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Pedro Barros: ‘O skate é uma arte que ultrapassa barreiras’

Em entrevista a VEJA, o skatista catarinense fala sobre as vantagens (e as dificuldades) de se integrar ao universo do esporte olímpico

No dedo indicador da mão direita, o catarinense Pedro Barros fez questão de gravar com tinta um acrônimo quase impenetrável: RTMF. A sigla remete a suas origens, no esporte e na vida, na comunidade do Rio Tavares, localizada em uma área isolada da ilha de Florianópolis (o MF é uma referência a um palavrão em inglês impublicável). O grupo de famílias que em 1997 escolheu o meio do mato como morada tinha como objetivo viver em função de duas paixões: o surfe e o skate. Nascido nesse meio de cultura, seria impossível não estar sobre a prancha suspensa por rodinhas desde cedo. Por isso, Pedro se considera um skatista há 23 anos – ele completou 24 em março desse ano.

Precoce também foi sua inserção no universo competitivo: aos 15 anos, Pedro venceu sua primeira competição internacional, uma edição dos X Games, espécie de Jogos Olímpicos dos esportes radicais. A partir desse idade, ele e todos a seu redor passaram a encará-lo com um profissional, até por que a brincadeira começava a dar frutos (inclusive financeiros) para o jovem catarinense. Logo cedo, seu nome era apontado como o futuro da modalidade, o sucessor natural de lendas como Bob Burnquist e Sandro Dias, o Mineirinho.

Após uma década como skatista profissional, Pedro se encontra diante de um novo desafio: ser um dos representantes do Brasil na competição de skate da Olimpíada de Tóquio-2020. Por seu desempenho recente, ele seria um dos classificados para a competição olímpica caso fizéssemos hoje o corte do ranking mundial. Embora esteja disposto a representar o país nos Jogos daqui a 8 meses, o catarinense não trata essa nova oportunidade como algo definitivo em sua vida. Com medalha ou sem medalha olímpica, Pedro só tem um objetivo em mente: semear o skate por mais pedaços do Brasil.

Em uma longa entrevista a VEJA, o skatista falou sobre diversos assuntos: vida, família e sua relação com a maconha, substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (Wada) e que por pouco não o tirou da disputa pela vaga olímpica. Leia abaixo os principais trechos da conversa:

Qual sua primeira lembrança sobre rodas? A memória mais forte tenho é de estar assistindo à TV com meu pai, quando foi ao ar um comercial de uma criancinha andando de skate e “dropando” uma mini-rampa. Aquilo me serviu como uma inspiração gigantesca: ver uma criança, que aparentemente tinha a mesma idade que eu, dropando. Eu cresci num meio que tinham muitos skatistas, em um lugar que vivia e respirava skate. Então, para mim, o ápice da vida era ser o melhor skatista possível. Meu esportista favorito era um skatista.

E de uma Olimpíada, qual a memória mais marcante? Nunca dei muita atenção para as outras modalidades. Mas, claro, como brasileiro uma das coisas que fica mais marcado é o futebol. E como o futebol brasileiro não era muito forte nas Olimpíadas quando eu estava crescendo, isso dificulta ainda mais ter memórias. Acho que a única coisa que eu lembro é que a quantidade de medalhas dos Estados Unidos era sempre mil vezes maior que a do Brasil (risos).

Quando a modalidade se tornou algo sério na sua vida, uma profissão? O skate era o elemento de união que mantinha com os meus amigos e com a minha família. Era ao mesmo tempo a minha fonte de diversão e também de frustração, de desafio. Por isso eu vivi essa fase mais nova de uma forma bastante tranquila, sem pressão. Nunca ouvi dos meus pais algo como: “O Pedro será que vai sustentar essa família”; ou “Você vai ver quando ele estourar. ” O incentivo sempre foi de uma forma lúdica: “E aí, vamos para a pista de skate? Vamos andar de skate agora?” Algo natural, uma chave para agora chegar com 24 anos, 23 deles vividos em cima de uma prancha, me sentindo como uma criança. O que pra mim é fundamental.

Pra você, o skate é um esporte ou um tipo de arte, mais ligado a um estilo de vida? Cara, o skate é a arte que ultrapassa qualquer barreira. Ele pode ser atuação, dança, arte, forma de expressão. É uma cultura. O skate pra mim sempre foi uma ferramenta para abrir portas de qualquer universo que eu quisesse entrar. Então, se você quiser fazer do skate um esporte ele também te dá essa possibilidade.

