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Por que torcida única nos estádios não acabará com a violência no futebol

A medida é inócua, sem sentido ético, pedagógico e jurídico — e não traz solução para a crise de segurança nos ambientes esportivos

Por Mauricio Murad - Atualizado em 13 dez 2019, 13h15 - Publicado em 13 dez 2019, 06h00

Historicamente, a torcida é o maior patrimônio de um clube de futebol. A torcida organizada é relevante, mas representa uma minoria no universo dos torcedores brasileiros, algo em torno de 2,5 milhões de pessoas, sendo 85% homens e 15% mulheres. Os grupos violentos infiltrados são agressivos, porém constituem a minoria dentro da minoria, algo como 5% das maiores uniformizadas do país. Políticas públicas, por definição, são instrumentos de alcance geral e, portanto, não podem confundir o todo com uma de suas partes. Por essa razão, a ideia da torcida única constitui um grave equívoco. É o mesmo que matar o gado para acabar com o carrapato. O sentido ético, pedagógico e jurídico de uma punição é justamente o oposto: de não generalizar, marcando claramente a diferença entre quem cometeu e quem não cometeu o delito. Colocar apenas torcedores de uma das duas equipes em campo demonstra, mesmo sem querer, a fraqueza da segurança pública, o que reforça a descrença nas autoridades e estimula novas práticas criminosas. Muitos daqueles que têm o poder de comando no futebol brasileiro, de influenciá-lo direta ou indiretamente, não compartilham desse entendimento.

As iniciativas relacionadas ao futebol são tomadas, muitas vezes, por interesses meramente particulares: são jogadas de grupos econômicos que, por vaidade ou em busca de prestígio social e visibilidade política, não resistem ao mais leve questionamento. Até existe quem erre com boa vontade. Mas não devemos analisar intenções, e sim atos, medidas concretas, políticas públicas e, evidentemente, seus resultados. E esses estão aí, escancarados por uma simples pesquisa no Google. Exemplos como os conflitos vistos no jogo entre Palmeiras e Flamengo no domingo 1º, de torcida única, com brigas dentro da mesma torcida, e “caçadas” para identificar torcedores rivais “infiltrados” no Allianz Parque. E mais: isso tem ocorrido em outras praças esportivas em jogos de torcida única. Contabilizamos oito casos em apenas três rodadas (da 34ª à 36ª) do último Campeonato Brasileiro.

O conceito de torcida única, por aparente esperteza ou hipocrisia de alguns dirigentes, foi usado para favorecer times em posição dramática na tabela, como o Cruzeiro, que protocolou seu pedido na semana passada alegando “preocupação com a segurança”. O clube mandante ignorou, inclusive, a resposta do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que em um lampejo de lucidez disse que, caso não houvesse condições de garantir a segurança dos espectadores, a partida deveria ser realizada com os portões fechados. O resultado da insensatez, transmitido em TV aberta no domingo 8, foi o pior: rebaixamento dentro de campo e cenas de horror nas arquibancadas.

Pesquiso o tema das torcidas de futebol há trinta anos. Nesse período, já foram registrados óbitos em locais distantes até 60 quilômetros da porta dos estádios. Pior: esses crimes ocorreram com três ou quatro dias de diferença da data da partida, o que comprova outro dado do estudo: essa trágica realidade, que tem de ser contida, é da violência no futebol, e não do futebol. Na última década, 90% dos confrontos desses vândalos infiltrados aconteceram bem longe dos estádios. Em 2019, o índice chegou a 96%, de um total de 161 ocorrências em todo o Brasil, com o registro de três mortes comprovadas e treze ainda em investigação. Nessas três décadas, venho propondo um plano de segurança para o futebol que atue em três pontos convergentes: 1) punição severa e, nos termos da lei, até as últimas consequências – hoje a impunidade chega a 97% dos casos registrados; 2) prevenção, que já comprovamos por dados estatísticos ser sete vezes mais rápida, mais eficiente e mais barata que a repressão (que pode até ser necessária, mas não é suficiente); 3) reeducação, um trabalho “de baixo para cima” com as torcidas organizadas, entendendo que são coletivos de pertencimento social e inclusão, principalmente de jovens, de quase todas as classes de renda, escolaridade e perspectivas. Com as organizadas são necessárias parcerias culturais duradouras e não pontuais, integrando clubes, federações e o poder público. Tais medidas devem valorizar a imensa maioria, que é pacífica, musical, coreográfica, carnavalizadora, isolando assim as minorias violentas.

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O futebol é um dos maiores patrimônios do brasileiro, e não pode andar a reboque de minorias delinquentes

O futebol é um dos maiores patrimônios culturais da coletividade brasileira e não pode andar a reboque de minorias delinquentes, com ligações já comprovadas com o crime organizado, o tráfico de drogas e as milícias. O trabalho criterioso das polícias, do Poder Judiciário e do Ministério Público constatou esse preocupante cenário em todo o país. Trata-se de facções que se infiltram em qualquer multidão para cometer ilícitos, e não somente no futebol: em festas populares, bailes funk, shows de música, rodeios, praias e, pasmem com este dado novo de nossas investigações, nas festas juninas tradicionais do Nordeste. Outro dado preocupante e atual: identificamos quase 350 células neonazistas organizadas no Brasil e 4 000 páginas na internet que somam 300 000 acessos. O quadro de violências no país atinge marcas assustadoras, e o nosso futebol, como fenômeno de massa e paixão, não fica fora disso. É da psicossociologia da multidão tudo acentuar, exagerar. O mesmo ocorre com a paixão. O futebol, por natureza, envolve multidões apaixonadas.

O fenômeno da violência no futebol é complexo e multifatorial. É preciso que seja estudado cientificamente, para que se possam apresentar propostas de controle e prevenção, sem ferir a cultura do esporte. E a cultura implica a presença de duas torcidas adversárias. Adversário não é inimigo, muito menos inimigo a ser abatido. A convivência pacífica entre duas torcidas é um rico aprendizado democrático. Envolve tolerância e aceitação do “outro”, experiência de pedagogia política (não partidária) em conviver com o diferente, tão necessária hoje em nosso país. O futebol não é panaceia, claro, mas pode (e deve) contribuir, tendo em vista sua imensa representação simbólica no Brasil.

Dirigentes, atletas, autoridades, todos os atores do universo do futebol deveriam refletir sobre o que significa esse esporte no Brasil. Ele é um capítulo de nossa história social de resistência, da inclusão de negros, pobres, semialfabetizados e, agora e a duras penas, de mulheres e LGBTs. Há torneios e campeonatos desses segmentos que lutam pela cidadania plena. É fundamental que se tenha a consciência de que no Brasil (e em outros países também) o futebol é mais que uma modalidade esportiva. Na verdade, trata-se de uma profunda representação de nossa formação social, com suas contradições e dilemas. Se o problema da violência no futebol é complexo, exige, portanto, medidas permanentes, criativas, baseadas em pesquisas científicas e que mobilizem os segmentos pacíficos do universo de apaixonados pelas agremiações.

O disque denúncia das torcidas organizadas é um exemplo que proponho há muitos anos e que seria, a um só tempo, punitivo, preventivo e educativo. Temos legislação, capacidade operacional das polícias e experiências positivas acumuladas no Judiciário e nos MPs estaduais, mas falta vontade política, iniciativa de fato dos poderes constituídos. Não é um favor, mas, sim, uma obrigação constitucional. ƒ

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* Mauricio Murad é sociólogo, autor do livro Para Entender: a Violência no Futebol e professor da Universidade Salgado de Oliveira

 

Publicado em VEJA de 18 de dezembro de 2019, edição nº 2665

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