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Renzo Gracie: ‘Estou mais rico do que poderia imaginar’

Suas academias de jiu-jítsu em Nova York têm mais de 1.300 alunos. Entre eles, o campeão Chris Weidman e ator Keanu Reeves

Por Jackson Bezerra Atualizado em 18 mar 2021, 21h27 - Publicado em 19 ago 2013, 07h30

Renzo Gracie é um paizão. Sentado à mesa do escritório de sua academia de jiu-jítsu, sempre bem-humorado, chama um lutador que passa a caminho do tatame, em seguida grita o nome de outro e brinca com todos. Quer saber da namorada, dos filhos, elogia o trabalho nos treinamentos e os abençoa em português, em inglês, ou nos dois idiomas: “God bless you, meu irmão!” Enquanto a entrevista a VEJA.com acontece, o carioca neto de Carlos Gracie e sobrinho-neto de Hélio Gracie, os criadores do “jiu-jítsu brasileiro”, o estilo de maior sucesso nos EUA, vai resolvendo os problemas do dia. Um lutador com corte no supercílio? “Não precisa de ponto, deixa que eu passo cola.” O cabelo do lutador está comprido? “Me dá aqui uma tesoura!” O homem é uma figura.

E uma figura adorada pelos atuais 1.342 alunos da Renzo Gracie’s Academy, na 30th Street, em Nova York, uma das maiores do mundo. Treinam por lá celebridades como Guy Ritchie, ex-marido de Madonna, e o ator Keanu Reeves, astro de Matrix, além, claro, de alguns dos melhores lutadores de MMA, como os americanos Chris Brennan, Frank Edgar, o algoz de Anderson Silva, Chris Weidman, o canadense Georges St-Pierre, os brasileiros Rafael Natal e Marlon Moraes, e os primos da tradicional família Gracie: Roger, Gregor, Rolles, Igor e Clark.

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Aos 46 anos, mesmo longe dos holofotes do UFC – ele não luta desde 2010, quando foi derrotado por Matt Hughes -, Renzo é uma lenda do esporte, não apenas pelas 13 vitórias de sua carreira, algumas contra campeões do UFC, mas também por sua histórica derrota para o japonês Kazushi Sakuraba, que quebrou seu braço no ringue em 2000, pelo extinto Pride..

“Sempre acreditei que não desistiria se alguém encaixasse uma chave de braço. Foi uma chance de saber se a minha cabeça era mais forte que meu corpo, por isso não desisiti naquela hora”, explica Gracie. Na parede do seu escritório, uma foto com Sakuraba tem lugar de destaque. “É uma forma de lembrar que um erro sempre vai ter um preço. Temos de acreditar que a luta e a vida só acabam quando o sino bate.”

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Tanta determinação e a indiscutível qualidade de seu método de treinamento – Weidman, por exemplo, considera sua academia “a Meca do jiu-jítsu” – fizeram de Renzo um homem rico. “Mais rico do que eu poderia imaginar.” Somados, os faturamentos da academia principal com as duas filiais, no bairro do Brooklyn, e na cidade de Holmdel, em New Jersey, chegam a cerca de 350.000 dólares mensais (aproximadamente 824.000 reais).

Casa de Renzo Gracie em Holmdel, New Jersey (EUA)

Renzo mora hoje na vizinha Holmdel com a mulher Cristina e os três filhos – Catarina, de 21 anos; Cora, 19; e Ruran, 18 – em uma mansão de 4 milhões de dólares, que tem sete quartos, academia de ginástica, piscina, sala de home theater e até cabeleireiro. Mas nem sempre foi assim. “Tenho lá um cachorro vira-lata para não esquecer de onde vim.” Nesta entrevista, ele conta um pouco de sua história e faz duras críticas ao principal lutador brasileiro, Anderson Silva.

