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Por carreira e ‘pé-de-meia’, boleiros driblam até as guerras

Como é a vida dos atletas brasileiros que enfrentam situações difíceis, como a crise ucraniana e censura chinesa, em nome de outra segurança: a profissional

Por Luiz Felipe Castro 20 set 2014, 12h07

“No começo, os jogadores estavam com medo, assustados, uns não queriam voltar. Mas depois a gente percebeu que em Kiev não teríamos problema”, conta Luiz Adriano, do Shakhtar, que gostava de morar em Donetsk

O Brasil é o país que mais exporta jogadores para as grandes ligas europeias. De acordo com um estudo recente da CIES Football Observatory, um centro independente de estudos sobre o futebol sediado na Suíça, 471 brasileiros atuaram por clubes de Espanha, Itália, Inglaterra, França e Alemanha em 2014. Esses países, porém, já deixaram de ser os únicos destinos desejados por craques do país do futebol. Seduzidos por rios de dinheiro – muitas vezes de origem duvidosa -, atletas de muito bom nível, candidatos a vagas na seleção brasileira, aceitam viver em locais muito distantes e diferentes – e até mesmo em meio a conflitos sangrentos. É natural pensar que um brasileiro teria todos os motivos do mundo para querer distância da Ucrânia, envolvida num complexo conflito armado com militantes pró-Rússia. Da mesma forma, não é muito animador pensar em enfrentar um choque cultural na China ou o frio de Moscou – ou muito menos se naturalizar palestino sem jamais ter pisado na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia. Parte da resposta continua sendo a mesma: a vontade de fazer o “pé-de-meia” no exterior. Além disso, porém, há outro aspecto que tem convencido muita gente a se aventurar por ligas distantes – um outro tipo de segurança, a profissional. Para esses jogadores – que conhecem bem as histórias dos colegas de clubes brasileiros que enfrentam atrasos de salários, calotes dos clubes, ameaças de torcedores violentos depois das derrotas e o cotidiano em metrópoles com grandes índices de criminalidade -, melhor mesmo é viver na Ucrânia, onde se ganha bem e em dia, os fãs são respeitosos e a vida familiar é pacata.

Só o Shakthar Donetsk, clube sediado na região mais afetada pelos conflitos na Ucrânia, conta com mais de um time inteiro de brasileiros em seu elenco. O atacante gaúcho Luiz Adriano, campeão mundial pelo Inter de Porto Alegre em 2006, é um dos treze representantes do país no atual tetracampeão ucraniano. Há cerca de três meses, toda a equipe do Shakthar foi transferida para a capital Kiev por questões de segurança e passou a mandar suas partidas em Lviv, cidade localizada a 960 quilômetros da sede original, Donetsk. A Donbass Arena, o moderno estádio do clube, foi bombardeada por ativistas pró-Rússia no mês passado. Nesta semana, o local voltou a ser atingido por projéteis. Ainda assim, o ex-jogador colorado considera que a guerra civil entre ucranianos e grupos separatistas no leste do país não afetou gravemente a vida dos atletas até o momento. “Fico triste pelo que está acontecendo, pois há muitas pessoas inocentes morrendo. Ainda assim, meus familiares estão tranquilos. Já disse a eles que aqui em Kiev não há problema algum. Não penso em sair, a não ser que apareça algo muito bom para mim e para o clube”, afirma o jogador de 26 anos, que vive com a mulher e a filha e diz arriscar algumas palavras em ucraniano.

Alguns de seus colegas de clube não lidaram com a situação da mesma forma. Em julho, os brasileiros Alex Teixeira, Fred, Dentinho, Douglas Costa, Ismaily e Bernard, além do argentino Facundo Ferreyra, se negaram a retornar à Ucrânia, ainda assustados com a derrubada do avião comercial da Malaysia Airlines na região, em atentado que matou todas as 298 pessoas a bordo. O clima de tensão no clube ficou ainda maior quando o treinador romeno Mircea Lucescu e o presidente do clube, Rinat Akhmetov, criticaram a postura dos sul-americanos. “Os jogadores têm contratos que são obrigados a cumprir. Se eles não voltarem, serão os primeiros a sofrer as consequências”, afirmou Ahkmetov, o homem mais rico do país. Presos aos termos de seus acordos, os brasileiros aceitaram viver em Kiev – que, apesar de ter sido palco de embates sangrentos entre manifestantes e as tropas de choque ucranianas, vive ambiente muito mais calmo na comparação com Donetsk. No início, os atletas e seus familiares permaneceram em um hotel, mas agora o clube disponibilizou apartamentos na capital a todos os contratados. Segundo Luiz Adriano, o Shakhtar orientou seus jogadores a não se envolverem em questões políticas. “Nós nem conversamos muito sobre esse assunto. A diretoria pediu para que a gente evite e foque mais no trabalho. No começo, os jogadores estavam com medo, assustados, alguns não queriam voltar. Depois a gente percebeu que em Kiev não teríamos problemas.” Além de pagar bons salários, o Shakhtar disputa a Liga dos Campeões, competição sonhada por dez entre dez jogadores profissionais de qualquer país. Passaram pelo clube ucraniano jogadores de seleção e que hoje atuam em potências do continente, como Fernandinho, do Manchester City, e Willian, do Chelsea.

