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Os atletas brasileiros que brilharam, silenciosamente, em 2018

Em ano de fracasso da seleção de futebol na Copa, representantes de esportes menos badalados conquistaram ótimos resultados e miram Tóquio-2020

Neymar, Tite e a seleção brasileira monopolizaram o noticiário esportivo e decepcionaram na Copa do Mundo da Rússia, mas nem só de maus momentos viveu o esporte brasileiro em 2018. Atletas de outras modalidades obtiveram bons resultados e se credenciaram a sonhar com novas glórias na Olimpíada de Tóquio, em 2020.

Esportes pouco badalados como tênis de mesa, ciclismo e canoagem, além dos mais tradicionais como atletismo, natação e ginástica, levaram o Brasil à elite em 2018. Confira resultados e entrevistas de quem mais se destacou e as projeções para a reta final do ciclo olímpico:

Ana Marcela Cunha (maratona aquática)

A atleta baiana de 26 anos terminou 2018 como a melhor nadadora de águas abertas do mundo. Assim como em 2010, 2012 e 2014, conquistou o título do circuito mundial da Federação Internacional de Natação (Fina) na maratona de 10 km, com uma etapa de antecedência. “O ano foi realmente incrível, consegui cumprir à risca todos os objetivos traçados.”

No início do mês, Ana Marcela recebeu o troféu de melhor atleta feminina na 20ª edição do Prêmio Brasil Olímpico, oferecido pelo COB, e fechou a temporada com o quarto lugar no evento Rei e Rainha do Mar, em Copacabana, antes de tirar férias, para já abrir 2019 com foco no único grande título que não tem: o dos Jogos Olímpicos. “Vamos começar o ano com força total, já nos primeiros dias de janeiro, porque teremos uma temporada decisiva. O principal objetivo é o Mundial da Coreia do Sul, em julho, que classifica para Tóquio-2020.” Na última Olimpíada, Ana Marcela chegou ao Rio de Janeiro como a maior favorita, mas terminou na 10ª colocação.

Ana Marcela Cunha venceu o Prêmio Brasil Olímpico

Ana Marcela Cunha venceu o Prêmio Brasil Olímpico (Alexandre Loureiro/COB/Divulgação)

Ana Sátila (canoagem slalom)

A atleta mineira de 22 anos é o grande nome do Brasil na canoagem slalom, modalidade na qual o competidor precisa passar por obstáculos sob forte correnteza no menor tempo possível. Em 2018, Ana conquistou cinco medalhas, quatro em etapas da Copa do Mundo – ouro no K1 Extremo e bronze no C1, na Alemanha; bronze no C1 na Polônia; e prata no K1 Extremo na Eslováquia.

“Foi um ano de muita superação, além dos resultados, um espelho para os próximos anos. Estou muito feliz, mas não satisfeita. Conquistei uma bagagem gigante, mas quero ir muito além, conquistar a vaga olímpica, copas do mundo e chegar mais preparada em 2020.” Para seguir sonhando com o ouro em Tóquio, Ana investirá em treinos fora do país. “É fundamental para o desenvolvimento do atleta, e quero ter um técnico que consiga me acompanhar até 2020 sem interrupções, para a preparação completa. Quero me tornar a primeira campeã olímpica do Brasil na Canoagem Slalom em Tóquio-2020.”

Ana Sátila, na Copa do Mundo de Canoagem Slalom, em La Seu d’Urgell, na Espanha

Ana Sátila, na Copa do Mundo de Canoagem Slalom, em La Seu d’Urgell, na Espanha (David Ramos/Getty Images)

Arthur Zanetti (ginástica artística)

Medalhista de ouro em Londres-2012 e prata na Rio-2016, Arthur Zanetti, de 28 anos, conseguiu bons resultados em todas as competições que participou em 2018. Foi campeão nas argolas e no salto nos Jogos Sul-americanos de Cochabamba (Bolívia) e vice nas argolas no Mundial de Doha, no Catar – sua sétima medalha em Mundiais. “Fui ao pódio em todas as competições de que participei, e com notas crescentes”, afirmou Zanetti, que sofreu uma lesão no bíceps do braço direito.

