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O voo de Gabriel Medina, o jovem ídolo do surfe brasileiro

Com uma legião de fãs, patrocinadores importantes e um incrível talento, o paulista de 19 anos é uma espécie de Neymar do surfe. Mas com uma grande diferença: ele já ganhou do Pelé de sua modalidade, o lendário Kelly Slater

“Parabéns, Gabriel. Só vou ter de lidar com você por um curto período. Sinto pena dos garotos da sua idade.” Com essa mensagem via Twitter, o veterano Kelly Slater, campeão mundial em nada menos que onze temporadas, parabenizou Medina depois de ser derrotado pelo novato

Bastam poucos minutos na água, numa praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para um batalhão de fãs se reunir na areia. Os mais velhos tentam descobrir quem é a celebridade que atraiu tanta gente, mas os mais jovens sabem bem quem ele é – e não escondem a emoção de ver o ídolo de perto. Não se trata de boleiro famoso, ator global ou cantor de sucesso. A maioria está ali para ver Gabriel Medina, de 19 anos, descendo em alta velocidade pelas ondas na Praia do Pepê. A idade é pouca para quem carrega a responsabilidade de representar o Brasil ao redor do mundo, mas o atleta paulista já é um fenômeno do esporte. Com cada vez mais fãs, patrocinadores de peso e muito talento, Medina é uma espécie de Neymar do surfe, mas com uma diferença essencial: ele já está consolidado no primeiro escalão de sua modalidade. Em apenas dois anos como surfista do World Championship Tour (WCT), o circuito de elite do surfe internacional, o brasileiro já coleciona vitórias significativas e elogios de ídolos como o já lendário Kelly Slater, o melhor de todos os tempos, com quem Gabriel Medina é constantemente comparado. De temperamento calmo, fala tranquila e uma ponta de timidez, não tem qualquer sintoma de estrelismo. Como qualquer garoto que realiza o sonho de fazer carreira com sua atividade preferida, o surfista parece ainda não compreender sua importância para a modalidade no Brasil e o tamanho das expectativas que o cercam no exterior. Ele já é um dos grandes nomes do surfe no mundo, mas mantém sua rotina nada extravagante, saindo para jantar com os amigos e passando horas e horas no mar.

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Gabriel Medina nasceu na capital paulista, mas cresceu na casa da família em Maresias, no Litoral Norte do estado, onde mora até hoje, com seus pais e os irmãos mais novos, Felipe e Sophia. “Biel”, como é chamado pelos familiares, foi criado pela mãe, Simone, que o incentivou a surfar desde que ele era pequeno. O primeiro a achar que o garoto poderia transformar o hobby em profissão foi Charles, seu padrasto. “Quando ele tinha uns 10 anos a gente já percebia que ele seria um surfista diferenciado. O Gabriel ainda nem arriscava as manobras mais difíceis, mas já era possível notar que ele descia as ondas de uma maneira especial”, conta Charles, a quem Gabriel chama de pai. O padrasto é também seu treinador. Ele costuma filmar quase todos os treinos para depois assistir às imagens com Gabriel, analisar cada detalhe das manobras e tentar corrigir todos os erros. Em uma dessas filmagens, ele captou um dos momentos mais importantes do jovem surfista. No fim de 2012, Gabriel Medina conseguiu executar um blackflip, um giro completo no ar, enquanto surfava no Havaí. Ele foi o segundo surfista do mundo a conseguir completar a manobra, que ainda não foi executada em nenhuma competição. Seu próximo torneio importante, aliás, é no Brasil: o Billabong Rio Pro começa no próximo sábado, com Medina numa lista de competidores que inclui Slater, o atual campeão mundial Joel Parkinson, o sul-africano Jordy Smith e outros seis brasileiros, incluindo Adriano de Souza, o “Mineirinho”, que aos 26 anos já é um nome estabelecido no circuito – em março, ganhou a etapa de Bells Beach, na Austrália, uma das mais importantes de todo o calendário do surfe.

