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Pietro Fittipaldi: ‘A Fórmula 1 é um grande objetivo’  

O neto de Emerson estreia na Indy este ano e já negocia uma vaga de piloto de testes na F1, o caminho mais curto para virar titular

Quase 21 anos depois, o sobrenome Fittipaldi voltará a aparecer no cockpit de um carro da Fórmula Indy. No próximo dia 7 de abril, Pietro, nascido em Miami em 25 de junho de 1996, fará sua estreia na temporada 2018 da categoria, no circuito oval de Phoenix, pela equipe Dale Coyne – ele vai disputar sete provas no ano. Seguirá, desta maneira, os passos do avô Emerson nos EUA, um dos maiores nomes do automobilismo nacional, bicampeão na Fórmula 1 e campeão também na Indy, em 1989.

Mas Pietro não pretende fincar raízes no automobilismo americano. Com um timbre de voz muito semelhante ao do avô, ele assegura que a rota da F1 não foi deixada de lado. “A Indy tem pilotos excepcionais, o nível é muito competitivo, mas a F1 continua sendo um grande objetivo”. E ele pode ser o próximo brasileiro a guiar na categoria já na próxima temporada, como piloto de testes, talvez o caminho mais curto para virar titular de uma equipe – a negociação anda em sigilo, mas o pai diz que está indo muito bem. O ano de 2018  será o primeiro nos últimos 48 sem um brasileiro no grid de largada – justamente desde a estreia de Emerson, em 1970, pela Lotus.

Nas competições desde os 9 anos, Pietro – filho de Juliana Fittipaldi e Carlos da Cruz – foi campeão de kart, participou de duas categorias da Nascar (stock car americana)e foi campeão numa delas, seguiu para a Europa e lá tem vitórias em categorias como divisões da Fórmula Renault (foi campeão da categoria na Inglaterra), disputou a Fórmula 3 europeia, foi campeão da MRF Racing Challenge – 4 vitórias, 2 poles (9 pódios), e disputou a Formula V8 3,5 em 2017. O DNA do nome está evidente e o currículo dá as credenciais necessárias para que as equipes prestem muita atenção no brasileiro.

Como estão os preparativos para a sua estreia? Fizemos três treinos no circuito oval de Phoenix, onde será a minha primeira corrida, dia 7 de abril. Ainda terei mais dois treinos antes da estreia, em Indianápolis, um na pista mista e outro na pista oval.

Pietro Fittipaldi Pietro: DNA dos Fittipaldi

Pietro: DNA dos Fittipaldi (Instagram/@pifitti/Reprodução)

Como é ter alguém com a história no automobilismo como seu avô? Isso ajuda ou atrapalha? Ah, acho que ajuda bastante. Tenho uma ótima relação não só com meu avô, mas também com meus tios, o Christian, que na verdade é primo da minha mãe, porém considero como um tio. E tem o Max Pappis, ex-piloto italiano (disputou sete corridas na F1), casado com uma irmã da minha mãe (Tatiana). Então  venho de uma família que entende muito de automobilismo. Isso ajuda. O meu avô, com toda a experiência que tem, está sempre disposto a ajudar, mas ele sabe da minha capacidade na pista, trabalhando com os engenheiros e mecânicos. É um apoio maior do ponto de vista familiar.

Já pediu dicas para o seu avô? Tirou dúvidas sobre alguma pista? Afinal ele correu muitos anos na Indy. Sim, já aconteceu. Antes de treinar em Phoenix, como ele já tinha corrido lá, me contou que se preocupava em acertar o carro para as primeiras duas curvas, porque as duas últimas são mais fáceis. É muito legal poder contar com conselhos de alguém como ele. Ter um avô que conhece tanto de automobilismo e tê-lo do meu lado é uma grande ajuda.

Como é seu relacionamento com outros pilotos brasileiros? Sou muito próximo do Nelsinho Piquet, ele é um dos meus melhores amigos, e do irmão dele, o Pedro. Sou bem próximo também do Bruno Senna, enfim, temos um grupo de pilotos brasileiros e a convivência é bem legal. Fiquei mais amigo do Nelsinho pois o conheço desde a época em que corria na Nascar. Quando me mudei para a Carolina do Norte, onde ficam as equipes da Nascar, o Nelsinho também estava correndo lá. Morávamos muito perto, a menos de 15 minutos um do outro. Toda semana íamos treinar, jantar. Criou-se uma relação de amizade que vai além da convivência profissional, nas pistas.

Nestas conversas com o Nelsinho, ele já chegou a falar com você sobre aquele episódio do acidente em que ele se envolveu quando corria pela Renault, em 2008, por ordem do Flavio Briatore, diretor da equipe? Não, ele nunca falou sobre isso, nem eu toquei neste assunto com ele.

O grande objetivo seu de carreira é chegar à F1? Olha, tenho vários “grandes objetivos” na minha vida. Um deles era o de correr na Indy. Porque não é fácil correr aqui. Não quero que as pessoas achem que estou menosprezando a Indy e só penso na F1. Claro que um dos meus grandes sonhos é correr na F1. Mas a Indy tem vários pilotos de nível excepcional, o campeonato é muito competitivo. É uma honra ter essa chance, disputar as 500 Milhas de Indianápolis será incrível. A F1 continua sendo um grande objetivo.

