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Pintado: ‘Minha sorte na vida foi ter jogado no São Paulo’

O ex-volante Pintado diz ser mais que um são-paulino e garante que, quando Telê Santana pedia dez voltas ao redor do gramado no CT da Barra Funda, dava 12. Tamanha dedicação foi fundamental para que o Tricolor colecionasse títulos na década de 1990 e é lembrada com carinho pelo atual técnico do Linense.

Pintado foi um dos convidados do especial ‘Mundo Tricolor’, que será exibido às 21h30 deste domingo pela TV Gazeta. O programa é uma homenagem da emissora ao 20aniversário do primeiro título mundial do clube, que será festejado em 2012.

Antes da gravação, um dos mais importantes coadjuvantes do time que venceu o Barcelona por 2 a 1 no dia 14 de dezembro de 1992 conversou com a reportagem da Gazeta Esportiva.Net. Na entrevista exclusiva, ele reforçou sua identificação com o São Paulo, salientou a importância de Telê Santana e lembrou que a festa após a partida em Tóquio só começou quando o experiente Toninho Cerezo ‘alertou’ os companheiros de que o mundo acabara de ser conquistado.GE.Net: O bom relacionamento entre os jogadores era um dos segredos do time campeão mundial?

Pintado: Nosso dia a dia era muito saudável, essa equipe tinha um relacionamento muito fiel. Não era pela grana, porque ninguém ganhava tanto dinheiro assim. Levamos essa amizade até hoje e isso é motivo de muito orgulho para mim.

GE.Net: Jogar no São Paulo, para alguns jogadores, já é importante. Como é ter feito história no clube?

Pintado: Eu costumo dizer que minha parcela de sorte na vida foi ter jogado no São Paulo. Eu nunca vou ganhar na Mega Sena, não vou ganhar um carro ou qualquer outra coisa. Jogar no São Paulo Futebol Clube foi minha sorte e é por isso que sou muito grato ao futebol. Se a gente conseguisse transmitir esse orgulho para essa nova geração seria muito bom. A gente sente muito hoje por não ver essa cumplicidade, essa empatia do jogador com o clube. Existe com o contrato, com a parte financeira, mas não com o compromisso de conquistar títulos.

GE.Net: O Telê Santana sempre é apontado como principal nome das conquistas do São Paulo no início da década de 1990. Como ele era no dia a dia?

Pintado: Um legítimo comandante. Às vezes ele exagerava um pouco, era autoritário em algumas situações, mas sempre pensando no que era melhor para todo mundo.

GE.Net: Tem alguma história curiosa para contar sobre ele?

Pintado: Telê tem várias histórias (risos). Quando ia jantar, tomar alguma coisa, ele sempre estava muito feliz, desde que você pagasse a conta. Era difícil tirar um dinheiro dele, que também nunca participava de vaquinhas. Seu Telê comprou um Toyota uma vez e esse carro ficou uns três meses parado na garagem, não saía de jeito nenhum. Uma vez a gente combinou de falar que estava pegando fogo, mas até hoje nunca encontramos alguém para falar isso para ele.

GE.Net: Johan Cruyff, técnico do Barcelona, chegou ao Japão com o nariz em pé e o Telê informava o elenco sobre todas as declarações dadas por ele. Como vocês encararam a soberba do Barcelona?

Pintado: As declarações do Cruyff caíram muito bem para a gente. Sabíamos do nosso potencial, da força que tínhamos, mas ser menosprezado naquele momento serviu de motivação e tornou tudo mais legal.

GE.Net: Depois de ser derrotado, ele se rendeu dizendo ter sido atropelado por uma Ferrari. A que carro você compara o São Paulo de 2011?

Pintado: Eu não gostaria de comparar uma equipe que foi vencedora como aquela com uma equipe que não conquistou nada de expressão.

GE.Net: Como o São Paulo lidou com o favoritismo do Barcelona?

Pintado: A gente foi para o Japão feliz, confiante. Nós já tínhamos vencido o Barcelona no Teresa Herrera e sabíamos que havia essa possibilidade, mas não tínhamos a dimensão exata do que representaria o título. Depois de ganhar, entramos no vestiário de uma forma normal, como sempre fazíamos, e o Toninho Cerezo falou: ‘pô, vocês estão loucos? Nós somos campeões do mundo e não tem uma champanhe para a gente comemorar?’ (risos). Ficou gravado.

GE.Net: Então a comemoração foi tímida?

Pintado: Nem teve, ninguém saiu para lugar nenhum, ninguém tomou cerveja. Acho que tomamos só uma champanhe que o Toninho Cerezo pediu no hotel. Não tínhamos dimensão do que era conquistar o título do mundo, percebemos a importância quando chegamos no Brasil. Aí foi bacana, foi legal.

GE.Net: Emerson Leão disse recentemente que prefere ter mais coadjuvantes do que estrelas no time. Como era com o Telê?

Pintado: Aquele time não tinha vaidade. O Raí passava por um momento muito legal, o Muller e o Zetti eram jogadores de Seleção, o Toninho Cerezo tinha história… Era um time com muitas estrelas, mas sem aquela coisa de um querer ser mais que o outro. Nós que éramos coadjuvantes também pensávamos assim, não queríamos aparecer mais que ninguém, a ideia era apenas ser campeão.

GE.Net: Você é são-paulino?

Pintado: Sou mais que um são-paulino, cara. Mais que um são-paulino. Sou um torcedor que teve a possibilidade de entrar em campo e ganhar duas Libertadores e um Campeonato Mundial. Isso foi muito valioso para mim.