Para 2019, as atenções do atleta nascido em São Caetano do Sul (SP) estarão voltadas para o time que sonha com Tóquio. “Faremos como no último ciclo, vamos focar na final por equipes. O objetivo será classificar a maior quantidade possível de atletas. Depois, em 2020, vou focar nas argolas.” A principal competição de 2019 é o Mundial, que dá vaga para a Olimpíada, mas Zanetti deve disputar diversos torneios. “Temos também os Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, em julho, que é nossa grande preparação para o Mundial, e devermos ir com a equipe principal.”

Arthur Zanetti após performance no Mundial de Ginástica em Doha

Arthur Zanetti após performance no Mundial de Ginástica em Doha (Francois Nel/Getty Images)

 

Camilla Lopes Gomes e Alice Gomes (ginástica de trampolim)

Apesar do sobrenome, Camila e Alice não são parentes, mas demonstram enorme sintonia. A dupla terminou o Mundial em São Petersburgo, na Rússia, em sexto na categoria trampolim sincronizado, na primeira final envolvendo brasileiras na história da modalidade. No individual, a carioca Camilla, de 24 anos, ficou na 14ª colocação, a melhor já alcançada pelo país, uma acima da mineira Alice, de 19 anos. “Foi meu melhor ano. Fui campeã brasileira, quebrei meu recorde de pontuação, tivemos o melhor resultado no Mundial, competindo com a bicampeã olímpica e diversos grandes atletas. Isso serviu para mostrar que estamos no caminho certo, que todos os treinos e esforços diários valem a pena e que estou rumo à Olimpíada”, disse Alice.

“O momento mais significativo, para mim, foi o Sul-Americano, porque fui a única atleta a representar o Brasil no trampolim e voltei com a medalha de ouro, além dos meus resultados no Mundial. Meu desempenho me deu mais confiança”, contou Camilla. “Minha preparação para Tóquio começou há muito tempo. Meu principal objetivo nos Jogos é chegar à final e ganhar uma medalha. Mas meu primeiro pensamento é me classificar, representar o Brasil da melhor maneira possível”, completou a carioca.

Alice Gomes e Camilla Lopes Gomes em ação

Alice Gomes e Camilla Lopes Gomes em ação (Instagram/Reprodução)

Erica de Sena (marcha atlética)

Erica de Sena treina em Cuenca, no Equador, com o marido e treinador, o equatoriano Andrés Chocho, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2015, em Toronto. Neste ano, ela foi vice-campeã do Circuito Mundial de marcha atlética após oito etapas do Challenge, atrás apenas da chinesa Shijie Qieyang. A brasileira de 33 anos ainda foi campeã do Sul-Americano no Equador e quarta colocada na prova de 20 km, no Mundial de Taicang, na China. “Este ano foi muito complicado, sentia muitas dores durante os treinos. Levando isso em consideração, meus resultados foram excelentes. O quarto lugar no Mundial não foi nada mal”, comemorou a atleta, que planeja voos mais altos nos próximos anos. “Meus objetivos são mais audaciosos, para os próximos anos quero medalhas no Mundial e nos Jogos Olímpicos.”

Erlon Souza e Isaquias Queiroz (canoagem)

A dupla baiana que conquistou três medalhas para o Brasil na Rio-2016 (duas com Isaquias nos 200 e nos 1.000 metros no individual e uma da dupla na prova dos 1.000 metros) voltou a trazer três medalhas no Mundial de Canoagem Velocidade de 2018. Os dois ficaram com o ouro na prova dos 500 metros e Isaquias ganhou mais duas medalhas: ouro nos 500 metros e bronze nos 100 metros. “Não treinamos para a prova e ninguém sabia disso. Mas quando  chego na raia meu nível acaba subindo”, confessou Isaquias, de 24 anos.