O Fernando Alonso já disse que é impossível ter amigos na F1. Se você chegar à categoria, que tipo de ambiente espera encontrar? São realidades diferentes. Como o Alonso disse, na F1 é tudo um pouco mais fechado, inclusive as pessoas. Não se costuma falar muito com os pilotos das outras equipes, há receio de deixar escapar alguma informação. Nos Estados Unidos, é mais aberto, os pilotos costumam ser amigos fora das pistas. Na F1, após o fim de semana da corrida, geralmente os pilotos não se encontram. Alguns são amigos, os que moram em Mônaco, por exemplo. Dá para perceber este distanciamento até quando vou ao GP do Brasil, em Interlagos. No paddock não tem quase ninguém de fora. É difícil encontrar as famílias dos pilotos. Na Indy ou na Nascar, é muito mais aberto, são muitos fãs andando pelo paddock, conhecendo os carros e os pilotos. A mentalidade é diferente.

A chegada do grupo Liberty, que agora comanda a F1, pode mudar essa realidade? Pode ser, eles estão tentando mudar esta mentalidade para deixar um pouco mais aberta, preocupados especialmente com a experiência dos fãs. Isso é muito importante.

Pietro Fittipaldi Experiência em várias categorias

Experiência em várias categorias (Instagram/@pifitti/Reprodução)

Quais são seus ídolos no automobilismo? O Ayrton Senna, claro, é um de meus maiores ídolos, embora não o tenha visto correr (Senna morreu em 1994). Meu avô, é claro, e o Nelson Piquet, todos grandes pilotos da história do automobilismo brasileiro. Também sou muito fã do Fernando, é completo, rápido, tem estratégia, larga bem, às vezes consegue fazer um milagre com um carro que não é tão bom.

E quem é o melhor piloto da atualidade? Difícil dizer, porque depende de muitos fatores. Existem diferenças de equipe, a Mercedes agora está muito forte, a Ferrari precisa melhorar. Temos dois grandes pilotos como Hamilton e Vettel, e não dá para compará-los em carros em condições diferentes. Um pode ser mais rápido na classificação e o outro levar vantagem na largada e durante a prova. Difícil apontar quem seria o melhor do mundo hoje.

Você é jovem e está sempre viajando. Dá para ter namorada? Olha, é difícil. Meu foco agora está na carreira, nas corridas. Mas conheci uma menina no ano passado, irmã do meu companheiro de equipe na Fórmula V8 World Series, e começamos a namorar. Antes era mais fácil porque ela ia para algumas corridas. Eles são da Áustria, moram numa cidade na montanha e às vezes passava um tempo com eles. Treinávamos parte física. Mas é difícil manter um relacionamento, ainda mais que meu grande foco agora está na carreira, em evoluir como piloto profissional… Faz dois meses que a vi pela última vez. Estamos meio enrolados (risos).

Como sua mãe encara ter filho piloto? Ela é tranquila, está acostumada com as corridas desde pequena. Mas sempre fica um pouco nervosa antes da largada, como toda mãe. Mas sabe que os carros são bem seguros. Quando eu e meu irmão éramos pequenos, ela ia a todas as nossas corridas de kart, era ela quem nos levava, pois meu pai trabalhava. Ela encarava seis horas de carro para nos levar às provas. Sempre me apoiou muito, assim como meu pai. Sem eles não estaríamos correndo. Comecei a andar de kart com cinco anos de idade, o Enzo com quatro. Foi muito sacrifício por parte deles.

O seu irmão está na Academia Ferrari. Você passou por lá também? Eu fiz uma semana de treinos lá. Queriam que eu treinasse num Fórmula e testei na pista de Fiorano, na Itália, onde cheguei a bater o recorde do circuito. Não entrei na Academia  porque faço parte da escuderia Telmex, um outro programa, mexicano, que apoia pilotos latino-americanos.

Mesmo sendo um período curto, o que achou da experiência na Ferrari? Foi legal. No ano passado, morei na Itália com meu irmão, porque ele tinha 15 anos e não poderia morar sozinho. A Ferrari queria que ele morasse em Maranello. Lá, podíamos usar  o simulador, e eu aproveitava quase todo dia no equipamento, um dos treinos mais importantes, além do físico e mental, em que eles apostam muito.

Você é bom no acerto dos carros? Acho que sim. Tenho um feeling bom, acho que isso vem do meu avô, ele sempre foi um ótimo acertador de carros. Na Nascar, sempre há muitas mudanças no carro e fui aprendendo, com o tempo, acerto de mola, de suspensão, várias coisas. Esta experiência na Nascar me ajudou demais.

Como avalia a situação atual do Brasil? Vejo de longe, pois com o meu calendário de provas, passo pouco tempo no Brasil. Acho que a situação se reflete também no automobilismo. Este será o primeiro ano, depois que o meu avô entrou na F1, que não teremos um piloto brasileiro na categoria. E a economia também reflete nisso. Todo piloto precisa de um apoio, ao menos no começo da carreira, pois correr é caro. Precisa pagar as despesas da equipe, do carro, dos mecânicos. Até na F1 esse apoio financeiro é fundamental. Há comentários de que o russo que entrou na Williams (Sergey Sirotkin) teria colocado 15 milhões de euros na equipe. Um número absurdo. Tomara que estes problemas do país se resolvam e possamos ter em breve um novo piloto brasileiro na F1. Espero que seja eu.

Como vê a questão da violência no Brasil? Assusta e preocupa. Triste ver toda essa violência no Brasil, difícil ver o que está acontecendo. Às vezes, me perguntam sobre a situação e falo que vai melhorar –  se Deus quiser…