Do outro lado do confronto, na capital russa, Moscou, está Rômulo, volante revelado pelo Vasco e com passagens pela seleção brasileira. Desde 2012 no Spartak – clube conhecido como “o time do povo” entre os russos -, o jogador nega qualquer tipo de arrependimento por ter aceitado jogar no Leste Europeu. O jogador de 23 anos assegura que o conturbado ambiente político na região jamais interferiu na vida dos atletas do Spartak. “Nunca tive problema algum quanto à segurança em Moscou. Os jogadores têm total liberdade e tranquilidade para treinar e viajar. Este é o cenário que passo para minha família.” Rômulo ainda tem dificuldades com o idioma russo (decorou apenas algumas palavras e frases feitas para situações de emergência), mas disse que isso não atrapalha em seu dia-a-dia, pois o inglês é a língua oficial do vestiário e está muito presente nas ruas da capital. Devido à pouca visibilidade do campeonato russo e de uma sequência de lesões, o ex-vascaíno perdeu espaço na seleção brasileira. Ainda assim, ele acredita ter feito a escolha certa ao trocar o Rio de Janeiro pela gelada Moscou e cita uma realização profissional para justificar sua tese. “A oportunidade em nossas vidas, às vezes, só aparece uma vez. O primeiro fator que me fez optar por jogar aqui é que o time jogaria a Liga dos Campeões. Em 2012, joguei contra o Barcelona e fiz até gol no Camp Nou. Além disso, jogo no time da capital e assinei um bom contrato. Não me arrependo da minha escolha.” Rômulo afirmou que a estrutura do Spartak faz frente a grandes potencias do futebol europeu – recentemente, Vladimir Putin inaugurou a Otkrytie Arena, estádio do Spartak que será usado na Copa do Mundo de 2018 – e citou o fato de receber sempre em dia como uma das vantagens em relação ao futebol brasileiro (um sentimento mais do que compreensível quando se trata de um atleta surgido no Vasco, há anos visto como clube mau pagador).

Brasileiro-palestino – Outro jogador com passagem pela seleção brasileira que se aventurou no futebol russo é o ex-corintiano Jucilei. No caso dele, o termo “aventura” não chega a ser exagero: entre 2011 e 2013, o volante de 26 anos atuou pelo Anzhi Makhachkala, um clube do Daguestão que apareceu para o cenário mundial graças à fortuna despejada pelo milionário Suleiman Kerimov, que possibilitou a compra de craques como Samuel Eto’o e Roberto Carlos, além do próprio Jucilei e outros jogadores da seleção brasileira, como Willian e Diego Tardelli. Localizado no Cáucaso, às margens do Mar Cáspio, o Daguestão foi apontado pela rede britânica BBC como o “lugar mais perigoso da Europa”, graças à sequência de atentados, explosões, relatos de tortura e desaparecimentos na região. O Daguestão pertence ao território russo, mas é uma república autônoma e mantém conflitos étnicos, políticos e religiosos tanto com a Rússia quanto com a vizinha Chechênia há vários anos. Para alívio dos jogadores do Anzhi, porém, a equipe treinava e mantinha sede em Moscou e apenas mandava suas partidas em Makhachkala. “Minha vida era boa, eu gostava de viver em Moscou. O único problema era as viagens. Era como se jogássemos fora de casa todos os jogos. Passávamos muito tempo dentro do avião.”

Depois de dois anos cansativos na Rússia, Jucilei recebeu propostas de grandes clubes brasileiros, mas foi seduzido pelos altos salários e pela luxuosa vida em outra liga distante, os Emirados Árabes Unidos. Por cerca de 6 milhões de euros, ele assinou com o Al-Jazira e levou sua família para viver no calor de Abu Dhabi. “Estive muito perto de fechar com o São Paulo, mas chegou a proposta dos Emirados e a diferença era muito grande. O São Paulo me avisou que jamais conseguiria cobrir a oferta, e aí aceitei o desafio, aqui a vida é muito mais tranquila que na Rússia, não tem nem comparação.” A novidade mais curiosa envolvendo a ida de Jucilei pelo Al-Jazira, no entanto, aconteceu no início desta temporada. Para abrir uma vaga de estrangeiro no clube (apenas quatro por equipe são admitidos), ele seguiu o desejo da diretoria e se naturalizou palestino. Jucilei confessa não conhecer muito sobre os conflitos entre judeus e seus novos “compatriotas”. “Nunca nem estive na Palestina. O clube só me ofereceu essa possibilidade, eu aceitei e assinei uns papéis. Não tenho interesse nenhum em jogar pela seleção palestina, eu quero é jogar pela brasileira”, avisa o volante, que já foi chamado para a equipe pentacampeã em amistosos realizados em 2010, mas sabe que suas chances são pequenas no momento. Jucilei também é sincero ao admitir que aceitou a proposta apenas por questões financeiras. “Preciso fazer meu pezinho-de-meia, né?”

