Por que sucesso de Jesus e Sampaoli incomoda tanto os técnicos brasileiros

Não há nada de revolucionário no trabalho dos gringos. São apenas ótimas novidades que deveriam inspirar os colegas, não provocar tanta dor de cotovelo

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 5 nov 2019, 14h16 - Publicado em 5 nov 2019, 11h49

Um dos vários benefícios que as chegadas do português Jorge Jesus, técnico do Flamengo, e do argentino Jorge Sampaoli, treinador do Santos, trouxeram para o futebol nacional foi tirar seus colegas brasileiros da zona de conforto – o que, por vezes, também os tirou do sério. Foram várias as declarações de treinadores nacionais, dos mais jovens aos mais experientes, tentando minimizar o sucesso dos gringos. Algumas das falas, como as de Levir Culpi, além de toscas e totalmente descoladas da realidade, descambaram até para a xenofobia. Também há excessos entre seus admiradores: Jesus e Sampaoli fazem belos trabalhos, mas ainda estão longe de ter a importância de um Charles Miller, o inglês que trouxe a bola para o país e ensinou os brasileiros a jogar.

Uma reportagem da edição nº 2652 de VEJA, em setembro, esmiuçou os métodos dos gringos. Um dos enganos mais recorrentes é tratá-los como responsáveis por “resgatar a essência do futebol brasileiro.” Suas equipes aliás, seguem conceitos bem mais ligados à cultura europeia, de marcação alta, mobilidade, laterais construtores, recuperação rápida, e sobretudo, valorização da posse de bola, filosofia que justamente causa tanta confusão sobre as raízes do futebol nacional e que incomoda tanto os treinadores por aqui. A busca por protagonismo não tem sido uma marca dos trabalhos tupiniquins, nem mesmo entre os últimos campeões brasileiros, os “reativos” Fábio Carille e Luiz Felipe Scolari, ambos desempregados. Seus times foram vencedores, até porque não há uma única forma pra triunfar, mas passaram longe de encantar. Jesus e Sampaoli, talvez até por um certo “desapego” ao cargo (se demitidos, arrumariam empregos tão bons quanto, ou até melhores, rapidamente), se propõem a ousar e entreter os torcedores.

Vanderlei Luxemburgo, um dos profissionais mais geniais que o Brasil já teve, parece preso à mediocridade e é um dos críticos mais recorrentes dos estrangeiros no Brasil. Até mesmo Mano Menezes, que além de bom treinador é um homem bastante sensato e que costuma elevar o nível dos debates, caiu na tentação do corporativismo. Na semana passada, em entrevista à ESPN Brasil, cravou que Abel Braga teria o mesmo sucesso que Jesus caso tivesse permanecido no Flamengo, como se a qualidade dos jogadores resolvesse tudo. Basta dizer que o veterano treinador carioca não foi capaz sequer de encontrar espaço para o uruguaio De Arrascaeta atuar, muito menos dar um padrão mínimo ao time, para jogar por terra os argumentos de Mano. Se a qualidade dos atletas resolvesse tudo, Felipão ainda estaria no Palmeiras e Mano no Cruzeiro – o time mineiro, aliás, briga para não cair mesmo com um elenco caríssimo.

Nesta segunda-feira 4, Mano voltou a falar sobre o tema no programa Bem, Amigos!, do SporTV. Criticou, com razão, o imediatismo de quem trata como revolucionário o trabalho dos gringos no Brasil. O time de Jorge Jesus vence e encanta, como já fizeram o Santos de Pelé e Neymar, o Palmeiras de Academia e da era Parmalat, o Inter de Falcão, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê, o Corinthians de Luxemburgo e tantos outros. Também aproveitou para alfinetar a imprensa, sugerindo que também fossem importados jornalistas de Portugal para elevar o nível da discussão. Mano é esperto, sua acidez tem lógica – de fato, há discussões bastante rasas nos infinitos programas de debate na TV. Mas não se trata de uma guerra de classes. Até porque Mano Menezes vem de bons trabalhos – é bicampeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro e seu Palmeiras, apesar de ainda não ter encontrado um padrão, consegue bons resultados –, e não precisaria vestir esta carapuça.

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Há, sim, bons treinadores em atividade no Brasil. Os maiores destaques são Tiago Nunes, do Athlético Paranaense (a caminho do Corinthians), e Renato Gaúcho, ídolo máximo do Grêmio. Mano Menezes, Fabio Carille, Cuca, Tite, entre outros, também já provaram suas competências e têm plenas condições de se reinventar, ampliar seu repertório. Não se trata de resgatar a essência brasileira, talvez o problema esteja justamente em se prender demais a ela. Essa noção costuma ser bastante contaminada pela memória afetiva, um saudosismo contraproducente.

Historicamente, a seleção brasileira, referência mundial de “jogo bonito”, pautou-se mais pelo talento individual de seus craques e eficiência nos contra-ataques do que propriamente pela valorização da posse de bola. A seleção vencedora que mais valorizou a troca de passes foi a de Carlos Alberto Parreira, a do tetra em 1994, que, ironicamente, era criticada pelo excesso de meio-campistas, por especular demais. Foi o Brasil mais “guardiolista” que se viu e ainda venceu; nem por isso agradou a todos. Mano Menezes e companhia não precisam copiar o trabalho de ninguém, mas podem ir além de buscar a vitória insossa, a qualquer custo. Ou terão de se contentar em aplaudir quem se propõe a dar espetáculo, pois como dizia Vinicius de Moraes, beleza é fundamental.

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