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Por que, para a Argentina, uma semifinal de Copa contra a Inglaterra não é só sobre futebol

Confronto entre seleções tem histórico de tensão dentro de fora de campo

Por Natalia Tiemi Hanada Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 jul 2026, 14h16 | Atualizado em 15 jul 2026, 15h46
Por que, para a Argentina, uma semifinal  de Copa contra a Inglaterra não é só sobre futebol Priorizar nos meus resultados Google

“Pelas Malvinas, por Diego, pela última de Leo”, assim cantaram os jogadores e torcedores argentinos após as classificações dramáticas no mata-mata desta Copa do Mundo. Leo é Lionel Messi, Diego é Maradona e as Malvinas são o combustível da tensão histórica entre Argentina e Inglaterra, que se enfrentam nesta quarta, 14, às 16h (horário de Brasília) pela semifinal do Mundial.

O técnico Lionel Scaloni bem que tentou tirar o peso histórico do confronto para esta semifinal: “É um jogo de futebol. A mensagem é que é um jogo de futebol. Não, não busquemos outra coisa. É um jogo de futebol. E vamos jogar um jogo de futebol contra uma grande seleção que tem um grande treinador a quem tenho grande apreço. Admiro muito a ele, e é um jogo de futebol. Nada mais que isso.”

Mas o clima de rivalidade é inegável. A polícia de Atlanta, palco do jogo, reforçou a segurança na cidade com mais agentes e recursos para garantir uma “experiência segura e agradável para todos”.

Segundo o jornal argentino Todo Notícias, o governo do país sul-americano reforçou o controle de saída de integrantes das “barras bravas”, torcidas organizadas associadas a episódios de violência, que possam viajar aos EUA para assistir ao jogo contra a Inglaterra. 

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O motivo para tanta rivalidade entre dois países separados por todo um oceano está, justamente, nas águas do Atlântico. Os campos de batalha da Guerra das Malvinas na década de 1980 ditam o tom do confronto dentro de campo até os dias atuais.

O arquipélago das Ilhas Malvinas (Falkland Island para os britânicos), ao sul do Oceano Atlântico a menos de 500km da costa da América do Sul, é administrado pelo Reino Unidos desde 1833. O cenário mudou quando em 1982, a ditadura argentina invadiu o conjunto de ilhas em nome do sentimento nacionalista.

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A resposta britânica foi avassaladora perante jovens militares argentinos, sendo muitos adolescentes em minoria numérica e bélica. Em 74 dias, os britânicos perderam 255 soldados, mas retomaram o controle do arquipélago. Do lado sul-americano, foram 649 argentinos mortos que se tornaram símbolos nacionais, inclusive, em bandeiras e comemorações de futebol.

Quatro anos depois do conflito armado, as seleções dos países se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo, no México. Diego Maradona “vingou” a Argentina com a “ajuda dos céus”. O memorável gol da “Mão de Deus” abriu o placar no Estádio Azteca. Deixada de lado a clara irregularidade, o lance se tornou “vingança simbólica” como o próprio autor do gol descreveu em seu documentário.

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“MÃO DE DESUS” - O gol de Maradona: “Se a tecnologia existisse, eu seria preso”
“MÃO DE DESUS” - O gol de Maradona: “Se a tecnologia existisse, eu seria preso” (Allsport/Getty Images)

Minutos depois, o camisa 10 fez mais um: apenas aquele considerado o “gol do século”. Gary Lineker fez de cabeça para diminuir, mas a história estava feita.

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“Sou um cara comum que marcou um grande gol contra os ingleses, que mataram nossos garotos nas Malvinas”, disse Maradona em uma entrevista de 2019. “É por isso que todo mundo me conhece hoje: porque o avô contou ao pai, e depois o pai contou ao filho.”

Antes da guerra, as seleções já tinham se enfrentado em 1962 e 1966, ambos jogos com vitórias inglesas. Este último, nas quartas de final do torneio, ficou marcado por entradas fortes dos argentinos e a expulsão do capitão dos hermanos, Antonio Rattín, por reclamação, em Wembley. O técnico da Inglaterra, Alf Ramsey, ficou tão furioso com as táticas argentinas que chamou o time visitante de “animais” e proibiu seus jogadores de trocarem camisas com os adversários.

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Depois do conflito, a rivalidade aumentou. Sob o mesmo clima de tensão que paira na semifinal do atual Mundial, a Argentina venceu nos pênaltis e avançou às quartas de final em 1998. No tempo regulamentar e prorrogação, o jogo terminou em 2 a 2, em que David Beckham foi expulso por chute em Diego Simeone. Neste Mundial, o inglês recebeu a seleção inglesa no seu clube, o Inter Miami, enquanto o filho de Simeone integra o elenco argentino na competição. Na Copa de 2002, as seleções caíram no mesmo grupo, e Beckham pôde se redimir com o único gol da vitória inglesa.

Scaloni tentou mais uma vez desviar as atenções extra-campo. “Foi uma época nossa muito triste na história. E não podemos mudar. É um jogo de futebol. Não temos que confundir. É um jogo de futebol”, afirmou em coletiva. Porém, o treinador não controla tudo como em sua prancheta técnica. Então, Argentina e Inglaterra se encaminham para um novo capítulo dessa rivalidade dentro e fora de campo. E se chegar a sua segunda final consecutiva, o treinador deve escutar dos seus próprios jogadores que a vitória foi pela última Copa de Messi, por Diego e pelas Malvinas.

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