O que o senhor achou das provocações de Anderson Silva durante a luta contra Chris Weidman? O Chris foi insultado. Ele esticou a mão e o Anderson não apertou. Vou contar uma história de um cara de que gosto, o ex-jogador de futebol Edmundo. Eu o conheci no Japão e quando o encontrei depois, no Rio de Janeiro, estiquei a mão. Ele olhou na minha cara e não apertou. Aí, meu irmão, falei: “Olha, rapaz, quando estico a mão para alguém, ou aperta ou dou com ela na cara” (risos). Foi um mal-estar e um sujeito que o acompanhava falou: “Esse aí é irmão do Ryan.” E eu respondi: “Não, não, não, fera, o Ryan é meu irmão.” O Edmundo pediu desculpas e veio me abraçar (risos).

Anderson também foi desrespeitoso durante a luta? Entendo que a maneira que ele luta facilita a vitória. Ele provoca e o adversário se expõe e é nocauteado. Não é à toa que só vence nos últimos sete anos.

Kazushi Sakuraba quebrou o braço de Renzo Gracie em 2000

Há quem diga que o Anderson leva estas atitudes para fora do ocotógono. Ele se transformou numa estrela e o sucesso, quando não se vem de um berço certo, sobe à cabeça. Então você começa a acreditar que é superior aos outros, que é melhor. Nove entre dez brasileiros que tiram foto comigo falam mal dele. Se uma pessoa pede um autógrafo, nessa hora não se pode ser maior do que ela. E além disso lutador é um produto. Se aquele fã não comprar, ele não terá patrocinador.

Como foi a preparação do Chris Weidman na sua academia? Ele vinha quatro vezes por semana. A parte do jiu-jítsu treinei muito com ele todos os sábados.

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Quais eram as suas dicas principais? O perigo do Anderson Silva é quando o adversário se afasta. E ele dança, e mesmo se ele cuspir em você, é preciso encurtar a distância (faz o gesto de braço esticado), tocando na mão dele, deixando-o desconfortável. Isso significa que você está perto, colocando pressão o tempo todo. Não pode mudar o próprio ritmo.

Algum fator facilitou a vitória de Weidman? Ele tem uma coisa que os outros adversários do Anderson não tinham. O Chris é do tamanho dele e tem envergadura maior. O Anderson sabe usar melhor a envergadura, mas a verdade é que o Chris aproveitou essa diferença e teve alcance na hora do nocaute.

Academia de Renzo Gracie no Brooklin, NY

Suas três academias têm quase 2.000 alunos que pagam 189 dólares por mês, 445 reais, para treinar. O senhor está rico? Os profissionais, cerca de 5% do total, não pagam nada. Mas estou rico, sim, mais do que poderia imaginar.

Quanto vale sua casa em Holmdel? Uns 4 milhões de dólares [pouco mais de 9,4 milhões de reais]. É a melhor casa da cidade. Quando mudei para lá em 1997, morava na pior da cidade. Os pais das amigas da minha filha Catarina traziam as filhas para brincar e quando viam a casa davam meia volta.

Como o senhor começou em Nova York? Quando cheguei em 1996, fiquei sócio de uma academia de jiu-jítsu na rua 27. Eu treinava e ainda dava aula sete dias por semana. Começamos com 60 alunos, e em dois meses já tínhamos 260, mas em pouco tempo meu sócio começou a me roubar. Fazíamos fitas de vídeo com os treinos, ele vendia e não me pagava. E eu não podia reclamar porque meu visto estava atrelado a ele. Qualquer confusão e nunca mais poderia ter um green card. Passei um ano sem dormir direito, mas me organizei, contratei advogado e consegui o documento definitivo para caminhar sozinho.

O senhor já tinha dinheiro para abrir uma academia? Não, aluguei espaço em uma academia de kung fu na rua 25. Fiz um acordo: usava o tatame e a academia usava a minha imagem, virei garoto-propaganda do lugar. Eu tinha de montar e desmontar o tatame todo dia sozinho. Minha primeira academia própria só em 1999, quando aluguei um espaço de uns 130 m² na rua 37, mas a vizinhança era a pior possível.

