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Quando um Rússia x Coreia, em Cuiabá, se torna um show

Jogo pouco atrativo é ofuscado por festa nas arquibancadas da Arena Pantanal

“Chegando ao estádio, todos suados, os fãs brasileiros e estrangeiros abasteceram seus copos de cerveja e tiraram ‘selfies’ incontáveis. Para os cuiabanos, acostumados a ver no terreno o antigo Estádio Verdão, deparar-se com uma arena tão bela e imponente era quase surreal”

O encontro entre Rússia e Coreia do Sul, na Arena Pantanal, em Cuiabá, tinha tudo para ser um dos jogos mais pobres desta Copa do Mundo. No gramado, vinte e dois atletas desconhecidos e seleções inexpressivas. Nas arquibancadas, algumas cadeiras vazias, e um público pouco habituado a frequentar estádios. O palco da festa, fortíssimo candidato a elefante branco, ainda estava inacabado. O cenário ideal para uma tragédia esportiva estava montado. E dentro de campo, a expectativa se confirmou: a partida foi fraca, decidida com uma falha imperdoável do goleiro russo e uma rebatida na área asiática que mais lembrou um Mixto x Operário, o principal clássico mato-grossense. No entanto, assim como aconteceu no jogo entre Chile e Austrália na semana passada, Cuiabá viveu um dos dias mais especiais de seus 295 anos de história, graças à mágica da Copa do Mundo de futebol.

O espetáculo, na realidade, começou ainda na segunda-feira, quando uma multidão de russos e sul-coreanos lotaram os bares do centro da ‘Cidade Verde’. Uma feliz coincidência potencializou ainda mais as comemorações: o segundo jogo da Copa em Cuiabá aconteceria uma hora após a partida entre a seleção brasileira e mexicana, em Fortaleza. Segundo a Polícia Militar de Cuiabá, 43.000 pessoas compareceram à Fan Fest mato-grossense da Fifa para assistir ao empate em 0 a 0 da equipe anfitriã. Por lá, pontos vermelhos se misturavam ao mar de camisas verde e amarelas. Eram os russos e sul-coreanos que deixaram para trás qualquer barreira cultural ou linguística e já estavam devidamente entrosados, em meio a gritos de ‘Neymar’ e ‘Brasil’.

Muitos torcedores decidiram deixar a Fan Fest ainda no intervalo do jogo do Brasil, para não correr o risco de se atrasar para o principal compromisso do dia. À base de mímicas, dezenas de russos encontraram o caminho que os levaria à Arena e, com seus chapéus e apetrechos típicos, encararam um ônibus lotado e infernalmente quente. Mas nem mesmo a sensação térmica do veículo, inversamente proporcional à de regiões da Sibéria, diminuiu a animação dos europeus. Há doze anos sem ver sua seleção disputar um Mundial, os russos capricharam nos cânticos que embalaram a viagem, enquanto os brasileiros tentavam acompanhar o ritmo. Um dos nativos tentou ser simpático com os visitantes e gritou o nome de Kerzhakov, provavelmente o único jogador russo do qual tinha conhecimento – e que curiosamente, marcaria o gol contra a Coreia. No entanto, os russos rapidamente corrigiram a pronúncia do brasileiro (deve-se dizer ´Kerjakov’). O torcedor não perdeu a pose e exclamou: “Sharapova, Sharapova”, arrancando risos dos compatriotas da musa do tênis.

Chegando ao estádio, todos suados, os fãs brasileiros e estrangeiros abasteceram seus copos de cerveja e tiraram ‘selfies’ incontáveis. Para os cuiabanos, acostumados a ver no mesmo terreno o antigo Estádio Verdão, deparar-se com uma arena tão bela e imponente era algo quase surreal. Mais ainda tendo como companhia dois povos tão peculiares e distintos. Os 37.607 torcedores presentes – brasileiros, majoritariamente – estavam bastante animados para a partida. O primeiro tempo, no entanto, não ajudou. Com poucas chances de gol, as principais emoções foram as tentativas frustradas de organizar uma ola e a indecisão dos torcedores locais, que variavam gritos de ‘Rússia’ e ‘Coreia’ a cada bom ataque. Na saída para o intervalo, vaias tímidas serviram para mostrar aos atletas que a torcida cuiabana não exigiria técnica apurada ou jogadas de efeito, apenas um pouco mais de objetividade.

Antes do retorno das equipes, uma pausa no banheiro e no bar. Encantados com a alegria dos estrangeiros, brasileiros pediam fotos atrás de fotos aos visitantes. Os mato-grossenses sabem, que, findada a Copa do Mundo, a cidade de pouco mais de 500.000 habitantes levará anos para receber tamanho número de turistas. Na segunda etapa, o goleiro Igor Akinfeev tratou de dar emoção à partida, ao deixar passar um chute fraquinho de Lee Keun-ho. O gol incendiou o jogo e também a torcida, que apresentou ao arqueiro russo a nada agradável alcunha de ‘frangueiro’. Pouco depois, veio o empate de Kerzhakov (lembre-se, leia Kerjakov) e, a esta altura, o público já se dava por satisfeito, como que saboreando a possibilidade de receber um evento desta magnitude e, ainda por cima, ver as redes balançarem. Pouco importava o nome dos jogadores ou quantos títulos cada seleção possuía. Todos estavam ali para participar da festa octogenária da Copa do Mundo.

Por mais que as transmissões de Mundiais sejam impecáveis, nada se compara a assistir a uma partida in loco. Das arquibancadas, uma cena envolvendo atletas russos foi marcante: dois atacantes discutiram em campo após uma chance perdida. Um deles, então, apontou o replay no telão para provar que o colega deveria ter passado a bola. O fominha parou, reviu a cena e pediu desculpas. Inegavelmente, o telão se tornou um atrativo a mais do espetáculo. Não houve um torcedor sequer que, ao ver sua imagem refletida para todo o planeta, não abriu um enorme sorriso ou agitou os braços. Antes do fim, torcedores tiveram tempo de cantar o nome da cidade e ouvir o reforço de russos e coreanos, que insistiam em pronunciar ´Cuiába’, com o primeiro ‘a’ tônico. Ao apito do juiz, aplausos efusivos e expressões de satisfação tomaram o estádio.

Para não dizer que tudo correu perfeitamente – o que seria bastante estranho, por se tratar de uma das sedes mais contestadas e atrasadas da Copa do Mundo -, a falta de organização se fez presente na saída. Com o entorno do estádio isolado pela PM, foi praticamente impossível encontrar ônibus ou taxis. Voluntários bateram cabeça ao tentar explicar a turistas a melhor maneira de retornar a seus hotéis. Cansados de esperar, vários torcedores preferiram caminhar cerca de três quilômetros até o centro da cidade, onde pararam para mais uma sessão de comilança e bebedeira. Para euforia geral, a festa do Mundial só termina dia 13 de julho, no Maracanã, e recomeça daqui quatro anos, justamente na Rússia. É provável que muitos mato-grossenses já planejem retribuir o carinho dos novos amigos nos estádios russos, em 2018.