Barreiras culturais – Jucilei é um dos muitos atletas que aceitam viver um desafio diferente da “colônia” brasileira no ucraniano Shakhtar. Eles foram para lugares onde não há conflitos, mas a rotina é muito diferente do Brasil do boleiro, onde a roda de samba, a perseguição das maria-chuteiras e o futevôlei são muitas vezes parte do cotidiano. Clubes do Leste Europeu, Ásia e Oriente Médio costumam oferecer excelentes salários e ótimas condições de trabalho, mas o choque cultural também pode impressionar – principalmente nos casos dos atletas que vieram de pequenas cidades do interior. O lateral-direito Cicinho construiu uma trajetória de respeito: foi campeão do mundo pelo São Paulo, chegou ao Real Madrid, foi campeão na Itália e disputou uma Copa do Mundo com a seleção brasileira. Hoje, aos 34 anos, ele leva uma vida bem diferente dos tempos de Roma ou Madri. Destaque do Sivasspor, uma equipe média da Turquia, Cicinho vive com sua mulher, uma filha e uma babá em um condomínio de alto padrão na cidade de Sivas, uma das mais frias do país. “O mais difícil aqui é o clima: a temperatura chega a 20 graus negativos, neva bastante, e é muito difícil jogar futebol assim.” Cicinho conta que, ao contrário de Istambul, metrópole localizada a sete horas de distância de carro, em Sivas quase ninguém fala inglês, o que dificulta bastante a vida de sua família. Por isso, o lateral passa a maior parte do tempo com os familiares e com a comissão técnica brasileira, comandada pelo ex-lateral Roberto Carlos. Apesar de reclamar da saudade da comida e do calor do Brasil, Cicinho elogia o ambiente em que vive em Sivas e a estrutura do Sivasspor, que segundo ele, é comparável ao que oferecem os grandes times do Brasil e da Europa. Evangélico, Cicinho garante que nunca entrou em conflito com a população local, quase toda muçulmana. “Pelo contrário: sempre que digo que sou cristão, os turcos me parabenizam por minha fé”, conta. O ex-jogador de São Paulo, Atlético-MG e Sport se diz acostumado com a distância do Brasil, mas revela que nem um caminhão de petrodólares o levaria a certos destinos. “Recebi uma proposta da Arábia Saudita. Era muito boa financeiramente, mas lá as coisas são muito restritas para as mulheres. Pensando na minha mulher, eu recusei. Antes de aceitar uma proposta, o jogador tem que se informar sobre a equipe e o país”, ensina.

Mais longe ainda do país, outro jogador brasileiro transformou-se num ídolo do futebol asiático. O atacante Elkeson, revelado pelo Vitória e com boa passagem pelo Botafogo, é o artilheiro do Campeonato Chinês jogando pelo líder e atual tricampeão Guangzhou Evergrande. Ele diz viver uma vida bastante pacata, “do treino para casa”, mas lamenta um incômodo causado pelas leis do Partido Comunista. “Uma das grandes dificuldades aqui é que não temos acesso a redes sociais, YouTube, canal internacional de TV, nada. É tudo para evitar que a população tenha acesso às críticas ao governo. Quem mais sofre é minha mulher, que passa quase o tempo todo em casa.” Elkeson chegou a ter chance de medir forças com a elite do futebol. No ano passado, o jogador de 25 anos marcou o gol do título da Liga dos Campeões da Ásia, conquista que deu ao Guangzhou uma vaga no Mundial de Clubes da Fifa. No Marrocos, sua equipe chegou às semifinais – foi derrotada por 3 a 0 pelo campeão Bayern de Munique e caiu novamente, diante do Atlético-MG, por 3 a 2 na decisão de terceiro lugar. “A estrutura aqui é excelente, o campeonato está cada vez mais competitivo, os estádios são modernos e estão sempre cheios. O futebol já é o esporte mais visto na China”, assegura o atacante, que é treinado por Marcelo Lippi, campeão mundial no comando da seleção da Itália na Copa de 2006. O brasileiro, aliás, recebeu propostas de grandes equipes italianas, mas diz que o Guanzhou considerou os valores baixos e não quis liberá-lo. “Claro que tenho o sonho de jogar na Europa e um dia retornar ao meu país, mas hoje estou muito bem aqui. Não sinto falta do Brasil.”

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