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O recorde do queniano Eliud Kipchoge: ‘Com os pés na Lua’

Pela primeira vez um ser humano terminou uma maratona abaixo das duas horas — um feito espantoso

Por Fábio Altman - Atualizado em 27 dez 2019, 14h55 - Publicado em 27 dez 2019, 06h00

Uma data e um tempo marcado no cronômetro ganharam o carimbo da eternidade em 2019. Em 12 de outubro, nas alamedas de um parque de Viena, o queniano Eliud Kipchoge, de 34 anos, completou os 42 quilômetros da maratona em 1h59m40s. Pela primeira vez um ser humano terminou a prova abaixo das duas horas — um feito espantoso, inalcançável, até surgirem um fenômeno como Kipchoge, o Pelé da modalidade, e um conjunto de condições que o levaram ao momento glorioso. Para cruzar a linha de chegada em menos de 120 minutos, ele precisava manter o ritmo, correr cada quilômetro a exatos 2m50s. Tudo foi desenhado para o desfecho vitorioso. Ao seu redor seguiram 41 “coelhos” — os coelhos são os atletas designados para determinar a toada, servindo de guias. De tempo em tempo, um pelotão de coelhos era substituído por outro. Eles formavam um bolsão protetor, cinco à frente, na forma de um “V” invertido, e dois às costas do fundista. Um carro iluminava o trajeto com um raio laser, determinando as posições. A temperatura era de 9 graus. A pista, plana. A ideia era afastar de Kipchoge qualquer esforço desnecessário. No trecho final, como parecia evidente que o objetivo seria alcançado, os acompanhantes abriram alas e o queniano, como um rei, despontou sozinho, mãos erguidas, a caminho da consagração e do abraço da mulher. Dado o ambiente desenhado naquele sábado austríaco — que incluía tênis montados em cima de uma placa de fibra de carbono, a qual, supostamente, melhoraria o desempenho em 2% —, a Federação Internacional de Atletismo não homologou o recorde mundial, que é do próprio Kipchoge, de 2h01m39, estabelecido em Berlim, há um ano. Pouco importa a correta decisão dos cartolas. Aquele momento, mais que estabelecer um novo tempo nos ponteiros, foi o da celebração de uma possibilidade humana, como a dos pequenos e simultaneamente infinitos passos de Neil Armstrong. Não por acaso, o próprio campeão tratou de comparar seu êxito à conquista lunar: “Correr em Berlim é para vencer e bater um recorde mundial. Viena é como ir à Lua”.

Publicado em VEJA de 1º de janeiro de 2020, edição nº 2667

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