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‘Pouco importa se sou uma atleta. Tenho de ser uma cidadã’

A esquiadora Bogdana Matsotska abriu mão de participar da competição de slalom, nesta sexta-feira, por não poder protestar contra as mortes ocorridas na capital de seu país, a Ucrânia

Por Alexandre Salvador 21 fev 2014, 16h55

A atleta Bogdana Matsotska, de 24 anos, participaria de sua segunda Olimpíada, em Sochi – ela já havia disputado os Jogos de Vancouver, em 2010. Mas ficou extremamente comovida com as cenas na capital de seu país. A ideia não era desistir de competir, mas depois de ser proibida pelo Comitê Olímpico Internacional de usar uma tarja preta na manga do uniforme, ela quis deixar claro que não estava alheia aos acontecimentos em Kiev. Junto com seu pai e treinador, Oleg Matsotskyy, a esquiadora ucraniana decidiu ausentar-se da prova de slalom nesta sexta-feira. Natural da cidade de Kosiv, a 480 quilômetros da capital Kiev, Bogdana simplesmente perdeu a motivação para competir.

Bogdana Matsotska
Bogdana Matsotska VEJA

O governo e a oposição assinaram nesta sexta-feira acordo que prevê eleições e um governo de coalizão, para conter a crise. Como você viu essas decisões? Eu estou esperançosa, mas eu não sou política. Eu desisti de competir porque não acredito nos meus governantes. Fico feliz que o derramamento de sangue parou hoje, mas não dá para parar de pensar no assunto. Eu ainda acho que nós seremos um país forte e independente. Eu volto para a Ucrânia apenas na segunda-feira, então estou tendo de me atualizar por telefone ou pela televisão.

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Você conhece pessoas que estão nas ruas, protestando, e que foram feridas? Tenho vários amigos e familiares que estão lá em Kiev protestando, mas não tive a notícia de nenhum ferido com gravidade. Eu gostaria de estar junto da minha família, dos meus compatriotas. O que tenho feito nos últimos dias é mostrar ao mundo o que está acontecendo. Para que nos ajudem a encontrar uma saída para essa situação, para que tenhamos um representante mais aberto ao diálogo.

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Por que você só desistiu de competir na véspera e não há três meses, quando os protestos começaram? Meu limite foi toda a matança que começou há três dias. Fiquei completamente chocada. Vim a Sochi ainda acreditando que nosso presidente iria ouvir a população, ou mudar a forma como vinha agindo. Mas a resposta que ele deu foi dar ainda mais munição para a polícia.

E como você decidiu? Foi muito difícil. Tive a ajuda do meu pai nesse momento, decidimos isso juntos. Imagine a frustração que é treinar e competir por quatro anos, conseguir uma vaga nos Jogos Olímpicos. Mas todo esse trabalho duro se torna insignificante perto do que está acontecendo no meu país. Hoje, pouco importa se sou uma atleta, tenho de ser uma cidadã ucraniana. Quis usar uma faixa preta no braço durante a prova, como sinal de protesto do que vinha acontecendo na Ucrânia, mas o COI não permite manifestações de qualquer natureza. Por isso achei que uma outra forma de me posicionar seria desistir de competir.

E como o comitê olímpico ucraniano encarou sua decisão? Nós conversamos, meu pai e eu, pela manhã e combinamos que pensaríamos durante todo o dia sobre qual seria a nossa decisão. Quando tomamos finalmente a coragem de desistir, procuramos o comitê ucraniano, e também minhas adversárias e seus técnicos. Queríamos explicar a situação difícil pela qual passamos, e não queríamos de nenhuma forma desrespeitá-los. Eles ainda tentaram nos dissuadir, mas a decisão estava tomada. O Sergei Bubka veio então conversar conosco, ele também queria que competíssemos, mas respeitou nossa decisão.

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Você não acredita que essa edição do Jogos em Sochi é a mais política em muitos anos? Acho que sim, mas eu não gostaria de entrar muito nessa discussão. Realmente espero que o meu país se aproxime cada vez mais da Europa, para avançarmos.

E em relação à resposta, também violenta, dos manifestantes? Veja só, sejamos realistas. Existem pessoas que estão ali apenas protestando e acabam morrendo. O que os outros devem fazer? Devem ficar ali, servindo de alvo? Acho que não é uma questão de concordar. É uma questão de sobrevivência.

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