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Passados dez anos, Palmeiras não aprendeu com a queda

Foi uma década perdida: ao invés de evoluir, clube repetiu erros do passado

Por Da Redação 18 nov 2012, 20h20

Virou uma questão de sobrevivência. Se não usar essa segunda queda para promover uma profunda transformação, o Palmeiras corre o risco de sofrer um baque ainda pior – não retornar rapidamente à elite

Depois de uma longa agonia, os piores temores da quarta maior torcida do Brasil se confirmaram neste domingo: depois de ceder um empate no final do jogo contra o Flamengo, neste domingo, restava ao Palmeiras torcer pela derrota da Portuguesa contra o Grêmio para se livrar da série B – o que não aconteceu (o jogo terminou empatado em 2 x 2). E o que mais aflige os cerca de 12 milhões de palmeirenses espalhados pelo país é a repetição de um pesadelo. No sábado, o episódio mais triste da notável história do clube completou dez anos: o rebaixamento para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 2002, com uma derrota para o Vitória. Na ocasião, a promessa dos palmeirenses era aprender com a queda para jamais passar pelo mesmo sofrimento. Passada exatamente uma década, no entanto, a torcida da equipe paulista amarga a repetição do trauma – o que mostra que o tropeço de dez anos atrás não foi suficiente para levar o clube a se modernizar.

Com boa infraestrutura – tem centro de treinamento próprio e está prestes a ganhar um novo estádio -, o Palmeiras tem todas as condições para estar sempre entre os melhores do país. Ainda assim, passou quase o campeonato todo afundado na zona de descenso. Agora, não há mais contas a fazer. De fato, não há mais nada a fazer a não ser encarar a realidade (e a gozação das torcidas adversárias, principalmente a do arquirrival Corinthians, que vive o melhor momento de sua história, para desgosto dos alviverdes). Desta vez, a torcida espera mais que o rápido retorno à primeira divisão, já no ano que vem. Os fanáticos pelo clube sabem que não é mais possível adiar o indispensável processo de reformulação interna, principalmente na parte política.

VANDALISMO - Torcedores do Palmeiras invadem área das cadeiras numeradas no Pacaembu
VANDALISMO – Torcedores do Palmeiras invadem área das cadeiras numeradas no Pacaembu VEJA

Nas últimas semanas, quando ficou claro que o Palmeiras dificilmente escaparia, muitos discutiam quem seria o maior culpado pela situação. O presidente Arnaldo Tirone, sempre confuso e instável? O ex-técnico Luiz Felipe Scolari, que comandou o time durante a maior parte do campeonato? O camisa 10 Valdívia, que apesar de ser o grande craque do time quase nunca decide em favor do Palmeiras? Cada um tem sua parcela de responsabilidade, é claro. Mas os problemas na direção e na gestão são, inegavelmente, os grandes fantasmas do clube, o primeiro dos grandes times brasileiros a viver o fantasma do descenso pela segunda vez neste século. As falhas parecem se estender desde a presidência aos subordinados – desencontros e trapalhadas são cenas comuns nos bastidores da instituição.

Nos últimos anos, gastos estratosféricos com uma folha de pagamento multimilionária, que já teve nomes como Scolari, Kléber (agora no Grêmio), o técnico Muricy (hoje no Santos) e Valdívia (recontratado a peso de ouro), pareciam incompatíveis com o resto do elenco, que sofre com deficiências graves em várias posições. Em resumo, o Palmeiras gasta muito com poucos, e acaba faltando dinheiro para formar um elenco completo e consistente. No caso de Felipão, o investimento teve certo retorno, já que o técnico, que voltou ao Palmeiras no segundo semestre de 2010, cumpriu a missão de quebrar o jejum de grandes títulos do clube. Com um elenco limitado, conquistou a Copa do Brasil deste ano e garantiu a equipe na Libertadores 2013.

Valdívia
Valdívia VEJA

Sem mágica – A taça, porém, acabou sendo enganosa. Com a ausência das melhores equipes do país do torneio – até este ano, as equipes que disputavam a Libertadores não podiam entrar na Copa do Brasil -, o título iludiu os palmeirenses, que achavam que tinham mão de obra em qualidade suficiente para terminar bem o Brasileirão. Até deixar o clube, em julho último, Scolari somou 154 jogos, com 65 vitórias, 47 empates e 42 derrotas. Nesse período, pouco mais de 30 atletas entraram e saíram do clube – e a maioria deles era de qualidade técnica muito questionável. Os números também pesam contra o “Mago” Valdívia. Desde que ele retornou, em meados de 2010, o time soma 170 partidas disputadas, mas o chileno disputou apenas 82, menos da metade.

As frequentes ausências, provocadas por suspensões, contusões e convocações para a seleção do Chile, fizeram com que o jogador resolvesse pouquíssimas partidas para sua equipe – nesse período todo, marcou apenas nove gols. Uma péssima relação custo-benefício quando se leva em conta que o salário dele se aproxima de meio milhão de reais. Até o mês passado, Barcos – esse sim, um investimento certeiro, um exemplo de jogador que assume a responsabilidade e decide – ganhava menos da metade do colega. Desde sua estreia, em fevereiro, o camisa 9 anotou 28 gols em 53 partidas. Não adiantou. Para desespero de sua torcida, o Palmeiras rebaixado em 2012, com 31% de aproveitamento antes deste domingo, foi ainda pior que o de 2002, que somou 36% dos pontos. Agora, virou uma questão de sobrevivência. Se não usar essa segunda queda para promover uma profunda transformação, o Palmeiras corre o risco de sofrer um baque ainda pior – não retornar à elite do futebol brasileiro, que sempre foi seu lugar de direito, ao fim da próxima temporada.

Luiz Felipe Scolari
Luiz Felipe Scolari VEJA
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