Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Opinião: futebol feminino pede respeito. Mas é preciso mais

O Corinthians fez campanha contra o preconceito no esporte. Mas atletas ainda sofrem com condições inadequadas de trabalho

Dia de jogo na Arena Corinthians. Não parecia. O metrô não estava nem perto de lotado. Poucas camisas do Corinthians nos trens da linha vermelha, com ponto final no estádio em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. No entorno da arena que recebeu a abertura da Copa do Mundo de 2014, poucos torcedores – a maioria meninas e mulheres em grupos. Em alguns pontos, o número de policiais era maior que o de pessoas indo ao jogo. Ao fim da partida, o sistema de som anunciou público: quase 4.000 pessoas, menos de 15% da média do time – masculino – em 2018. Os dados não estão errados. Esse foi o quadro do pontapé inicial para a campanha no Campeonato Brasileiro de futebol feminino – vitória corintiana por 4 a 1 sobre o São Francisco do Conde, da Bahia, no último dia 25.

Mas além do resultado, ocorreu outro fato de peso no estádio. As meninas que defendem o Corinthians neste ano, depois do fim da parceria com o Audax, foram as estrelas de uma ação contra o preconceito no futebol feminino. Depois de emplacar a campanha, no Dia Internacional da Mulher, #RespeitaAsMinas, em movimento conjunto com o projeto “Não é não”, que luta contra o assédio em espaços públicos, agora o mote é outra hashtag, a #CaleOPreconceito: as atletas entraram em campo com frases de cunho machista estampadas na camisa. No lugar no patrocinador máster, espaço nobre no centro da camisa, por exemplo, veio escrito “Mulher é na cozinha e não jogando futebol”. O objetivo é fazer com que empresas cubram essas frases com suas marcas e briguem com o machismo no esporte – e de quebra ajudem o time feminino a se tornar autossustentável.

Veja também

É preciso mais gente comprando essa briga. Poucos clubes, e acanhadamente, lançam campanhas. A CBF, que também organiza as competições nacionais femininas, não tem uma iniciativa exclusiva para tratar do preconceito e do machismo contra as mulheres. A entidade afirma que não existe nenhuma ação prevista para o Campeonato Brasileiro Feminino – mas fez duas campanhas contra qualquer tipo de preconceito.

Apesar de poucos se levantarem efetivamente contra a discriminação, o Regulamento de Licença dos Clubes de 2017 da CBF trouxe uma mudança que vai auxiliar no desenvolvimento da modalidade. Todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro masculino têm de montar seus times femininos ainda este ano. O São Francisco do Conde, por exemplo, utilizará o uniforme do Bahia a partir da segunda rodada do Brasileiro Feminino, por uma parceria feita entre os clubes – algo aceito pelo documento. Na Expedição Vozes do Futebol, viagem a dez cidades do Brasil que trouxe grandes histórias do esporte, dois times do Campeonato Goiano, o Clube Jaó e o Campineira, admitiram que tratavam de acordo com clubes da cidade, da Série B. Os times da segunda divisão têm até o ano que vem para montar o departamento feminino.

O jogo entre Corinthians e São Francisco do Conde e todas as outras sete partidas da primeira rodada da competição não foram televisionados – uma webtv, em parceria com a CBF, exibiu duas partidas: uma da primeira e uma da segunda divisão, apenas com som ambiente, sem narração, sem comentários e sem reportagem de campo. O Corinthians mostrou seu jogo pelo canal no YouTube do clube, com equipe de transmissão e a ex-jogadora da seleção brasileira Milene Domingues nos comentários. O SporTV, canal esportivo da Globo, vai transmitir os confrontos da segunda fase do Brasileiro Feminino.

A seleção brasileira foi heptacampeã recentemente da Copa América, garantiu a primeira vaga do Brasil na Olimpíada de Tóquio 2020 e carimbou o passaporte para a Copa do Mundo na França no ano que vem. Tudo isso com Marta, Cristiane e Formiga, essa última aos 40 anos, fazendo parte do time. Além da CBF, que exibiu os últimos três jogos pelas suas redes sociais, nenhum canal transmitiu.

As ações pelo esporte e contra o preconceito trazem à discussão questões que devem ser amplamente combatidas. Mas não são as únicas. A Expedição Vozes do Futebol mostrou iniciativas fantásticas com apenas o mínimo das condições necessárias. Em Fortaleza, no Ceará, Francisco Chagas toca o projeto social  Associação Menina Olímpica há doze anos e acabou de conseguir uma parceria com o Ceará e terá condições adequadas para trabalhar, com remuneração para comissão técnica e atletas. Claudir Oliveira, zagueiro campeão brasileiro pelo Bahia em 1988, fundou o Juventude Esportiva em Vitória da Conquista, equipe que disputa o campeonato baiano feminino e mantém as portas abertas com alguns patrocínios pontuais, mas ainda não consegue remunerar suas atletas.

O futebol feminino precisa de espaço adequado para treinar, uniformes do tamanho certo – não sobras do material do time masculino – e salários para que possam se dedicar à vida de atleta de alto rendimento. A reivindicação não é receber cifras como do futebol masculino – a luta é pelo básico: profissionalismo e respeito.

Frase da campanha corintiana  contra o preconceito no futebol feminino (Alexandre Senechal/VEJA)