Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Psicologia em campo: Brasil e Peru usam ‘revanchismo’ como motivação

Finalistas da Copa América têm um aspecto em comum: usaram as contestações como combustível, uma estratégia recorrente no esporte

RIO DE JANEIRO – Brasil e Peru chegaram à final da Copa América em situações opostas. Jogando em casa, a seleção pentacampeã entrou como a principal favorita e fez valer sua condição; já a seleção peruana desbancou equipes mais badaladas, como Uruguai e Chile, e chegou à decisão de domingo, 7, no Maracanã, de forma surpreendente. Há, no entanto, algo em comum entre as equipes: ambas viveram momentos de contestação ao longo do torneio e usaram as críticas como combustível, o que ficou claro nas declarações de seus atletas.

A postura de revanchismo dos times foi personificada em seus capitães, Daniel Alves e Paolo Guerrero. Desde o início do torneio, o lateral brasileiro vem fazendo reclamações às vaias, aos estádios vazios, aos gramados e outros fatores. Mesmo depois de sua exibição de gala na vitória sobre a Argentina na semifinal, Daniel discursou em tom de vingança, prestando apoio ao estafe da seleção que, segundo ele, teria sido desrespeitado. No mesmo dia, Gabriel Jesus disse ter ficado chateado com o bate-papo que teve no hotel da seleção com o comentarista Walter Casagrande, que, por sua vez, disse ter feito uma brincadeira mal interpretada.

Já o peruano Guerrero usou a condição de azarão do time como combustível. Nas quartas de final, sobrou até para Muricy Ramalho, seu ex-treinador no Flamengo e hoje comentarista. “Aí, professor Muricy, você trabalhou comigo, mas não gostei que você falou que o Uruguai era favorito. Futebol é dentro de campo, não tem favorito”, disse, em entrevista ao SporTV. Segundo o treinador Renê Simões, com passagens por diversos clubes do país e seleções brasileiras de base e feminina, que hoje trabalha como coach e dá palestras por todo o Brasil, é comum que a raiva seja usada como um fator de motivação por atletas de elite.

“Existe um conceito na psicologia chamado MARTA – medo, alegria, raiva, tristeza e amor. Todos nós temos MARTA e todos estes sentimentos são geradores de energia. O segredo é saber canalizar positivamente essas energias. O medo pode ser positivo, pois te deixa alerta, atento. A raiva é um sentimento muito profundo, que também pode ser canalizado. E há treinadores que trabalham isso, sim”, afirmou Simões, de 66 anos.

“O Peru usou a tristeza pelo 5 a 0 e a raiva pelas críticas e transformou em energia, se apoderou destes sentimentos. Assim como o Tite deve ter usado a alegria pelo 5 a 0 como um catalisador. É função do treinador encaminhar sua MARTA para o melhor caminho”, completou Simões. A seleção peruana, por sinal, buscou um profissional especializado para tratar de seus “fantasmas”.

O coach Juan Cominges, ex-meia da seleção, não faz parte da comissão técnica de forma oficial, mas teve um trabalho fundamental na recuperação do time no caminho até à final. “Temos um psicólogo, um coach. Os comandos técnicos estão sendo ampliados, é uma realidade. Sempre falamos que o Peru é muito forte no aspecto mental. É uma seleção que foi crescendo com adversidades”, afirmou o técnico Ricardo Gareca.

O remédio contra a zebra

O Peru se aproveitou da condição de azarão nos últimos dois duelos, como o próprio treinador do Chile, derrotado na semifinal, admitiu. Segundo Reinaldo Rueda, seu time “pensou na final antes de ter chegado”, num sinal de menosprezo ao adversário. Segundo Renê Simões, há um único remédio para evitar o chamado “salto alto” do favoritismo. “Foco. Essa palavra é mágica”. E o time de Tite parece estar seguindo o mandamento à risca.

“Se o Peru chegou até aqui é porque tem seus méritos. Também fez uma grande Eliminatória, chegou à Copa, tem um grande treinador. Não podemos achar que vai ser um jogo fácil, porque é uma final. Claro que queremos jogar bem, mas final não se joga, se ganha”, afirmou Casemiro, que já tem experiências semelhantes no Real Madrid. Segundo ele, o técnico tem papel importante nisso. “Todos os dias, nos treinos e jogos, o professor Tite sempre exige que estejamos mentalmente fortes e focados.”