Disciplina e brincadeira – Por causa das longas viagens e numerosos compromissos exigidos de um integrante da primeira divisão do surfe, a agenda de Gabriel Medina está completamente lotada. Além dos trabalhos ligados aos patrocinadores (ele conta com o apoio financeiro de grandes marcas, como Rip Curl, Oakley, Guaraná Antártica e IMX), o atleta não consegue ficar longe do mar. A palavra disciplina não costuma ser associada à modalidade, mas Medina leva os treinos a sério. A rotina de treinos na água pode parecer um sonho para quem trabalha horas a fio enfurnado num escritório, mas o trabalho é duro – e Gabriel Medina leva o esporte a sério. Ele acorda cedo – muitas vezes, antes do sol nascer – e vai direto para uma academia, onde faz um treino funcional e inicia o aquecimento para cair na água. Cerca de uma hora depois, o paulista já está dando as primeiras braçadas. Em um dia normal de treino, ele surfa duas ou três vezes, cerca de uma hora em cada período. Mesmo com o mar lotado, Gabriel Medina é reconhecido e respeitado pelos outros surfistas e, por isso, tem preferência nas melhores ondas. Quando está de férias, em um sábado normal, nada de dormir até tarde: ele faz questão de ir para o mar e surfar, às vezes acompanhado da mãe. Em uma dessas ocasiões, no mês passado, as ondas não ajudaram. Medina decidiu estrear o jet-ski novinho que ganhou de um dos patrocinadores. Por causa da rotina corrida, ainda não tinha encontrado tempo para experimentar o brinquedo novo.

A transformação de surfista amador em jovem promessa do circuito profissional começou cedo. Gabriel Medina começou a vencer campeonatos menores ainda na adolescência. O hobby virou coisa séria aos 15 anos, quando ele se tornou o surfista mais jovem a vencer uma etapa do circuito mundial de acesso, o WQS, uma espécie de segunda divisão mundial da modalidade. Alguns meses depois, foi campeão juvenil com duas notas dez na final, na França. Com outros títulos que conquistou no fim de 2011, Gabriel Medina entrou para o seleto grupo dos 34 melhores surfistas do mundo, o WCT, e passou a competir ao lado de alguns dos seus ídolos, como Kelly Slater e Adriano Mineirinho. “Parabéns, Gabriel. Grande desempenho. Só vou ter de lidar com você por um curto período. Sinto pena dos garotos da sua idade.” Com essa mensagem via Twitter, o veterano Slater, campeão mundial em nada menos que onze temporadas, parabenizou Medina depois de ser derrotado pelo novato numa bateria do circuito. O brasileiro, que poucos anos antes nem sequer sonhava em cair na água ao lado do mito americano, diz não ser capaz de explicar direito qual é a sensação de estar no mar ao mesmo tempo que Slater. “Nem sei o que passa na minha cabeça”, diverte-se. Neste ano, com duas das dez etapas de 2013 já realizadas, Gabriel Medina ocupa uma posição ainda modesta, a 23ª colocação no campeonato. Nada modesto é o valor que já acumulou em prêmios: de acordo com a Associação dos Surfistas Profissionais (ASP), ele já faturou quase 1,3 milhão de reais só nos torneios, sem contar os patrocínios e outras bonificações.

100.000 seguidores – Quando não está surfando, Gabriel Medina não larga seu principal companheiro nas viagens: um iPhone 5 branco. Durante uma conversa com a reportagem do site de VEJA em sua casa em Maresias, o smartphone não saiu da mão do surfista. É nas redes sociais que Medina surfa na maioria do tempo em que está de folga. É viciado em postar suas fotos no Intagram, onde tem mais de 100.000 seguidores. Antes de ser entrevistado, o atleta publicou uma foto sua ao lado de um dos seus troféus preferidos. Vinte minutos depois, a singela imagem já tinha 3.000 “curtidas” no Instagram. “Biel, larga esse celular”, cobra a mãe, que confirma que o filho passa horas intermináveis entretido com o aparelho e desligado do mundo. Mas Gabriel não dá ouvidos e troca o Instagram pelo Twitter, onde acumula quase 50.000 seguidores. A força do surfista nas redes sociais ficou comprovada nos X-Games deste ano, em Foz do Iguaçu. Como não havia condições para realizar uma disputa ao vivo, os organizadores da Olimpíada de esportes radicais criada pela rede americana ESPN promoveram uma votação on-line com vídeos de vários surfistas. O brasileiro superou Kelly Slater na semifinal, passou pelo sul-africano Jordy Smith na final e acabou sendo eleito o campeão. Na votação dos jurados especializados, Smith – que não conta com o mesmo exército de fãs na internet – ficou com o título.

