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Paulinho: ‘Fora de campo, Messi é um ser humano normal’

Impressionando com a qualidade do Barcelona, meio-campista da seleção brasileira diz: 'Eu sabia do questionamento por estar vindo da China'

Por  Tiago Leme, de Barcelona - Atualizado em 10 Dec 2018, 09h21 - Publicado em 22 Mar 2018, 16h44

Os dois anos no futebol chinês, depois de um período ruim no Tottenham, podem ter feito muita gente pensar que a carreira de Paulinho estava em decadência. Engano. Hoje, quase oito meses após chegar ao Barcelona e superar alguma desconfiança, o volante de 29 anos demonstrou que pode, sim, ser peça importante no time de Lionel Messi e também na seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2018. “Nunca dei muita importância para o que as pessoas falam”, disse Paulinho, em entrevista em Barcelona.

Paulinho chegou a pensar em largar o futebol em 2008, após ter sido vítima de racismo na Lituânia e passar por dificuldades financeiras na Polônia. Ele se reergueu no Pão de Açúcar e no Bragantino, até brilhar no Corinthians entre 2010 e 2013. Nem o duro golpe sofrido com a derrota na Copa do Mundo de 2014 fez o volante perder as forças. A saída da Inglaterra abriu caminho para a China, e os seis títulos conquistados com o Guangzhou Evergrande, sob o comando de Luiz Felipe Scolari, fizeram Paulinho ganhar uma nova oportunidade. Com a bênção de Messi, o brasileiro tem se destacado, com sua força e infiltrações no ataque, em meio ao estilo de toque de bola do Barcelona.

Nesta sexta-feira, às 13h (horário de Brasília), Paulinho estará com a seleção no amistoso contra a Rússia, em Moscou, no estádio Luzhniki, palco na abertura e da final do Mundial de 2018. Nesta conversa, o volante falou sobre os questionamentos que enfrentou na carreira, sobre o companheiro de time Lionel Messi e sobre o trabalho do técnico Tite.

https://www.youtube.com/watch?v=1jyaxb_MB2E

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Antes de chegar ao Barcelona, comentou-se que o seu estilo de jogo não combinaria com o do time. Você sentiu essa desconfiança? Na verdade, nunca dei muita importância ao que as pessoas falam. Questionamento houve praticamente em toda a minha carreira, estou com 29 anos, e terei mais… Mas com trabalho, dedicação, vontade, foco maior e objetivos é possível passar por cima de questionamentos ou qualquer coisa negativa.

No Barcelona tem algum treinamento tático ou técnico que o fez evoluir? Todo dia se aprende algo no Barcelona, nos treinamentos, tecnicamente se vê coisas diferentes, são jogadores de alto nível. Às vezes, numa roda de ‘bobinho’, vejo jogadores fazendo coisas que nunca tinha visto em outros lugares. É uma escola de futebol diferenciada.

É verdade que Messi pediu sua contratação? Como ele é na intimidade? Não sei se foi ele quem pediu, sei que é um cara que me ajuda muito, na adaptação, de estilo de jogo do Barcelona. É um cara que procuro sempre que tenho alguma dúvida. Tanto ele como outros jogadores com quem tenho uma certa liberdade para conversar sobre várias coisas. É um cara que é craque dentro e fora de campo. No vestiário, no dia a dia, ele é muito simples, tranquilo, na dele, conversa numa boa, brinca, é uma pessoa normal como qualquer outra. Às vezes as pessoas que estão de fora acham que o Messi é de outro mundo. Não. Acho que dentro de campo ele é de outro mundo, mas é um ser humano normal, por quem tenho carinho e admiração muito grandes.

Paulinho é abraçado por Lionel Messi após marcar contra o Athletic Bilbao
Paulinho é abraçado por Lionel Messi após marcar contra o Athletic Bilbao Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images

Quando foi para a China, acreditava que voltaria à seleção? Aconselha jogadores de elite a jogar na China? Depende muito do que o jogador quer. Quando fui, estava em um momento infeliz na Inglaterra, precisava sair para ser feliz. Foi a melhor decisão que tomei naquele momento. Tive dois anos maravilhosos, dos mais felizes da minha vida, da minha carreira. Se algum jogador quiser opinião, vou perguntar o que ele quer, quais são os objetivos. Eu queria a felicidade e queria jogar. Não estava jogando nos últimos seis meses na Inglaterra. Em nenhum momento fui para a China pensando em seleção. Primeiro tinha de jogar, depois sim pensar na seleção.

