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Regata dirá se Rio conseguiu isolar veleiros da poluição

Despoluição da Baía de Guanabara é objetivo distante, mas Estado e município fizeram mutirão para evitar que lixo flutuante cruze o caminho das embarcações que participam do primeiro evento-teste da Olimpíada de 2016

Por Cecília Ritto 2 ago 2014, 08h08

A partir deste sábado, dia 2, e durante a semana seguinte, 324 velejadores de todo o mundo estarão singrando a Baía de Guanabara na Regata Internacional de Vela, uma das maiores competições do mundo na categoria e o primeiro – e importantíssimo – evento-teste da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Em volta, terão o conhecido cenário de tirar o fôlego: Pão de Açúcar logo ao lado, Cristo Redentor mais ao longe, Aterro do Flamengo, ponte Rio-Niterói. Na água, porém, mora o perigo na forma de bichos mortos, colchões, eletrodomésticos e todo tipo de plástico que, vira e mexe, aparecem boiando na baía, ainda uma lixeira a céu aberto. Num esforço para impedir o encontro de veleiros com resíduos mal cheirosos – e a transmissão dessa imagem para o mundo, pesadelo número 1 da organização da Olimpíada -, a Secretaria do Meio Ambiente do estado e companhia de água e esgoto da região metropolitana uniram-se em mutirão nos últimos meses para tentar garantir a limpeza, pelo menos, dos trechos onde a regata vai acontecer. “Nosso trabalho era dar condições de navegação aos veleiros, e isso nós fizemos. Há metas mais ambiciosas para 2016, que também serão alcançadas”, afirma o secretário estadual da Casa Civil, Leonardo Espíndola, referindo-se ao compromisso do governo de que, quando a Olimpíada começar, 80% do esgoto que deságua na baía será tratado.

No esforço conjunto, os órgãos municipais cuidaram de ampliar o tratamento do esgoto procedente da cidade do Rio (52% hoje) e de Niterói (90%). Ao mesmo tempo, reformaram e reativaram quatro estações de captação de lixo subaproveitadas. A isso se juntou a compra, pela Secretaria do Meio Ambiente, de dez “ecobarcos”, coletores do lixo que boia na água, especialmente para o evento-teste de agora. Eles entraram em ação a partir de janeiro e, na semana da regata, serão reforçados por outras dez embarcações do gênero cedidas pela Petrobras e outras empresas. Essas medidas dariam conta, em teoria, de boa parte da limpeza (pelo menos da cosmética) da Baía de Guanabara, não fosse o fato de que só cuidam da metade dela que vai da ponte Rio-Niterói até o mar aberto. Na outra metade, a que banha a Baixada Fluminense e São Gonçalo, a maior parte do esgoto não é tratada. Pior: sequer há rede de esgoto abrangente. O resultado é uma montanha de lixo perenemente acumulada ao norte da baía. Os percursos da regata da semana que vem não passam por lá, mas a sujeira se move; e dependendo das marés e dos ventos, pode se mover justamente na direção dos veleiros – e das câmeras de TV.

A limpeza da Baía de Guanabara nesta regata é ponto de honra para a organização da Olimpíada porque é exatamente lá, nesta mesma época do ano, que a vela vai disputar medalha em 2016. A reputação do local não favorece uma boa impressão. Em junho, o New York Times publicou longa reportagem sobre o lixo flutuante. Na semana passada, o australiano Matthew Belcher, medalha de ouro em Londres, num treino para a regata tirou foto de um cachorro morto boiando ao lado do seu veleiro. Há um ano, em uma competição pré-olímpica, um pedaço de plástico grudou no casco e prejudicou o desempenho de um barco. Velejadores brasileiros que conhecem bem a área frequentemente reclamam da sujeira e do esgoto que, tratado ou não, continua a ser lançado nela. “Como morador do Rio e coordenador técnico da equipe olímpica, espero que seja feito o possível para melhorar de fato o local de prova. As autoridades falam muito e fazem pouco”, dispara Torben Grael, brasileiro recordista de medalhas na vela.

Com belas praias interditadas aos banhistas há meio século, os projetos de limpeza efetiva da baía têm sido um sorvedouro de dinheiro público sem resultado visível – como o ambicioso Programa de Despoluição da Baia de Guanabara (PDBG), de 1994, que consumiu 1 bilhão de dólares antes de ser descartado por sua ineficiência. Com ou sem tratamento, nela se deposita o esgoto de 9 milhões de pessoas, um despejo dez vezes maior do que seu próprio volume. Diante da enormidade do problema, as medidas tomadas para a Olimpíada são um começo, mas não passam disso. Despoluir de verdade requer, além da remoção do lixo visível, tratar 100% do esgoto despejado em estações de alto grau de eficiência (nem todas são atualmente) ou desviá-lo para alto mar, dar fim ao lodo impregnado de poluentes e, feito isso, fiscalizar para que a sujeira não volte. Antes que isso aconteça, muita água (suja) ainda vai rolar.

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