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Quanto mais caro melhor: a estratégia dos times para manter jovens craques

O interesse dos clubes europeus no Mundial Sub-17 é indício de um fenômeno: a busca por jogadores muito jovens, transformados em investimento financeiro

O campeonato mundial de futebol para atletas com até 17 anos tem o charme de oferecer aos olhos dos torcedores meninos que brilharão no futuro — o português Luís Figo estourou no torneio de 1989; Ronaldinho Gaúcho foi a estrela de 1997. E, no entanto, a competição nunca teve muito destaque. A edição de 2019 do Sub-17 está sendo disputada no Brasil: em Goiânia, Cariacica (ES) e Gama, cidade-satélite no Distrito Federal. O SporTV transmite os jogos, mas ninguém tem dado muita atenção a eles, à exceção dos apaixonados de sempre. E, no entanto, apesar da discrição, as partidas têm reunido nas tribunas grupos de olheiros dos principais clubes do mundo. Olheiros são profissionais que descobrem diamantes a ser lapidados.

Garimpar atletas ainda imberbes é um truque econômico — eles são comprados antes simplesmente porque podem custar caro depois de alçarem voo. O caso de Neymar, vendido pelo Barcelona ao Paris Saint-Germain em 2017 por inéditos e abusivos 222 milhões de euros, ajuda a entender o pulo do gato da aquisição precoce. Se o jogador tivesse sido descoberto mais cedo — ressalve-se que o camisa 10 da seleção participou do Mundial Sub-17 em 2009 e passou quase despercebido —, o clube francês e, antes dele, o catalão não teriam de descer com caminhões de dinheiro. Resultado: garotos mal saídos da adolescência já têm multas rescisórias milionárias em seus contratos. É um modo de segurá-­los, ou de encher o caixa. Somente nos últimos dois anos, dois talentos brasileiros foram negociados com o mesmo clube, o Real Madrid, sem ter atingido a maioridade legal: foi o caso de Vinícius Júnior, ex-­Flamengo, e de Rodrygo, ex-Santos, ambos vendidos por 45 milhões de euros. Nem mesmo as joias europeias escapam da hipervalorização. O meia Pedri González, de 16 anos, foi adquirido pelo Barcelona do pequeno Las Palmas, da segunda divisão espanhola, por módicos 5 milhões de euros. Se o clube catalão deixasse para fazer a compra após a realização do Mundial, certamente ele custaria bem mais. Depois de perder Neymar para o PSG, o Barça decidiu não correr riscos: estipulou a multa milionária de 100 milhões de euros antes mesmo de Pedri fazer a estreia pelo time principal. Caso seja incorporado ao elenco profissional, o valor estipulado em contrato subirá para exorbitantes 400 milhões de euros.

Essa multiplicação de valores virou padrão no futebol. É um olho na bola e o outro nas cifras, permanentemente. Quando o treinador Jorge Sampaoli promoveu o volante Sandry, na ocasião com apenas 16 anos, ao time principal do Santos, a diretoria rapidamente decidiu afastar o jogador. Foi somente depois de renegociar os termos do vínculo com o atleta, cuja multa foi definida em 100 milhões de euros, que Sandry voltou ao elenco profissional. “A multa é uma segurança para o clube e para o jogador”, diz o presidente do Santos, José Carlos Peres. “Temos de proteger o investimento feito na formação dos atletas, além de encontrar uma condição para que eles atuem o máximo de tempo possível por aqui.”

Afora isso, há uma razão técnica para a ida à Europa de jogadores ainda em estado bruto. O continente enxerga o Brasil como um país atrasado taticamente (e quem há de negar essa condição?). Por isso quer moldar os talentos à sua maneira. “Veja o caso do Everton Cebolinha. Não há como pagar 50 milhões de euros por um jogador de 23 anos. Ele vai levar um ano para se adaptar, para ver se no outro vai ser titular”, disse a VEJA o olheiro de um grande clube europeu, que preferiu não ser identificado. Ou seja: só vale mesmo a pena, para os investidores, se a roda começar a girar bem, mas bem cedo. Os empresários da bola confirmam a tendência. “Não estou dizendo que está certo, mas é algo que os europeus falam abertamente”, revela Frederico Pena, que participou da negociação de Vinícius Júnior. “Quando um jogador com menos de 18 anos desponta, os clubes europeus já vêm fazer um assédio”, afirma André Cury, agente com linha direta com os dirigentes do Barcelona. Tanta precocidade pode ser cruel, mas já não há como ignorá-la.


TIPO EXPORTAÇÃO

Os jogadores da seleção brasileira sub-17 com o maior valor de mercado

 (Bruna Prado/FIFA/Getty Images)

SANDRY, volante do Santos
Multa rescisória: 100 milhões de euros


 (Bruna Prado/FIFA/Getty Images)

LÁZARO, atacante do Flamengo
Multa rescisória: 80 milhões de euros


 (Bruna Prado/FIFA/Getty Images)

GABRIEL VERON, atacante do Palmeiras
Multa rescisória: 60 milhões de euros

Publicado em VEJA de 13 de novembro de 2019, edição nº 2660