Apontado como fenômeno do surfe desde os 17 anos, Gabriel Medina é um dos atletas mais assediados do circuito mundial – e mesmo quando está distante da briga pelo título de um campeonato. Quem o acompanha de perto na estrada sabe que ele conta com as atenções de enorme fã-clube feminino, que deu origem até a um novo apelido: nos torneios de surfe, as tietes do brasileiro são conhecidas como “medinetes”. O surfista ainda não se acostumou totalmente à rotina de ser abordado pelas garotas, de forma implacável, a cada vez que sai da água. O assédio ficou claro em um dos seus treinos recentes no Rio de Janeiro. Duas jovens fãs se aproximaram para perguntar se o surfista que atraía tanta atenção era mesmo Medina. Quando ouviram que sim, comemoraram com pulos e gritos o fato de o ídolo estar na mesma praia que elas. Ainda na areia, um grupo de adolescentes conversava com o padrasto do atleta, Charles. O assunto? Gabriel Medina, é claro. Apesar da pouca idade, os garotos conversavam com desenvoltura digna de especialistas em surfe. “Como são as ondas em Fiji? Kelly Slater é gente fina? Como são os treinos do Gabriel?” Charles até reconheceu um deles, que garantiu sempre frequentar as sessões de autógrafos de Gabriel Medina. “Eu tenho várias fotos com ele e até com você”, disse o menino ao padrasto do atleta. “Eu ia surfar hoje, mas não consegui me concentrar quando soube que ele estava na água. Decidi ficar só olhando de longe aqui na areia.”

‘Quando surfo com o Kelly, me sinto o melhor do mundo’

Como você começou a surfar? Comecei quando tinha uns sete anos. Foi meu pai que me deu a primeira prancha. Um amigo, o Cauê, me levou para surfar. Eu não parei mais. Comecei a competir entre os 12 e 13 anos, participando de campeonatos paulistas e brasileiros.

Não tinha vontade de ser jogador de futebol? Eu jogava bola quando era pequeno, mas me apaixonei mesmo pelo surfe. Ainda jogo futebol, mas só para brincar. Gosto de acompanhar o esporte, sou torcedor do Corinthians e até conheço alguns jogadores. Fiz muita festa quando o Corinthians ganhou o Mundial de Clubes da Fifa, em 2012. Saí de carro fazendo festa pela rua e tudo…

Como é sua relação com o Kelly Slater? Estava muito nervoso na primeira vez em que competi com ele, na França. Nervoso não, o termo certo é ‘curioso’. Mas não senti a pressão. Quando eu surfo com o Kelly, me sinto o melhor surfista do mundo. Não tem como explicar. Talvez é por saber que estou competindo com o melhor. Mas não sei o que se passa na minha cabeça.

Qual sua rotina de treinos? Acordo cedo, tento me alimentar bem, faço um treino funcional e surfo entre duas e três vezes por dia. O surfe é um esporte em que não precisa ser forte, é mais prática e elasticidade do corpo. Quanto mais tempo eu passar na água, mais vou melhorar meu desempenho. O calendário do torneio é bom, mas cansativo. É muito legal acordar nos paraísos, mas as viagens começam a cansar no meio do ano.

Rip Curl Pro Portugal

Quiksilver Pro França

X-Games 2013

Quiksilver Pro França

Sessão na Califórnia

Backflip