Keanu Reeves em matrix

Como assim? Eu não podia pagar aluguel alto e achei o local ótimo. Aí me avisaram: “No andar de baixo tem uma clínica de tratamento com metadona.” E eu: “Metadona? Não estou nem aí, vou alugar assim mesmo.” Eu não sabia que metadona é usada para tratamento de viciados em heroína. Durante anos presenciei cenas horríveis. Pessoas com os braços mutilados, os viciados como zumbis depois de tomar a tal metadona.

Mesmo assim o senhor preferiu ficar lá até 2004? Eu já tinha vários alunos e amigos milionários que me dariam o dinheiro para sair dali, mas na minha cabeça eu era o cara que sempre dava ajuda e nunca pedia. Consegui chegar aos 360 alunos, juntei dinheiro e mudei para este endereço na rua 30. No começo era apenas uma sala, e hoje são cerca de 1.300 m².

O senhor ainda dá aulas? Para os lutadores profissionais, faço toda a orientação junto com meus treinadores. São 18 professores de jiu-jítsu no total, nas três sedes. Estudamos o adversário e preparamos a estratégia, caso a caso. Aulas dou poucas.

E se alguém quiser pagar muito? A história muda (risos). Vou dar aulas ao Keanu Reeves, uma preparação para um filme. Cada aula, 1.000 dólares (cerca de 2.300 reais). E ele quer que eu faça uma participação nas filmagens.

Há muitas mulheres treinando? Poucas fazendo jiu-jítsu. Mas hoje já temos aulas de muay thai, que elas preferem por não ser uma luta de contato. Temos 12 professores dessa modalidade.

E crianças? Nos Estados Unidos as academas de luta têm em média só 15% de adultos e o restante é de crianças. Na minha é o contrário: só tenho 5% de crianças. Por isso estou procurando um local no Upper East Side (lado nobre da cidade, próximo ao Central Park). É bem residencial, bem diferente daqui. Criança precisa treinar perto de casa. Vamos arrebentar lá.

Renzo Gracie e Max McGarr, administrador das academias e ex-namorado de sua filha Catarina

​É o senhor quem administra as academias? Quem me ajuda é o Max McGarr, um ótimo administrador de empresas. Garotão, foi namorado da milha filha Catarina e ainda é apaixonado por ela (risos). O moleque é fera, muito organizado.

E os lutadores da família Gracie? O senhor ajuda todo mundo? Claro. Mora todo mundo junto aqui do lado. O maior prazer da minha vida não é ganhar dinheiro, é ajudar as pessoas a crescerem. Tem gente da família que veio aqui, ficou alguns anos, e depois voltou ao Brasil para montar academia e está bem. Amigos também, não apenas da família. Tem gente por aí que tem o apelido de Gracie de tanto que se aproximou do nosso estilo. Fico feliz com isso.

O senhor pretende voltar a lutar? Sim, ainda em 2013, mas não me pergunte mais nada.

Pode ser pelo UFC? Se não for pelo UFC deve ser pelo OneFC, que está fortíssimo na Ásia. Entre setembro e dezembro tem campeonato na Indonésia, em Singapura, na Malásia e no Japão. E antes de chegar aos Estados Unidos eles querem fazer lutas no Brasil. Talvez em fevereiro ou março de 2014.

Por que não há lutas de UFC em Nova York? O UFC tem problemas com o sindicato dos hotéis e não vai entrar aqui enquanto não resolver isso. E olha que coincidência: o dono da minha primeira casa em New Jersey, aquela que era a pior da cidade, é o chefão desse sindicato, com quem tenho ótimo relacionamento e boas conversas. Isso quer dizer que, se o UFC quiser entrar em Nova York, vai ter de negociar comigo (risos).

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