O Mundial em Montemor-o-Velho, em Portugal, foi o último sob a batuta do técnico Jesús Morlán. O espanhol, que treinava a seleção brasileira desde 2013, não resistiu a um tumor no cérebro e morreu em novembro. O treinador foi o grande responsável por colocar a canoagem brasileira em alto nível ao criar as condições para que atletas como Isaquias e Erlon pudessem competir com chances de vitória. A dupla espera conquistar mais medalhas para o Brasil em Tóquio para homenagear Morlán. “Queremos mais duas medalhas para chegar à décima do Jesús em Olimpíadas”, revelou Isaquias. Além dos três pódios com os brasileiros, Jesús Morlán tem outros cinco com o conterrâneo David Cal.

Isaquias Queiroz e Erlon de Souza: medalha de ouro no C2 500 no Mundial em Portugal

Isaquias Queiroz e Erlon de Souza: medalha de ouro no C2 500 no Mundial em Portugal (Rodolfo Vilela/rededoesporte.gov.br/Fotos Públicas)

Flávia Saraiva e Rebeca Andrade (ginástica)

As ginastas Flávia Saraiva e Rebeca Andrade são as esperanças de medalha do Brasil na modalidade em Tóquio-2020. Aos 19 anos, as duas se destacaram: a carioca Flávia recebeu a medalha de ouro no solo na Copa do Mundo de Aparelhos, na Alemanha, e na mesma categoria levou o Brasil ao quinto lugar no Mundial de Ginástica em Doha, no Catar. “O ano de 2018 foi um dos melhores que tive. O Mundial foi uma competição incrível para mim e para minha equipe. Ainda temos de nos classificar para a Olimpíada no Mundial de 2019, mas estamos treinando muito. Até lá vou fazer o meu melhor, o resultado será consequência”, contou Flavia.

Rebeca Andrade conquistou o ouro nas traves e prata nas barras na Copa do Mundo de Aparelhos, na Alemanha. “Foi um ano de retorno, sem muitas expectativas, mas com pontos muito importantes para a minha preparação para Tóquio. Competi no Mundial e na Copa do Mundo, ajudei minha equipe, me diverti bastante e cumpri com todas as minhas metas. Nosso desempenho em 2018 mostra que estamos no caminho certo. Fiz boas apresentações e sempre avançando um degrau a cada dia, sem pressa. A preparação para Tóquio está sendo melhor do que foi a preparação para a Rio-2016, porque me sinto mais madura e segura. Trabalhamos para ter uma equipe forte, mas o que quero nos Jogos é me sentir bem, desejo estar feliz, me divertir em Tóquio”, explicou Rebeca.

Flávia Saraiva  durante performance no Mundial de Ginástica em Doha, Qatar

Flávia Saraiva  durante performance no Mundial de Ginástica em Doha, Qatar (Vadim Ghirda/AP)

Henrique Avancini (ciclismo mountain bike)

Dá para imaginar um atleta de ciclismo mountain bike vencendo uma votação popular como o melhor esportista brasileiro do ano? Henrique Avancini conseguiu. O ciclista de Petrópolis faturou o Atleta da Torcida no Prêmio Brasil Olímpico, do COB, graças aos grandes resultados de 2018, que o transformaram em uma das grandes apostas do país para Tóquio-2020. “Acima dos títulos, meu principal objetivo era ser consistente”, contou o atleta.

Avancini conquistou feitos inéditos para o Brasil: venceu uma etapa da Copa do Mundo em Andorra; depois foi campeão mundial da maratona de mountain bike na Itália; e conquistou o 13º campeonato brasileiro. Terminou o ano no segundo lugar do ranking mundial e com credenciais para buscar uma medalha no Japão. “Ganhei muita experiência de competição e andei pela primeira vez no pelotão de elite. Agora é aumentar a experiência visando Tóquio-2020”.

