Por que perder para o Japão seria um novo 7 a 1
Para o jogo de hoje, a seleção tem uma missão nada modesta: não criar um trauma novo para substituir o antigo
Existe algo pior do que tomar 7 a 1 da Alemanha, em casa, numa semifinal de Copa do Mundo? Pior, talvez não. Mas equivalente, sim: ser eliminado pelo Japão. A Alemanha que humilhou o Brasil em 2014 era, afinal, a Alemanha: multicampeã, fria, poderosa, dona de um timaço. O Japão? Bem, o Japão é o Japão. Evoluiu, cresceu, aprendeu a competir, espalhou jogadores pela Europa e merece respeito. Mas, no futebol, existe hierarquia. E certas derrotas simplesmente não cabem no currículo de uma seleção pentacampeã.
Antes que alguém me acuse de arrogância, vale um esclarecimento. O Japão de 2026 não tem nada a ver com aquela seleção simpática e algo exótica que disputava Copas para ganhar experiência e posar para fotos com os favoritos. O país fez tudo o que as grandes escolas de futebol costumam recomendar: investiu na formação de atletas, exportou talentos, profissionalizou seus clubes e passou a abastecer as principais ligas europeias.
Hoje, seus jogadores estão espalhados por times como Bayern de Munique, Ajax, Leeds, Eintracht Frankfurt e tantos outros clubes importantes. É uma geração rodada, acostumada à intensidade das principais ligas europeias. Ainda assim, há uma distância entre ser competitivo e pertencer ao primeiro escalão do futebol mundial. O Japão não produz, pelo menos por enquanto, aqueles jogadores que mudam o destino de uma Copa. Sua força está no coletivo e na capacidade de executar um plano de jogo sem desafinar.
Vencer o Brasil com essa fórmula? Seria uma grande surpresa – e uma afronta à história do futebol. Em quase um século de Copas, a seleção brasileira só caiu diante de europeus e sul-americanos: Iugoslávia, Espanha, Uruguai, Hungria, Portugal, Holanda, Argentina, Itália, França, Alemanha, Bélgica e Croácia. Nunca um asiático. Nunca um africano. Nunca um representante da Concacaf. É a ordem que o futebol mundial construiu ao longo de quase cem anos.
Não estou dizendo que os japoneses não mereçam respeito – merecem, obviamente. O que quero ressaltar é que respeito não apaga um século de futebol. O Japão pode ter amadurecido, pode jogar melhor do que muita seleção tradicional e pode até estar vivendo a melhor geração de sua história. Ainda assim, uma coisa é reconhecer a evolução do adversário. Outra, bem diferente, é aceitar como normal que o Brasil seja despachado por ele numa Copa do Mundo. Para o jogo de hoje, portanto, a seleção tem uma missão nada modesta: não criar um trauma novo para substituir o antigo.
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