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Olimpíada de Inverno: bobsled do Brasil mira elite da modalidade

A equipe brasileira nos Jogos de PyeongChang, na Coreia, fez preparação focada para buscar resultado inédito

A primeira imagem que vem à mente ao saber que há uma equipe brasileira de bobsled, uma das modalidades que integram o programa esportivo da Olimpíada de Inverno, é a do filme Jamaica Abaixo de Zero, de 1993, estrelado pelo falecido ator John Candy, baseado na história da inusitada participação de uma equipe da Jamaica (país ensolarado) na prova dos Jogos de Calgary (Canadá), em 1988, em que o trenó desce uma escavação no gelo. Trinta anos depois, cinco brasileiros tentarão mostrar em PyeongChang, na Coreia do Sul, na próxima Olimpíada, que a participação do país está longe de ser uma aventura.

“Neste ciclo olímpico, nosso objetivo foi mostrar que podemos fazer o esporte em alto rendimento. Colocamos a nossos atletas nossas reais possibilidades, mostrando que não se trata de uma aventura, mas que, com desenvolvimento físico e técnico. poderemos colocar o bobsled do Brasil entre os 15 melhores times do mundo”, afirma Matheus Figueiredo, presidente da CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo).

Se o objetivo do dirigente for alcançado, significará um feito histórico, pois a melhor colocação da equipe nacional foi  terminar em 27º lugar entre 33 participantes, em sua primeira participação na modalidade, nos Jogos de Salt Lake City-2002. Quatro anos depois, em Turim-2006, a equipe foi a última colocada nos Jogos.

A modalidade

Comum nos países nórdicos, os trenós passaram a ser adaptados para as competições a partir de 1870, em St. Moritz (Suíça), quando um grupo de ingleses adaptou os trenós de entregas e começou a descer colinas e morros. A brincadeira foi proibida por causa de vários acidentes. No final da década de 1870, Caspar Badrutt, dono de um dos maiores hotéis da cidade, construiu a primeira pista “half-pipe” do mundo. A partir de 1884, começaram as competições regulares em estradas.

O bobsled participa do programa esportivo da Olimpíada de Inverno desde a primeira edição, em Chamonix-1924, na França. O trenó para quatro pessoas (4-man) foi disputado nesta edição, enquanto a modalidade para duas pessoas (2-man) foi introduzida nos Jogos de Lake Placid-1932 (Estados Unidos). O bobsled feminino entrou na Olimpíada somente em Salt Lake-2002.

Os trenós podem chegar a 150 km/h e atingem uma força de até 5G’s. Cada um pode custar até R$ 100 mil, segundo informa o site oficial da CBDG. O regulamento exige que o peso máximo do trenó, somando o do veículo e dos atletas, pode ser de no máximo 630 kg (para as provas de quatro homens), 390 kg (dois homens) e 340 kg (duas mulheres).

A preparação

Pista de push, para treinamento de largada

Pista de push, para treinamento de largada (Daniel Zappe/MPIX/CBDG/.)

Para buscar o sonho de ser mais do que um figurante na Coreia do Sul, a equipe brasileira de bobsled investiu cerca de R$ 900.000, apenas no último ano, para melhorar a preparação dos cinco atletas – quatro titulares, no masculino, mais um reserva. Para aproveitar melhor o dinheiro, firmaram parcerias com o NAR-SP (Núcleo de Alto Rendimento), na Zona Sul de São Paulo, onde também firmaram uma parceria no trabalho de nutrição e hidratação dos atletas com a Gatorade, além de uma outra parceria e com a equipe dos Estados Unidos, que treina em Lake Placid.

Na pré e pós-temporada, no Brasil, são feitos trabalhos de força, potência, hidratação, controle nutricional, ganho de massa magra, etc, além do treino de push (largada), em uma pista especialmente construída para isso (vídeo em 360 graus abaixo).

Durante a temporada de competições, a equipe vai para os Estados Unidos e tenta colocar tudo isso na prática. “Treinamos velocidade, força, potência e técnica. Assim, o atleta chega ao local de competição pronto, sabendo o que tem de fazer, mesmo não conhecendo a descida”, conta Edson Bindilatti, de 38 anos, piloto dos trenós brasileiros. Ele está na equipe desde a primeira participação, nos Jogos de 2002.

Treino de largada, em 360 graus (Captação de imagens: Heitor Feitosa, com Samsung Gear 360)

Os atletas

Duas coincidências  ligam os cinco integrantes da seleção brasileira de bobsled: todos vieram do atletismo e só conheceram a modalidade por causa do filme Jamaica Abaixo de Zero, e confessam que sentiram receio com as imagens do esporte que iriam abraçar.

“Depois de quatro seletivas no Brasil, fiz minha primeira viagem internacional para competir pelo bobsled. No voo estava passando o filme, e senti o que me esperava”, brinca Edson Martins, de 28 anos, na equipe desde 2013, e que vai disputar sua segunda Olimpíada de Inverno. Antes, disputava o decatlo, série de dez provas no atletismo, .

Outro dois integrantes do time brasileiro também são oriundos do decatlo. “O ex-presidente da CBDG [Eric Maleson] era piloto e queria montar uma equipe para a Olimpíada de Salt Lake. Eu tinha sido campeão brasileiro de decatlo entre 1997 e 2004”, relembra Edson Bindilatti,  de 38 anos, que para conhecer o esporte também recorreu ao filme.  “Durante a minha primeira descida, eu me perguntava o que estava fazendo ali, mas após cruzar a linha vi que tinha descoberto uma nova paixão”, diz o piloto, que vai para sua quarta Olimpíada.

A seleção fez o último treino em São Paulo antes de embarcar para a Coreia do Sul

A seleção fez o último treino em São Paulo antes de embarcar para a Coreia do Sul (Daniel Zappe/MPIX/CBDG/.)

Os outros três integrantes também têm origens no atletismo. Odirlei Pessoni, de 35 anos, também era decatleta e tinha ainda uma passagem como lateral-direito dos juniores da Francana, equipe de Franca, interior de São Paulo. Ele disputará sua segunda Olimpíada, após a experiência em Sochi-2014. O caçula do time, o carioca Rafael Souza, de 21 anos, é o “breakman” do trenó de quatro pessoas.

“No atletismo, era especialista em 100 e 200 metros. Um técnico me disse que com a minha velocidade, especialmente nos primeiros 50 ou 60 metros, eu poderia me dar bem neste esporte. Não pensei duas vezes”. O reserva da equipe, Erick Vianna, de 25 anos, natural de Araraquara (SP), se destacou no atletismo competindo nos 110 metros com barreira. Ambos farão em PyeongChang sua estreia em Olimpíadas.

O calendário

No dia 18 de fevereiro, estão previstas as duas primeiras descidas do trenó de duas pessoas masculino, com Edson Bindilatti e Edson Martins, na Coreia. No dia 19, ocorrerão as duas últimas descidas, incluindo a disputa por medalhas. No dia 24, as duas primeiras descidas do trenós de quatro pessoas masculino e as descidas finais, com a disputa de medalhas, serão no dia 25 de fevereiro, data de encerramento da Olimpíada.

Comentários

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  1. Gerson W. Barbosa

    Bobsled, not bobslead.

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