E como você vê essa apropriação de um estilo de vida dentro dos Jogos Olímpicos? A minha primeira impressão, definitivamente, foi foi algo como: “Uhu! Agora estamos nas Olimpíadas”. (A entrada no programa olímpico) É algo muito delicado, principalmente para alguém que vive isso há mais tempo, que encara o skate mais como um estilo de vida e não propriamente um esporte. Sinceramente, acho que todos nós precisamos de algo que nos inspire, que nos dê a motivação de acordar e tentar ser uma pessoa melhor. Por isso, eu vejo a possibilidade de o skate conseguir passar essa mensagem no universo olímpico. Hoje, o esporte tradicional não é mais o mainstream. O Comitê Olímpico selecionou o skate justamente para trazer de volta ao universo competitivo o componente da paixão. Foi um jeito de atrair jovens, que pensam fora da caixa. Não é para competir batendo de frente, para ver quem morre ou quem ganha, ver quem fica sangrando pelo caminho e quem acaba com o troféu na mão.

Mas você não tem medo de perder o controle sobre o futuro da modalidade estando dentro de uma estrutura tão arcaica? As únicas pessoas que tem poder para direcionar isso para o caminho certo somos nós, skatistas. Então se for para ficar com medo, o resultado vai ser mais uma exemplo do que está acontecendo no Brasil agora, entendeu? Olha o governo que nós temos hoje: isso é fruto do nosso medo. Ou você tem coragem de bater de frente com quem está no poder ou você vai ficar em casa com medo para o resto da vida.

E o qual seria o mundo ideal? Para mim, o cenário ideal seria aquele em que tivéssemos uma infestação de pistas de skate, e de valores que o skate transmite para nossa sociedade. Trazer uma pista de skate para um bairro que não tem nada é trazer um pedaço de vida para aquela comunidade. Um pedaço de conhecimento, um pedaço de saúde, um pedaço de felicidade ou de alegria. É dessa forma que eu vejo, muito mais simples do que pensar que o skate tem que ser uma indústria, que tem que fazer muito dinheiro. Se vivêssemos em uma sociedade que a gente pudesse viver em paz, não precisaríamos de muito dinheiro.

O que mudou daquele Pedro garotinho, que ainda era visto como apenas uma promessa, para o adulto? Mudou um monte, mas não mudou muito. Sou o mesmo Pedro que sempre fui. Faço as coisas que sempre fiz. Mas agora tenho que ser muito mais inteligente, para poder garantir o meu futuro. Por que obviamente é um ilusão achar que ficarei mais 10 anos no topo do skate competitivo. Isso não é saudável como ser humano: ficar 20 anos em um esporte, é algo muito desgastante, muito confuso para a mente de uma pessoa. Ela não consegue ter tempo para se dedicar a mais nada na vida. Portanto, hoje 90% do meu tempo é para o skate, e 10% para o resto. E tenho uma mulher, uma família, amigos. Acabo deixando muita coisa importante de lado. Por que é preciso viver o agora, principalmente quando falamos de uma competição do nível de uma Olimpíada.

Desde cedo, apontam a sua frieza durante as competições como um de seus pontos fortes. Como faz para ser tão calmo nessas horas? Pode parecer meio louco, mas, para mim, a grande responsável por essa característica não é a frieza, mas, sim, a paixão. É o quanto esse pedaço de madeira com quatro rodinhas me traz de alegria. Antes de entrar em uma competição, não penso em estar ali para competir contra aquele moleque, aquele fulano. Não, estou ali para andar de skate, que é o que mais gosto de fazer na vida. Ter foco é muito mais do que o poder de concentração, de olhar para a parada e dizer que vou fazer isso, vou estudar, vou andar bem. Para mim, ter foco é estar feliz, contente, com uma leveza na alma e no corpo com aquilo que está acontecendo. Quando eu estou nesse estado, a competição fica muito mais fácil.

Como você reagiu ao resultado adverso para o uso de maconha, substância proibida pelo código antidoping do esporte? Essa questão do doping não mexeu muito comigo por que eu tenho uma base de família e de amigos, de pessoas do bem do meu lado. Sou abençoado por isso. Mas não vejo essa postura como a evolução do esporte. Parece que é algo simplesmente para provar alguma coisa. Não é pensando no bem do esportista. É um julgamento político, que é justamente contra isso que eu luto na minha vida hoje. Tudo o que quero passar para os jovens hoje é o contrário disso. É o contrário da Rússia fazendo esquemas para conseguir passar doping para seus atletas, e alavancar o tamanho do seu país. Algo que é só pelo interesse financeiro do país. E de poder.

