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Os novos (e bem maiores) desafios de Tite depois do primeiro título

Treinador tirou um peso das costas com a taça da Copa América, mas terá a missão de rejuvenescer time e remontar comissão até a Copa do Catar

RIO DE JANEIRO – A conquista da Copa América em casa teve seu valor. Ainda que o torneio em si tenha sido decepcionante, sob todos os aspectos, o Brasil fez a sua parte e conquistou a nona taça com méritos, 13 gols marcados e apenas um sofrido. Os desafios a partir de agora, porém, serão bem maiores para o técnico Tite, que apostou num time com diversos atletas experientes (e que talvez não cheguem à Copa do Catar, daqui a três anos e meio) e perderá colegas de confiança, como o coordenador Edu Gaspar, além de outros membros da comissão.

O grande mérito desta equipe foi a solidez defensiva e este, ironicamente é um fator que preocupa devido à idade avançada de alguns de seus integrantes. Daniel Alves, o craque da Copa América e grande líder em campo, terá 39 anos em 2022. E hoje não tem um reserva jovem à altura – o reserva, Fagner, tem 30. Thiago Silva, impecável no torneio, tem 34 anos, Filipe Luís, titular da lateral esquerda até se lesionar, 33. Os jovens do setor, cada vez mais consolidados no grupo, são o goleiro Alisson (26 anos) e Marquinhos (25). Eder Militão, o caçula de 21 anos, jogou apenas alguns minutos, justamente na final, e deve ganhar mais chances na sequência deste ciclo.

Por outro lado, Tite conseguiu rejuvenescer o ataque, setor que agradou, mas ainda deixa algumas dúvidas. Willlian (30 anos) e, sobretudo, Firmino (27) têm gás para ao menos mais um Mundial. Já os outros atletas do setor podem ter ainda uma década de seleção pela frente, mas precisam amadurecer: Gabriel Jesus, Richarlison e David Neres (22 anos) e Everton “Cebolinha” (23). Tite conta ainda com interessantes opções para o ciclo, como Vinícius Junior e Rodrygo, ambos de 18 anos e já jogadores do Real Madrid.

Coutinho e Neymar viram ‘problema’

Neymar e Coutinho (Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Assim como ocorreu na Copa da Rússia, Philippe Coutinho iniciou bem a Copa América, mas foi caindo de produção. Jogando em outra posição, mais adiantado e muitas vezes recebendo a bola de costas, o camisa 11 (mais posicionado como um 10) teve lampejos de sua inegável qualidade, mas foi, novamente irregular. “Couto”, como é chamado por Tite, tem respaldo total do treinador, que certamente não deixará de convocá-lo, mas pode repensar o seu posicionamento ou até sua titularidade.

Neymar vive situação parecida. Contestado por torcida e opinião pública, o astro do PSG é muito querido pelos colegas e pelo treinador, que segue repetindo que “Neymar é Top 3”, atrás apenas de Messi e Cristiano Ronaldo, e certamente contará com ele o departamento médico liberar. Tite, porém, também se mostra um entusiasta do novo titular da ponta esquerda, Everton, que terminou como artilheiro da Copa América. Questionado sobre quem jogaria quando Neymar voltasse, o técnico gaúcho saiu pela tangente: “Bota os dois e mais nove”, brincou. É bem mais provável, porém, que “Cebolinha” volte a ser reserva, o que colocará ainda mais pressão em Neymar e Tite.

A remontagem da comissão

Diante dos rumores de que poderia entregar o cargo, Tite não foi enfático, mas garantiu que seu “contrato é até 2022.” Agora pediu à CBF alguns dias para descansar com a família no Sul, mas em breve terá bastante trabalho nos bastidores para remontar sua comissão técnica. A primeira saída confirmada, antes mesmo da Copa América começar, foi a de Sylvinho, seu ex-auxiliar, que se tornou treinador do Lyon da França. O analista de desempenho Fernando Lázaro seguirá Sylvinho e será auxiliar do Lyon. Outra saída iminente é a do coordenador de seleções Edu Gaspar, que trabalhará como dirigente do Arsenal, da Inglaterra, assim que competição terminar.

A saída de Edu representa um grande baque para o treinador. Eles trabalham juntos desde os tempos de Corinthians e foi Tite quem recomendou a sua contratação, em maio de 2016 – numa curiosa realidade em que o comandado escolhe o chefe. “É engraçado, às vezes, ele entre na sala, pede permissão para fazer tal coisa. ‘Edu, você me libera?’ Eu brinco: ‘pô, Tite, você que é o chefe’. Na hierarquia talvez seja eu, mas na prática nos colocamos no mesmo plano”, afirmou Edu, em entrevista a VEJA, antes da Copa da Rússia. Agora, caberá a CBF escolher o novo chefe, que, assim como o antecessor, deve ser um ex-jogador com experiência em gestão. Tite é um profissional que se apega muito à sua equipe de trabalho e é essencial que haja boa relação para a sequência do trabalho.  

Tite, Cleber Xavier e Edu Gaspar

Tite com o auxiliar, Cleber Xavier, e o coordenador técnico, Edu Gaspar (Lucas Figueredo/CBF/Flickr)