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Por que a punição à Rússia pelo doping corre o risco de não dar em nada

A suspensão anunciada pela Agência Mundial Antidoping é dura no papel, mas pode não impedir a trapaça enraizada no país de Vladimir Putin

Por Alexandre Salvador - Atualizado em 13 dez 2019, 10h51 - Publicado em 13 dez 2019, 06h00

Do ponto de vista da diplomacia atrelada ao esporte, a Rússia sofreu uma vergonhosa derrota na última segunda-feira, 9, ao ser banida pelo prazo de quatro anos de todas as competições internacionais de modalidades que se submetem ao código criado pela Agência Mundial Antidoping (Wada), entidade que fiscaliza o uso de substâncias proibidas no esporte desde 1999. O gancho vale, portanto, para as duas próximas Olimpíadas, a de Tóquio, em 2020, e a de Pequim, em 2022 (Jogos de Inverno), e também para a Copa do Mundo do Catar, dentro de três anos. O anúncio fez muito barulho — mas soou como notícia velha quando se olha o retrospecto de punições contra os russos.

É sabido, desde 2014, que a Rússia alimenta episódios de desrespeito às regras internacionais com a anuência e a participação ativa das autoridades do Kremlin em um programa sistemático — e não há exagero algum em chamá-­lo assim — de doping. Flagrado na trapaça, o país já foi interditado em competições relevantes. Muitos de seus atletas, contudo, obtiveram autorização especial e puderam participar dos torneios. Às vésperas dos Jogos do Rio, o Comitê Olímpico Internacional decidiu não seguir a recomendação da Wada e deu aos esportistas russos a chance de participar do evento, desde que conseguissem provar a inocência — em 2016, 271 atletas russos entraram nos ginásios, campos e pistas. Conquistaram 56 pódios, ocupando o quarto lugar no quadro geral de medalhas. Algo semelhante ocorreu nos Jogos de Inverno de 2018, disputados em PyeongChang, na Coreia do Sul, quando a turma de Vladimir Putin desfilou debaixo de bandeira neutra — os atletas foram identificados pelo acrônimo em inglês OAR (atletas olímpicos da Rússia, na tradução) e proibidos de usar o nome do país no uniforme, bem como suas cores e emblemas nacionais. É o que pode voltar a acontecer na Copa do Catar, em 2022: caso se classifique, a seleção russa terá de abandonar a tradicional camisa vermelha. Tudo somado, virou conversa para russo ver. É repreensão que não se vê na prática, para além da vergonha.

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A punição mais recente foi motivada pela adulteração dos registros em laboratório localizado em Moscou que reúne as informações sobre atletas potencialmente envolvidos em casos de doping. O lugar foi lacrado pelas autoridades russas em 2015, data da eclosão do primeiro escândalo implicando o país, e seu conteúdo protegido por guardas armados. O acesso às informações ali armazenadas fazia parte do acordo proposto pela Wada para a readmissão da Rússia como um país complacente com o código mundial antidoping. Em janeiro de 2019, finalmente os investigadores da agência tiveram acesso ao material. Depois de uma análise minuciosa, percebeu-se que as autoridades internacionais haviam sido novamente enganadas.

Em um relatório divulgado em setembro, a Wada declarou que as informações colhidas no laboratório de Moscou tinham claras inconsistências em relação às obtidas em 2017 por meio de um delator do esquema. Para a agência mundial antidoping, houve flagrante manipulação ou desaparecimento de dados, o que prejudicou a investigação de 145 atletas russos sob suspeita. A sensação de impunidade fez com que as autoridades russas tivessem a cara de pau de admitir os malfeitos. Yuri Ganus, o atual diretor-geral da agência nacional antidoping (sim, ela existe, embora soe como contradição em termos), reconheceu que as contrafações foram feitas para proteger reputações e cargos de ex-atletas famosos e que hoje ocupam posições no governo ou trabalham em instituições esportivas do país.

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ACIMA DA LEI – Putin: as autoridades defendidas pelo neo-czar perderam a vergonha de negar a contrafação Shamil Zhumatov/Pool Photo/AP

Trata-se de uma corrida de gato e rato, quase sem fim, resultado de um crime — o doping — cuja existência em grandes grupos só é possível se está conectado a uma máfia atuante, como demonstrou o triste episódio do ciclista americano Lance Armstrong, um dos grandes enganadores de todos os tempos. Um estudo conduzido por psicólogos alemães e americanos entrevistou mais de 2 000 atletas durante o Campeonato Mundial de Atletismo de 2011. Daqueles que aceitaram participar da pesquisa anônima, 44% admitiram ter feito uso de substâncias proibidas no ano anterior à entrevista. No mesmo período, a Wada registrou casos comprovados de doping em apenas 1% das amostras coletadas. Ou seja, embora tenham avançado nos últimos anos, os métodos de controle claramente não conseguem identificar os espertalhões que trapaceiam e depois vão ao pódio. No caso da Rússia, é tudo pior, dada a permanente colaboração dos cartolas, e de Putin, reafirme-se, na engrenagem quimicamente suja.

Publicado em VEJA de 18 de dezembro de 2019, edição nº 2665

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