Rio Open garantem que os problemas internos para utilização da arena e quadras de tênis do Parque são suficientes para não valer o investimento até o momento.

“Desde que ficamos sabendo que teríamos uma arena permanente de tênis, em 2011, enxergamos com ótimos olhos. Tem uma conjuntura de coisas que precisariam acontecer para irmos para o Parque Olímpico. Tentamos durante alguns anos, junto à ATP, fazer a mudança para piso duro e ir para o Parque Olímpico – o que fazia sentido na época. Nem por isso deixamos de ver o Parque Olímpico como um local atrativo para um dia sediar o evento, mas não é um plano nem a curto, médio ou longo prazo”, explicou Carvalho.

Continua após a publicidade

“O Parque está passando por várias gestões. Precisamos de uma segurança jurídica e financeira de que a estrutura vai ficar daquela forma para os próximos cinco ou dez anos. Não podemos simplesmente mudar o evento para lá e no ano seguinte o novo governo mudar os planos. Precisaríamos de um investimento próximo a 5 milhões de reais, devido ao estado das instalações e porque não tem manutenção. Hoje, se chover, alagou e não tem mais jogo. Precisaríamos da aprovação de todos e de um contrato a longo prazo”, contou Marcia Casz.

“Tem a questão da construção de prédios, isso impactaria no evento, por causa da sombra na quadra. A arena foi concebida para ser completamente coberta, mas devido a cortes de orçamento, tiraram 3/4 dessa cobertura. Também não foi impermeabilizada, então quando chove na estrutura da arquibancada, a água corre pela parede, dentro da estrutura. O estádio é muito lindo, mas tem muita coisa que precisamos fazer para conseguir sediar um ATP desse nível”, esclareceu Lui.

“Você alguma vez já imaginou o tênis na novela das 9?”

Rio Open atraiu mais de 50 mil pessoas durante o torneio em 2019 Rio Open/Reprodução

O tênis sempre foi considerado um esporte elitista em comparação ao futebol, vôlei, basquete e outros. Essa visão, entretanto, não condiz totalmente com a realidade, segundo Marcia e Lui. “O tênis é um esporte popular nas grandes capitais. Todos os clubes e condomínios têm quadras de tênis. A dificuldade sempre foi de popularizar o esporte através de quadras públicas, mas isso não é uma situação exclusiva do tênis. O único esporte verdadeiramente popular é o futebol, todos os outros, neste caso, deveriam ser considerados elitistas, porque você não nada sem piscina, não joga vôlei sem quadra”, opinou Lui.

“O tênis não é um esporte elitista, mas ainda não é praticado por todas as camadas da população. Temos preços acessíveis de ingresso, porque queremos um evento democrático. Temos ingressos de 30 reais e meia-entrada. O qualifying é de graça. Afinal, o nome é Open, né? Além disso, estamos em um bom caminho. Você já imaginou o tênis na novela das 9? O tênis está na novela das 9, totalmente popular, com uma história legal da atriz Erika Januza, que quer ser uma tenista. Para fazer uma novela, eles fazem muita pesquisa. Se o esporte não tivesse popularidade, ele não seria parte importante de uma novela das 9. Tenho certeza de que o Rio Open contribuiu muito para isso acontecer”, revelou Marcia.

Continua após a publicidade

A popularização do tênis é um trabalho árduo, por falta de estrutura públicas e pela dificuldade de criar uma identidade com o esporte em um momento em que não há ídolos nacionais, afinal, as grandes conquistas de Guga completarão vinte anos. “Um dos nossos focos é conseguir fazer essa transição dos tenistas juvenis brasileiros. O Brasil demora muito para trocar de geração. Desde o Thomaz Bellucci, não veio ninguém por um bom tempo. O Thiago Monteiro apareceu para o mundo quando venceu o Jo-Wilfried Tsonga no Rio Open. Estamos organizando o Maria Esther Bueno Cup para tenistas de até 23 anos. O campeão ganha um convite para a chave principal, caso do Felipe Meligeni (sobrinho de Fernando, o Fininho), e o vice ganha convite para o quali, que foi dado a Thiago Wild. Quando temos mais referências nacionais, a garotada de baixo começa a chegar também. No tênis, está faltando uma referência próxima”, explicou Carvalho.

“O nosso propósito é transformar cidadãos através do esporte”

Crianças que participaram do programa de boleiros do Rio Open 2019 recebem certificado Rio Open/Reprodução

O trabalho social do Rio Open também é notório e, inclusive, foi premiado em 2017 com o ATP Aces For Charity, honraria dada ao torneio com maior iniciativa social de todo o circuito. “Temos um engajamento social forte durante o ano inteiro, não apenas durante a semana do torneio. O evento é um local onde podemos comunicar coisas boas para a sociedade. Queremos gerar trabalho e educação também”, disse Marcia.

“O nosso propósito é transformar cidadãos através do esporte. Apoiamos projetos sociais em que participam mais de 500 crianças. Queremos que nasçam novos talentos, não necessariamente para serem atletas, mas para gerar trabalhos para esses jovens. Quem tem a oportunidade de conhecer, se apaixona. Nosso papel é proporcionar isso. Existe muito tênis na televisão, isso é um bom indicador. Os torneios acabam virando um polo de entretenimento para todo mundo. Nosso papel é democratizar, levar para mais pessoas. Nada melhor que um grande torneio no seu país para inspirar crianças a jogar”, continuou.

As crianças são parte fundamental do público alvo do Rio Open, que investe pesado em projetos sociais e de incentivo ao esporte ao longo do ano. A organização idealiza, durante o torneio, cursos de capacitação de professores para crianças de 8 a 10 anos, idade onde a paixão pelo esporte começa a aflorar. “O professor sai de lá sabendo sessenta exercícios práticos para crianças dessa faixa etária. Existe toda uma tecnologia, raquete menor, bolinhas mais lentas, de cores diferentes. Começamos o projeto no ano passado no Rio de Janeiro, fizemos três cursos e atingimos 200 profissionais. No domingo, dia da final, levaremos o treinador de algum dos jogadores para conversar com esses professores. A ideia é deixá-los com mais bagagem para reter as crianças no esporte, já que hoje existem tantas distrações, como celulares e videogames”, contou Lui.

Continua após a publicidade

“Também criamos um torneio para crianças dessa faixa etária, que é disputado em oito etapas, no Rio, São Paulo, Curitiba, Brasília e Minas Gerais. Os oito campeões jogarão o Rio Open Kids, que também acontecerá no domingo da final. Colocaremos toalhas com os nomes deles, camisa, munhequeira, credencial de jogador, tudo para motivar a criançada, para fazê-los se sentirem como profissionais. Em nosso programa de Ball Kids, damos oportunidade para sessenta crianças durante o torneio. É um privilégio, porque a melhor visão da quadra é a do boleiro. O Federer um dia foi pegador de bola durante a juventude. A ATP escolheu três torneios para que dois de seus boleiros participem do ATP Finals. Já levamos quatro crianças para o torneio. Tem vídeo deles com Federer, Djokovic, é inspirador”, concluiu o diretor.

Publicidade