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Por que o racismo ainda incomoda a NFL (apesar da maioria negra na liga)

Brancos correspondem a apenas 30% dos jogadores da liga na atualidade, mas dominam as posições de destaque: quarterback, treinador e presidência das equipes

Por Danilo Monteiro Atualizado em 5 jun 2020, 19h59 - Publicado em 5 jun 2020, 18h48

A NFL, liga profissional de futebol americano, vive nova crise de imagem com a intensificação dos protestos contra o racismo por parte de seus protagonistas: os jogadores, em sua grande maioria revoltados com a ação policial que vitimou George Floyd, um homem negro de 46 anos que foi sufocado até a morte por um oficial branco na cidade de Minneapolis. As manifestações e posicionamento dos atletas reacenderam discussões acaloradas sobre igualdade de oportunidades nos Estados Unidos, que parece estagnada em relação às concorrentes quando o assunto é o racismo estrutural.

A morte de Floyd deu razão e visibilidade ao movimento iniciado em 2016 pelo então quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, que passou a se ajoelhar durante a execução do hino nacional americano – sua intenção com o gesto era justamente jogar luz sobre a violência policial contra os negros. O ex-camisa 7 da equipe da Califórnia acabou dispensado pelo time e, desde então, nunca mais for recontratado por qualquer uma das 32 equipes da NFL (mesmo tendo em seu currículo uma passagem pelo Super Bowl, a final do campeonato, em 2013).

O debate ganhou notas ainda mais controversas após a declaração desastrada de Drew Brees quarterback branco do New Orleans Saints, na última quarta-feira. O veterano jogador (branco) criticou o posicionamento de Kaepernick alegando que “jamais concordaria com alguém desrespeitando a bandeira dos Estados Unidos ou o hino nacional”. A declaração imediatamente causou revolta de jogadores da NFL e da NBA. “Você ainda não entende por que o Kap (apelido de Colin) se ajoelhava? Não tem nada a ver com desrespeito ao país e a nossos soldados”, rebateu LeBron James, em suas redes sociais.

“São 10 dias desde que George Floyd foi brutalmente morto. Quantas vezes precisamos pedir a vocês para ouvir seus jogadores? O que será preciso? Um de nós ser morto pela brutalidade da polícia? E se eu fosse George Floyd? Não vamos ser silenciados. Afirmamos nossos direitos de protestar pacificamente. Em nome da NFL, isso é o que nós, jogadores, gostaríamos de ouvir: ‘Nós, a NFL, condenamos o racismo e a opressão sistêmica de negros. Nós, a NFL, admitimos o erro de silenciar nossos jogadores por protestarem pacificamente. Nós, a NFL, acreditamos que as vidas negras importam'”, disseram diversas estrelas negras da liga em vídeo nas redes sociais.

A “fritura” de Kaepernick, endossada inclusive pelo presidente Donald Trump, apenas reforçou a desigualdade de oportunidades para negros em cargos técnicos e administrativos na liga. Apesar de representarem 70% do total de jogadores da NFL na última temporada, nenhum negro é dono de um dos 32 times na liga. Em todas as franquias, apenas duas têm um negro no cargo de gerente-geral e apenas três equipes têm atualmente técnicos negros.

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“Nos últimos nove anos, joguei por quatro franquias diferentes na NFL, quatro times diferentes, quatro cidades diferentes, trabalhando em quatro prédios diferentes. Eu notei uma similaridade nas divisões: existe o segundo andar, onde técnicos, gerentes e analistas têm seus escritórios, e existe o primeiro andar, onde estão os vestiários e jogadores. Mas a diferença entre os andares não é só gerenciamento x jogo – não se você é um jogador negro. Se você é um negro no vestiário, sabe exatamente que não é bem-vindo no segundo andar”, escreveu Sam Acho, do Tampa Bay Buccaneers, ao site The Players’ Tribune.

A segregação racial faz parte da história americana desde antes de seu processo de independênca. A participação de negros não era permitida nas ligas profissionais de futebol americano e no basquete até mais da metade do Século XX, mas se tornou inevitável em ambos, dadas as evidentes qualidades atléticas desta parcela da população. Na NBA, as barreiras foram quebradas há mais tempo. Mesmo assim, o preconceito não deu trégua: antes do início do seu processo de globalização, na década de 1980, a liga recebeu o apelido politicamente incorreto de “campeonato de marginais”.

  • Ao lado do beisebol, o futebol americano sempre foi o esporte mais destacado do país, portanto a “concessão” feita pela parcela branca dominante aconteceu de forma mais lenta. Quando o fim da segregação pela cor da pele se impôs na sociedade, os donos das equipes cederam, mas em partes. Ainda há a predominância de quarterbacks brancos na liga. Os donos da posição são os comandantes dos times, os mais conhecidos, famosos e prováveis heróis, papel que não foi cedido tão facilmente a negros, que ocuparam a posição esporadicamente durante os anos.

    Na atual temporada, são 23 quarterbacks brancos contra nove negros. Ao todo, apenas três quarterbacks negros receberam o prêmio de MVP (jogador mais valioso) da temporada, todos eles no século XXI e dois deles nos últimos dois anos: Patrick Mahomes, do Kansas City Chiefs, e Lamar Jackson, do Baltimore Ravens. O primeiro negro a conseguir o feito foi Steve McNair, do Tennessee Titans, que dividiu o prêmio com Peyton Manning, do Indianapolis Colts, em 2003.

    A NFL já discutiu sobre a desigualdade racial e criou, em 2002, a chamada Regra Rooney. A determinação obrigava a participação de pelo menos um candidato da chamada “minoria” em entrevistas para cargos técnicos. Embora ainda em vigor, o número de negros em posições de comando permanece a mesma de antes da tal regra. “Existe uma evidente percepção de que pessoas negras não são inteligentes o suficiente, ou não têm habilidades de liderança necessárias para ser técnico um time”, explicou Acho.

    “Quando servi ao comitê da Associação de Jogadores, sentei à mesa com vários donos de franquias. Embora eu tenha gostado das interações, a experiência mostrou por que a questão dos treinadores afro-americanos não foi resolvida. Eles falam dos jogadores, a maioria negra, como estatísticas. Alguns zombaram de nossas lesões viraram os olhos diante de nossas preocupações. Era como se estivéssemos desperdiçando o tempo deles. A mensagem era: ‘Somos os donos e vocês são os jogadores. Acostumem-se”, finalizou.

    Diante da repercussão negativa, o comissário da NFL, Roger Goodel fez um mea culpa público. “Nós da NFL condenamos o racismo e sistemática opressão ao povo negro. Admitimos que erramos por não ter escutado os atletas antes e por não tê-los encorajado a falar mais e protestar pacificamente”, disse, em um dos trechos do vídeo divulgado nas redes sociais da liga.

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