Henrique Avancini durante competição em Trentino, Itália

Henrique Avancini durante competição em Trentino, Itália (Pierre Teyssot/Action Plus/Getty Images)

Hugo Calderano (tênis de mesa)

O atleta carioca fez história na Rio-2016, em que chegou às oitavas de final da prova individual e, aos 20 anos, igualou a melhor colocação do Brasil, conquistada pelo xará Hugo Hoyama em Atlanta-1996. E Calderano continua em ascensão: terminou 2018 na sexta colocação do ranking mundial, a melhor de um atleta das Américas. “Cheguei ao Rio na lista dos top 50 do mundo e agora estou entre os melhores. Quero evoluir meu jogo até Tóquio.”

O grande ano de Calderano foi coroado com a participação no World Tour Grand Finals, em dezembro, com os dezesseis melhores jogadores da temporada. Ele conquistou a medalha de bronze, com direito a vitória sobre o número 1 do mundo, o chinês Fan Zhendong, nas quartas de final. O grande objetivo é buscar um pódio inédito para o país em Tóquio. “Todo atleta sonha em chegar ao topo do ranking, mas isso não é o principal. Quero chegar à Olimpíada e aos Mundiais com chances de medalha.”

Hugo Calderano durante partida em Frankfurt, Alemanha

Hugo Calderano durante partida em Frankfurt, Alemanha (Andreas Arnold/picture alliance/Getty Images)

Kahena Kunze e Martine Grael (iatismo)

Dupla medalha de ouro na Rio-2016, elas voltaram a brilhar em 2018. Competindo novamente na classe 49er FX, já garantiram vaga para Tóquio-2020 com a quarta colocação no Mundial de Aarhus, na Dinamarca, em agosto. Um mês depois, no primeiro evento teste para a Olimpíada, em Enoshima, no Japão, a dupla foi campeã antecipada. “O ano deixou um sentimento de recomeço e de mais disputas. Apesar de poucas horas de barco, tivemos bons resultados”, disse Martine, filha do bicampeão olímpico Torben Grael.

A dupla esteve separada boa parte do ano: enquanto Martine viajava pelo mundo, Kahena ficou no Brasil para se formar em engenharia ambiental pela PUC-RJ. “Apesar do tempo que ficamos sem velejar juntas, estamos muito sincronizadas, parece que voltamos melhores. Todos os nossos objetivos do ano foram alcançados e estou bem feliz em voltar à rotina do barco”, disse Kahena. Apesar da vaga garantida para Tóquio, Martine prevê um 2019 agitado. “Será muito intenso. Temos uma agenda de treinos e competições bem apertada. Vamos começar a temporada nos EUA e depois vamos ao Japão, aos Jogos Pan-Americanos e ao Japão de novo, para mais um evento teste. Mas estamos bem animadas.”

Martine Grael e Kahena Kunze buscaram o bicampeonato em Tóquio-2020

Martine Grael e Kahena Kunze buscaram o bicampeonato em Tóquio-2020 (Clive Mason/Getty Images)

Nicholas Santos (natação)

O nadador de Ribeirão Preto chegou ao auge em 2018. Quebrou o recorde de piscina curta da prova dos 50 metros borboleta em outubro e conquistou o bicampeonato mundial da prova dois meses depois. Os números espantam, pois Nicholas Santos tem 38 anos e será um atleta quarentão em Tóquio-2020. A idade não afetou a carreira, porque soube reconhecer as mudanças do corpo e diminuiu a carga de treinamentos. “Acredito estar no melhor da minha forma física, sempre trabalhando os detalhes da prova e treinando menos que antigamente.”

Nicholas precisa mudar de prova para poder competir no Japão. A disputa dos 50 metros borboleta não é olímpica e ele teria de escolher entre os 50 metros livre ou os 100 borboleta para participar dos Jogos. A mudança não o preocupa e ele espera estar na equipe. E não só para participar. “Eu me arriscaria nos 50 livre. Se a evolução em dois anos for igual à dos meus 50 metros borboleta, tenho chances de medalha.”

Nicholas Santos, na final dos 50 metros borboleta em Budapeste, Hungria

Nicholas Santos, na final dos 50 metros borboleta em Budapeste, Hungria (Tamas Kovacs/MTI/AP)