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Opinião: quantas tragédias serão necessárias até que a Conmebol aprenda?

Memória curta da entidade ignora a catástrofe da final da Libertadores do ano passado ao manter Flamengo X River Plate no Chile

Por Alexandre Senechal - Atualizado em 31 out 2019, 13h43 - Publicado em 31 out 2019, 09h17

As palavras ‘Conmebol‘ e ‘segurança’ sempre soaram como antônimos. Apesar do caos social, econômico e político que o Chile passa nas últimas duas semanas, a entidade que organiza o futebol sul-americano não demonstra qualquer preocupação com a decisão de manter a final da Copa Libertadores da América no Estádio Nacional, em Santiago. No mesmo dia em que o presidente Sebastián Piñera cancelou os dois principais eventos que o país receberia em 2019, justificando a decisão pelo “sábio princípio de bom senso”, a nova ministra do Esporte Cecilia Pérez ignorou o ensinamento, ratificou a intenção de sediar a partida e afirmou esperar uma grande festa de Flamengo e River Plate no próximo dia 23. Diante de tal contradição, aConmebol simplesmente deu de ombros e agradeceu o compromisso do governo chileno de garantir as condições para a realização do jogo.

Claramente, os dirigentes sul-americanos não aprenderam coisa alguma com o histórico de confusões nas competições que organiza. A Libertadores sempre foi conhecida por ser uma competição na qual tudo é permitido. A tão exaltada garra dos jogadores era costumeiramente um eufemismo para a violência. Por muito tempo, as batalhas ficaram restritas ao campo de jogo – com excessos, claro, como na primeira vez em que o Flamengo decidiu a competição em 1981, contra o Cobreloa, no mesmo Estádio Nacional do Chile. Até meados dos anos 2000, era cena trivial ver policiais usando seus escudos para proteger jogadores visitantes em cobranças de escanteio.

Mas as cenas de horror acabaram transplantadas para fora do gramado. Em 2013, o boliviano Kevin Espada de 14 anos morreu após ser atingido por um sinalizador na partida entre San Jose, da Bolívia, e Corinthians. A entidade nunca conseguiu dar um desfecho decente para nenhum dos casos. Para cada uma das situações relatadas, a solução da Confederação é: obrigar os clubes a realizar jogos sem torcida. Já está mais do que provado que a medida é ineficaz. Os torcedores corintianos presos em Oruro, na Bolívia, acusados de participação na morte de Espada, se envolveram em um novas brigas de torcida. Um deles, inclusive, acabou morto.

A Liga dos Campeões, o grande modelo para a gestão do presidente da Conmebol Alejandro Domínguez, mostrou o caminho. A briga na final da competição europeia de 1985, no Estádio de Heysel, na Bélgica, que deixou 39 mortos e mais de 600 feridos, ocasionou mudanças drásticas no futebol de lá. Pelo comportamento dos hooligans do Liverpool, a equipe inglesa sofreu uma punição exemplar: foi suspensa do principal torneio continental por seis anos. Os outros times do país, que não tiveram participação no episódio, mas também registravam casos de violência, foram banidos da Liga dos Campeões por cinco anos. A punição exemplar foi um ponto de virada para o futebol do continente, exigindo novas regras de segurança e organização dos clubes, das federações e até dos governos. Pena que os sul-americanos só se preocuparam em copiar a malfadada final em partida única.

A Conmebol perdeu mais uma chance de ouro de mudar a história na decisão da Libertadores do ano passado, no confronto que era para ser o “jogo do século”: a final inédita entre os rivais argentinos Boca Juniors e River Plate. A já famosa recepção hostil ao adversário, habitual em jogos grandes na América do Sul, quase virou tragédia. Torcedores do River do lado de fora do Monumental de Nuñez apedrejaram o ônibus do Boca. O capitão Pablo Pérez e o meia Gonzalo Lamardo tiveram ferimentos nos olhos causados por estilhaços de vidro das janelas. Duas semanas depois, Pérez estava em campo – não se sabe em que condições – na decisão realizada em Madri.

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Manter o jogo no Chile é, no mínimo, um contrassenso. A Conmebol não aprendeu nada com os erros das últimas décadas? Nem com a final de 2018 ou com o exemplo europeu? E mais: que condições o governo chileno tem de garantir a segurança de qualquer um na capital sitiada? Se existe a garantia, porque não receber Trump e Putin para os eventos até então marcados para a capital chilena? Não seria mais fácil admitir os problemas e mudar a sede para facilitar a vida dos torcedores e clubes envolvidos? Não seria.

A entidade abriu mais um lote de ingressos na manhã desta quarta-feira, 30. Desta vez, 25.000 sócios de Flamengo e River Plate poderiam garantir suas entradas para assistir ao jogo. Em Santiago. Mudar a cidade-sede significa perder dinheiro, ter que ressarcir aqueles que já pagaram por ingressos, passagens e hospedagem na capital chilena. Além de correr o risco de uma final esvaziada pelo pouco tempo que resta até a partida, marcada para o próximo dia 23 – esta uma preocupação menor, é claro.

Perder a tradição ao mandar uma partida da grandeza de Boca e River para a Espanha, tudo bem. Perder dinheiro, jamais. Depois do horror visto no entorno do estádio Monumental de Nuñez em 2018, a entidade aproveitou para faturar com a tragédia. A cidade de Medellín, na Colômbia, quis sediar o jogo. No pior das hipóteses, a decisão teria sido disputada no continente. O dinheiro de um dos patrocinadores da Conmebol, uma companhia aérea do Catar, falou mais alto e levou a final para a Europa.

Em abril deste ano, o presidente da Conmebol fez um discurso ufanista sobre a sua administração ser a “rainha da transparência”. Ele disse que estava começando a “Conmebol dos recordes”. E estava certo. A cada ano a entidade consegue passar mais vergonha mundialmente. O pior de tudo: dar de ombros para os problemas e continuar afirmando que “no momento, o único plano é fazer o jogo em Santiago”, como disse a VEJA o diretor de competições de clubes Frederico Nantes nesta quarta-feira, surpreendendo um total de zero pessoas.

Depois não adianta reclamar que a gerações mais jovens preferem torcer para o Chelsea ou para o Barcelona. Em uma sociedade cada vez mais conectada, já não basta o fato de haver um time na cidade para garantir que sua comunidade apoie o clube local. Uma pesquisa do Ibope/Repucom de 2016 mostrou que 72% dos jovens que utilizam a internet torcem por um time europeu. A falta de cuidado da Conmebol com sua principal fonte de renda certamente não ajuda a formar mais torcedores do Flamengo, do River Plate, ou de qualquer outro time sul-americano. Quando será que vão realmente ajudar a fomentar o futebol sul-americano?

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