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Operário fura bloqueio para abraçar Ronaldo, em evento sobre segurança no trabalho

Trabalhadores param para ver os ídolos do esporte, mas são bombardeados por discursos de políticos sob o sol de verão no Rio de Janeiro

Por Leo Pinheiro, do Rio de Janeiro - 2 mar 2012, 17h20

O lançamento da segunda etapa do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho, organizado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), não foi exatamente o que se pode chamar de bem sucedido. Programado para começar às 10 horas desta sexta-feira, em um palco em frente à estátua de Bellini, no Maracanã, o evento começou com 40 minutos de atraso. Para piorar, o convidado de honra, o ex-jogador e presidente do Comitê Organizador Local da Copa de 2014, Ronaldo Fenômeno, chegou somente dez minutos mais tarde, fazendo o cerimonialista interromper a execução do hino nacional para sua subida ao palco.

O festival de gafes continuou quando um trabalhador das obras do Maracanã driblou a segurança, realizada por dezenas de policiais federais, e invadiu a área restrita a autoridades para dar um abraço em Ronaldo. O operário Lourival dos Santos, de 36 anos, pulou a grade que separava o público do palco e, aos prantos, agarrou Ronaldo. O ex-craque correspondeu e pediu aos seguranças que não expulsassem o trabalhador.

“O sonho da minha vida se realizou hoje. Eu vim de Tucuruí, no Pará, para conhecer o Ronaldo. Ele é o meu maior ídolo. Falei para ele que um dia o meu filho de 13 anos, que também é jogador de futebol, vai jogar no estádio que o pai dele ajudou a construir. E um dia vai ganhar uma Copa do Mundo também”, disse Lourival, emocionado. O operário também afirmou não se importar com possíveis punições pela invasão: “Posso até levar justa causa. Não me importa, eu dei um abraço no Fenômeno e não vou me esquecer disso pelo resto da minha vida. Tenho certeza também que ele vai me proteger e não deixar me demitirem”, completou.

O que sobrou do evento foi uma coleção interminável de discursos de políticos – para operários que só queriam um pouco de diversão e ver de perto ídolos como Ronaldo, o tetracampeão Bebeto e o medalhista olímpico no iatismo Lars Grael. Dezenas de autoridades falaram ao público de trabalhadores, que demonstravam sinais de fadiga com o calor de 44 graus que os termômetros da região registravam.

Sucintos, os três homenageados demonstraram maior consideração com o público e fizeram discursos menores. Grael exaltou que o Rio receberá nos próximos anos os eventos mais importantes do planeta – a final da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 – e disse que “o Brasil precisa cair posições no ranking mundial de acidentes de trabalho”, pois hoje ocupa o quarto lugar em números de acidentes com trabalhadores em todo o mundo.

Orientados pela organização do evento, os jogadores evitaram assuntos polêmicos. Ronaldo e Bebeto se limitaram a falar sobre a prevenção de acidentes de trabalho e o uso do equipamento de proteção individual (EPI). “Eu vou falar aqui do equipamento de segurança da minha profissão. Quando eu comecei a jogar futebol, ficava uma semana parado de canela inchada, porque a gente não era obrigado a usar caneleira. Muitos não usavam e sofriam. Depois que foi obrigado a usar caneleira, que é nosso equipamento de segurança, aquelas pancadas na canela já não eram mais problemas. Por isso eu peço a vocês que usem seus equipamentos de segurança. Tem muita gente aqui cuidando de vocês, mas vocês precisam se cuidar também”.

Na mesma toada, Bebeto se lembrou de quando começou a carreira no futebol profissional e foi advertido por seu ídolo, Zico, para ter cuidado com seu “instrumento de trabalho”. “Uma vez eu entrei em campo para treinar sem caneleira e o Zico me mandou voltar para o vestiário para colocá-las. Sai correndo e coloquei na mesma hora. Era um conselho do Zico, eu não podia deixar de seguir”, lembrou.

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