Mas você correu o risco de ser suspenso e ficar fora da Olimpíada. Mas o quanto (a maconha) vai mudar o resultado de uma competição? O quanto muda a performance de um skatista por uma substância dessa, considerada dopante? Eu caí no doping com maconha, com cannabis. Eu não me drogo com nada. Fiz uma cirurgia na clavícula e não tomei um tipo de comprimido sequer que não pudesse ser comprado facilmente numa farmácia, tipo derivados da morfina. Eu fui em busca do natural. Por que é aquilo que para mim faz sentido, entendeu?

Você disse no passado que não encararia mais do que um ciclo olímpico tendo que viver sob as regras rígidas da Wada. Por quê? Não acho certo não poder ser livre para viver a minha vida da forma como eu quero. Da forma que eu considero ser mais saudável pra mim, por causa de uma entidade de antidoping que fala que a cannabis é proibida. É a liberdade nesse ponto que estamos falando. Quando falei que não ficaria o período de quatro anos passando por isso é por que eu não me vejo vivendo quatro anos me privando de viver a vida como eu acredito ser o certo. Ou ter a liberdade de fazer o errado para aprender no futuro. O que mais me ensina no skate é que cair todos os dias. Eu estou constantemente caindo e me ralando, o que é algo que me ensina todos os dias. E a vida não deixa de ser assim. Esse tipo de punição não ajuda ninguém. O fato de ter saído o resultado do exame, algo que foi noticiado para o Brasil inteiro, não me fez evoluir em nada.

Muitos atletas só tem a coragem de falar sobre o uso de drogas recreativas como a maconha depois que se aposentam. Por que você fala abertamente sobre o tema? O que é bom pra mim não é necessariamente bom pra você. Mas um atleta passa por muitas lesões, visíveis ou não. Ele pode não estar machucado no joelho, pode não estar machucado no braço, com um ralado, mas poucos sabem o tanto de stress que passa na cabeça dele durante uma competição. O tanto de impacto que o cérebro dele passa pelas quedas. Ninguém vê essas lesões. Elas podem se manifestar como uma ansiedade, como uma síndrome do pânico, uma depressão, as vezes até mais adiante nas nossas vidas. Dores como essas são difíceis de se resolver. Então alternativas como a cannabis podem ter essa força de cura. A meditação, a conexão espiritual também. Já vi pessoas que estavam morrendo de câncer, casos em que a morfina e opióides não faziam efeito, e nos quais uma substância como o CBD (canabidiol) ajudou. Quando vejo isso, penso a pessoa tem o direito ao menos da opção. Isso não deveria ser privado para ninguém.

Geralmente a imagem que se faz do atleta olímpico é de que ele é um herói quase inatingível. Você se encaixa nesse perfil? Para mim, o maior herói é aquele que tem a condição de passar seu poder para o próximo. Eu não quero ser visto como um herói. Desculpa, tenho o maior orgulho se quiserem me tachar de rebelde, ou de anarquista, ou de o quer que for. Pra mim, as pessoas que tem esse tipo de atitude mudaram muito mais a sociedade do que as pessoas que estão com terno e gravata falando que estão fazendo o certo. Por que assim toda a “responsa” estará sobre as minhas costas. Terei que fazer tudo sozinho? Sou eu quem vai combater o crime? Não, para mim não existe herói. Todos nós somos heróis. Todo ser humano tem um habilidade especial que pode tocar o próximo, trazer uma positividade. Pra mim, é muito mais sobre poder tocar o próximo, e que esse próximo consiga despertar algo de especial dentro dele como o skate me despertou. Quero mais isso do que eu ser visto como o grande skatista, como o grande atleta olímpico do Brasil, como “O” Pedro Barros. Isso não serve pra nada, sinceramente. É pra ficar abastecendo meu ego e, quando eu morre, ir pra lugar nenhum.

Apesar de ser um jovem de 24 anos, você já está caminhando para a metade final da sua carreira profissional. E depois, o que vai ser? Nunca vou deixar de ser skatista. Isso aqui é a minha vida. Uma das coisas que já falei é que, quando eu morrer, quero ter um skate ao meu lado. O que eu sou hoje é por causa do skate, o que vou ser amanha também será. E sonhos? Cada hora a gente cria um sonho diferente. Mas para mim é conquistar o mais simples e o mais difícil, que é a felicidade plena. O amor pleno. Que com uma tranquilidade é aquilo que todos nos buscamos. Com medalha ou sem medalha olímpica, isso vai ser só uma consequência da minha trajetória.