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Por que não deu certo sua passagem pelo Tottenham? A primeira temporada foi muito boa. Na segunda, após o Mundial, houve mudanças de treinadores, foram três em dois anos. Depois que retornei do Mundial, era o Mauricio Pochettino, que ainda está lá, e ele tinha  as opções dele. É um assunto que não gosto de falar muito, mas não tive nenhum tipo de problema com ele. Se não dei certo lá, dei certo na China, estou dando certo no Barcelona.

Como é ser comandado pelo Tite? O professor Tite não mudou nada do que ele fazia no Corinthians, continua sendo sincero, transparente, trabalhador, um cara honesto. Sempre procurando dar oportunidades aos jogadores, fazendo bem o seu trabalho, passando informações para que entendamos a forma como ele quer que nos comportemos dentro de campo, nos jogos e treinamentos. Se eu não estivesse na seleção, ia torcer igual para ele. Disse isso a ele uma vez: “O senhor tem capacidade, e o senhor pode chegar lá, então quando chegar, aproveite.” É um cara que passei a admirar.

Você também se deu muito bem com Felipão, na seleção e na China. Quais as diferenças do trabalho deles? Não tem diferença, não tem semelhança, cada um tem a sua filosofia, pensa de uma forma, tem o seu estilo de jogo, as suas qualidades. Serei sempre grato ao Felipão porque foi quem que me deu oportunidade de disputar o Mundial. Depois trabalhei dois anos com ele na China. Ele me deu oportunidade de ganhar muitos títulos no Guangzhou. Ele acreditou em mim quando eu estava em um momento sem confiança no futebol, nos últimos seis meses na Inglaterra. Sempre serei grato a ele e sua comissão técnica.

Vocês ainda pensam no 7 a 1? É uma coisa que já se passou há alguns anos. Se ficarmos relembrando o que houve lá atrás, não seguimos em frente. Aconteceu, fomos culpados, a responsabilidade é nossa, temos de carregar essa derrota. Podem passar muitos anos e uma ou outra pessoa vai falar, Cabe a cada um absorver, aceitar. As críticas valem até um certo ponto, desde que não haja nenhum tipo de ofensa. Mas não me incomoda nem hoje, nem amanhã nem depois. Perdemos e temos de assumir a responsabilidade.

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Você conversou com Neymar sobre a lesão que ele sofreu? Sou muito reservado nesse aspecto. Depois que aconteceu a lesão do Neymar, imagino que milhões de pessoas estavam mandando mensagem para saber como ele estava. Esperei alguns dias para falar com ele. Queria saber como ele estava mentalmente. Ele já sabia o que ia fazer, o tempo de recuperação. Eu me preocupei em saber como estava a cabeça. A recuperação tenho certeza que vai ser maravilhosa. Fisioterapia, físico, técnico, tudo vai estar bem.

Qual o sentimento dos jogadores do Barcelona em relação à saída de Neymar? Desde que cheguei, nunca ninguém tocou nesse assunto, afinal de contas é uma decisão pessoal. Eu não sei se antes de sair ele conversou com jogadores, funcionários. A decisão tem de ser respeitada. Ninguém é obrigado a concordar com as decisões, mas tem de aceitar, respeitar.

Você continua acompanhando o Corinthians? O que acha do trabalho do Fábio Carille? Procuro observar, acompanhar, tenho muito carinho pelo clube que me deu muitos títulos e faz ótimas campanhas. O Carille faz um bom trabalho e tem conquistado títulos.

Onde você e o Barcelona podem chegar? Qual seu sonho, seu objetivo? Onde eu posso chegar não, onde o Barcelona pode chegar. É continuar fazendo o trabalho que a gente vem fazendo, sempre procurando vencer, principalmente na Liga Espanhola, sem pensar nos adversários e sim pensando na nossa equipe. Acho que para ser campeão a gente precisa ganhar os jogos, não depende de ninguém. Então, eu acho que o que vai definir a nossa temporada somos nós mesmos, a gente tem boas chances de conquistar títulos, agora depende da gente. Claro que tem o cansaço, mas esse cansaço lá na frente vai valer a pena, então o que a gente conseguir de títulos com certeza vai ser importante.

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Qual será o principal obstáculo da seleção na Rússia? Já sabemos das dificuldades e adversidades que vamos encontrar. Temos adversários de nível muito alto. Não podemos dar margem a erros. Depende exclusivamente de nós fazermos um bom Mundial, bons jogos e buscar o título.

Paulinho se destacou nas Eliminatórias e se tornou titular da seleção Pedro Martins/Mowa Press
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