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O sucesso fora de campo

<p>Projeto de clube-empresa não é a solução para todos, mas certamente vai ajudar uma série de clubes pelo Brasil</p>

Por Thiago Scuro* Atualizado em 11 jan 2022, 16h59 - Publicado em 22 nov 2019, 06h00

Se o futebol brasileiro é admirado no mundo todo, é fato que isso se deve em grande parte ao talento de seus atletas e às conquistas internacionais da nossa seleção. Mesmo se ignorássemos os casos comprovados de corrupção, do ponto de vista gerencial, o esporte está longe de aproveitar todo o seu potencial, especialmente no que diz respeito ao mercado interno. A relação entre receitas e despesas dos clubes pede profissionalismo, para evitar um balanço deficitário. A imensa maioria das agremiações tem uma dívida de difícil administração. É urgente, portanto, desenvolver novas formas de gerir o futebol.

Há mais de quinze anos trabalho com o conceito de clube-­empresa: passei por quase todos os cargos de gestão do Audax, que era do Grupo Pão de Açúcar, e o Red Bull Brasil, com um breve intervalo no Cruzeiro, antes de assumir o projeto da companhia austríaca Red Bull dentro do Bragantino, o campeão da edição 2019 da Série B do Campeonato Brasileiro. O conhecido time de Bragança Paulista (SP), campeão estadual com Vanderlei Luxemburgo em 1990 e vice-campeão nacional com Carlos Alberto Parreira no ano seguinte, voltará à elite do futebol nacional depois de duas décadas. O plano da empresa é consolidar o time na primeira divisão e, em alguns anos, sonhar em disputar competições internacionais, exatamente como já ocorre com os braços esportivos da Red Bull em Leipzig (o terceiro colocado do último Campeonato Alemão) e Salzburg (o atual hexacampeão austríaco). A partir de 2020, o clube paulista mudará seu escudo e passará a se chamar Red Bull Bragantino. O acesso à Série A foi só o início de um projeto muito bem estruturado.

Tramita em Brasília um novo projeto de enquadramento jurídico para os clubes de futebol, encampado inclusive pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. As propostas são benéficas e, vale ressaltar, não são impositivas. Ou seja, nenhum clube será obrigado a se tornar uma sociedade anônima ou limitada se não quiser. Clubes que hoje faturam 600 milhões de reais anuais talvez não tenham necessidade nem ambiente político favorável para deixar de ser uma associação (na teoria) sem fins lucrativos. Mas, para uma série de agremiações de médio porte, pode ser a única saída para a sobrevivência. O que a lei se dispõe a fazer é criar um ambiente de segurança jurídica, de geração de empregos e de recolhimento de impostos para quem quiser investir. Do jeito que está hoje, o entrave para clubes como o Red Bull Bragantino é a carga tributária, que gera uma desvantagem competitiva em relação às associações tradicionais. Se houver equiparação fiscal, até como instrumento de incentivo, só vejo vantagens em trabalhar como empresa, pois a condução é mais técnica e menos política.

No entanto, independentemente do modelo de gestão, o fundamental é haver mentalidade profissional. Clubes como Flamengo, Palmeiras, Bahia e Grêmio já se comportam de forma empresarial em vários departamentos. Assim como há casos como o do Figueirense, que virou uma S/A, mas acabou não tendo o mesmo êxito. Os problemas de gestão no futebol não são exclusividade nossa. Há clubes europeus, entre eles gigantes como o Milan, da Itália, que atraíram investidores chineses que pouco conheciam a liga local. Não deu certo. No final das contas, dinheiro não é tudo. O que define o sucesso ou o fracasso de um modelo é e sempre será a competência dos profissionais envolvidos.

“O que define o sucesso (ou o fracasso) de um modelo é a competência dos profissionais envolvidos”

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Romper com a cultura do atraso no futebol brasileiro é uma batalha árdua que passa por dois aspectos: regulamentação e amadurecimento. Se fosse proibido a um treinador trabalhar em duas equipes da mesma divisão, provavelmente não teríamos metade das demissões. Na Série B, chegamos a enfrentar um mesmo técnico em três clubes. É um desperdício de tempo e de dinheiro. Outro aspecto, bem mais profundo, é que alguns gestores agem como torcedores, com base na emoção, na pressão externa. É um processo dirigido de fora para dentro. Assim como em outros negócios, os grandes líderes precisam ter a capacidade de contratar bons profissionais e deixá-­los trabalhar. Um problema do futebol é justamente a percepção de que todos sabem tudo de bola. Esse tipo de visão de alguns cartolas impede que profissionais realmente capacitados possam desempenhar suas funções.

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O futebol é um esporte caro, e a dificuldade de captar recursos leva muitos clubes a poluir seu uniforme com patrocinadores pontuais nas mangas da camisa, no calção e até nos meiões. Não é esse o modelo em que acreditamos, e inclusive já recusamos ofertas desse gênero. O que pretendemos no futuro é criar uma área de relação com as empresas, seguindo os bons exemplos internacionais. Outra noção errada que ganhou eco nos últimos anos foi a “vilanização” da receita oriunda dos direitos de transmissão das partidas. O ideal é que não haja dependência, que os recursos sejam obtidos de forma equilibrada entre três fontes de receita: o que chamamos de matchday (a bilheteria, o programa de sócio-torcedor e as ações no estádio), o patrocínio e as cotas de TV. No entanto, os clubes precisam ter consciência de seu valor de mercado e ser firmes nas negociações. O esporte talvez seja o único conteúdo em que o “ao vivo” se faz necessário; outros produtos, como novelas ou séries, podem ser consumidos sob demanda, em qualquer hora ou lugar.

Acredito na ciência como um caminho para melhorar o desempenho. Nos próximos anos, o Red Bull Bragantino investirá em equipamentos e conhecimento para nos aproximarmos das potências da Série A. No nosso trabalho não existe “jogador do presidente” ou “homem de confiança do técnico”. As decisões são compartilhadas, fruto do trabalho de diversos profissionais que assistem aos jogos, buscam estatísticas e até informações sobre o comportamento pessoal do atleta, com base em entrevistas e redes sociais. Independentemente da idade, queremos atletas que atendam às nossas necessidades e sejam homens interessados e trabalhadores.

Nossa receita reuniu os seguintes ingredientes: um time competitivo, uma boa casa para receber os torcedores, uma relação intensa com a comunidade e transparência e profissionalismo em todas as etapas do processo. Há quem credite o acesso do Bragantino apenas ao investimento da parceira, como se não houvesse o trabalho competente de dezenas de profissionais por trás dos resultados. Em certa medida, o Flamengo passa por uma situação semelhante atualmente. Ali há trabalho sério, contas em dia, competência, um bom treinador que montou uma equipe com padrão e dominante sobre os adversários. O brasileiro precisa aprender a admirar o trabalho benfeito. O Flamengo se empenha há pelo menos seis anos para chegar a esse estágio. Seguimos esse caminho, e tomara que todos façam o mesmo. Com uma ressalva: eventuais derrotas não podem pôr tudo a perder.

* Thiago Scuro é diretor esportivo do Bragantino

 

Publicado em VEJA de 27 de novembro de 2019, edição nº 2662

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