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Primeiro circuito de F1 na Índia vem sendo motivo de discórdia

A construção do primeiro circuito indiano de Fórmula 1 permitiu a centenas de camponeses ganhar dinheiro vendendo suas terras, mas muitos deles consideram que isso não melhorou suas vidas, agora ociosas e minadas pela inveja.

A construção do circuito de 350 milhões de euros a 80 km a leste de Nova Délhi para acolher, no dia 30 de outubro, o primeiro Grande Prêmio do país, perturbou como nunca o cotidiano de 500 famílias.

“Vendemos nossas terras e ganhamos dinheiro em troca disso, mas não estamos satisfeitos”, desabafa Sanjay Singh, que, antes, cultivava legumes junto com a família.

“Construímos uma nova casa, temos, agora, um carro, mas não somos felizes porque nossos meios de subsistência, representados pela agricultura familiar, foram destruídos”, conta este homem de 49 anos, lembrando-se de uma vida certamente difícil, mas muito mais simples que a de hoje.

Segundo um funcionário da aldeia, o montante das indenizações se eleva, por família, a 5 milhões de rúpias (78.900 euros).

Alguns empreenderam trabalhos de construção de novas casas, mas para Singh, há “rancor” entre os aldeões, que se tornaram desconfiados e ciumentos.

“Mesmo nas famílias, os rapazes brigam para ter uma parte no dinheiro. Deixaram os estudos porque pensam que basta ter dinheiro”, irrita-se o camponês. “Passam o dia a vegetar, bebendo cerveja e procurando discussão”.

Em volta da cidade poeirenta, percebe-se os solavancos de caminhões e escavadeiras fazendo grande barulho, ao longo da estrada que leva ao circuito, longe de estar concluído. Búfalos pastam em meio à sujeira, imperturbáveis à algazarra.

O dinheiro caindo do céu traz novas aspirações, mas, também, um forte sentimento de frustração, principalmente devido à má qualidade das estradas, do sistema de esgoto a céu aberto, da eletricidade com interrupções e da falta de escolas e hospitais.

“Temos uma nova parabólica que nos permite captar 200 canais, mas o problema é que só podemos ver televisão durante três a quatro horas”, queixa-se Santo Devi, uma mulher idosa que vive numa casa espaçosa, dotada de um pátio onde os búfalos convivem com um carro resplandecente.

“O governo gasta muito dinheiro para construir uma pista para os carros de corrida, mas nada faz para a aldeia”, comenta ela.

Na Índia, a compra e venda de terras dá lugar a questões infindáveis. Os camponeses dizem que são obrigados a vender sem uma retribuição justa e os negociantes afirmam que seus projetos industriais estão sendo atrasados sem motivo.

Segundo a Câmara de Comércio e Indústria da Índia, as divergências sobre a venda de propriedades agrículas bloquearam, em 2009, 133 projetos em todo o país, retardando investimentos da ordem de 100 bilhões de dólares.

Uma nova lei sobre a compra de terras, com maior retribuição aos camponeses, deverá ser submetida ao parlamento ainda este mês.

Mukesh Kumar, um jovem de 23 anos que abandonou os estudos, encontrou emprego como guarda, no circuito, mas ele se preocupa com o futuro.

“O que acontecerá quando a corrida acabar? Seria mais feliz se tivesse um trabalho de verdade do que guardar dinheiro no colchão”, considera.

Santo Devi também se inquieta: “o dinheiro vai acabar com o tempo. O que fazer depois? Mendigar nas ruas?”.