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O que faz do Liverpool o melhor time do planeta

<p>O sucesso do virtual campeão da liga mais competitiva do mundo é a clara evidência de que a força coletiva pode muitas vezes superar o brilho individual</p>

Por Alexandre Salvador Atualizado em 11 jan 2022, 16h55 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00

Nunca na história do Campeonato Inglês, a Premier League, um time deu uma arrancada inicial tão impressionante quanto o Liverpool comandado pelo alemão Jürgen Klopp: até a quinta-feira 30, a equipe havia disputado 24 partidas na liga nacional, com 23 vitórias e apenas um empate — o Manchester City, o segundo colocado, está a 19 pontos de distância. Se considerada a temporada passada, a invencibilidade do Liverpool chega a 41 jogos. Somam-se ao desempenho avassalador em solo inglês o título da última Liga dos Campeões da Europa, que reúne a nata do futebol do continente, e o título inédito do Mundial de Clubes — os ingleses já haviam chegado a três finais e nunca tinham levantado a taça —, contra o Flamengo, em dezembro de 2019. Embora os rubros-­negros gostem de se vangloriar (sem ironia) de ter enfrentado “de igual para igual” o atual campeão europeu, é bem provável que, caso o confronto fosse repetido outras dez vezes, a equipe de Jorge Jesus perdesse para o Liverpool em pelo menos nove oportunidades. Afinal, trata-se do clube mais dominante do momento.

Jogam no Liverpool hoje o melhor goleiro do mundo (o brasileiro Alisson), o melhor zagueiro (o holandês Van Dijk) e o trio de ataque mais infernal, formado pelo brasileiro Roberto Firmino e pelos africanos Mohamed Salah e Sadio Mané, esses dois últimos eleitos os melhores jogadores de seu continente. Contudo, não seria exagero dizer que o Liverpool chegou às alturas em virtude de Klopp, contratado em outubro de 2015 depois de ótimo desempenho no Borussia Dortmund, duas vezes campeão alemão e vice-­campeão europeu. Ele tinha uma missão difícil: apagar a mentalidade derrotista da equipe inglesa. Embora tenha história riquíssima em taças, havia, no inconsciente coletivo dos Reds, como são chamados, uma suposta inferioridade em relação aos rivais mais endinheirados, como Manchester City e Chelsea, ambos financiados por mecenas cuja carteira parece nunca ficar vazia.

Com sua postura intensa à beira do gramado, o treinador de 52 anos é um dínamo que irradia energia tanto para os jogadores que estão em campo quanto para a torcida nas arquibancadas. Atualmente, o estádio Anfield, a casa do Liverpool, é considerado um dos caldeirões mais temidos pelos adver­sários. Mais do que mero motivador de elencos, Klopp demonstra competência como poucos no incentivo aos atletas. “Eles sabem 80% do que precisam sobre futebol. Meu trabalho é ensiná-los os 20% restantes, que podem ser muito decisivos”, afirmou o alemão em uma entrevista recente. “Eles não têm um Messi ou um Cristiano Ronaldo. Têm algo equivalente a três semi-Messi, ou três semi-Cristiano. O que, no fim das contas, parece ser mais valioso do que contar com apenas um craque”, disse a VEJA o também alemão Raphael Honigstein, biógrafo de Jürgen Klopp e profundo conhecedor do futebol moderno. “Definitivamente não há nenhum time no mundo hoje tão completo, tão especial quanto o Li­ver­pool.” Pelo sucesso coletivo, seus jogadores, a maioria atraída de clubes medianos, se valorizaram individualmente (veja os números ao final da reportagem).

Embora não seja reputado como um gênio da tática como Pep Guardiola, pai do Barcelona mais espetacular de todos os tempos, de 2009, aquele de Messi, Xavi e Iniesta, Klopp se especializou em um estilo de jogo que se consolidou como oposição ao “tiki-­taka” catalão. Conhecido como gegenpressing, o esquema envolve marcação incessante sobre o time rival, perto da grande área, até que ele se desconcentre e faça uma escolha errada, perdendo a bola. Por isso Klopp dá preferência a jogadores rápidos e de bom porte físico, capazes de sufocar o oponente por boa parte dos noventa minutos.

Tal eficiência no uso de recursos dentro de campo faz do Liverpool um caso de sucesso também do ponto de vista financeiro. Comprado por 477 milhões de dólares em 2010 pelo americano Fenway Sports Group, a mesma corporação que é dona do Boston Red Sox, um dos times de beisebol mais tradicionais dos Estados Unidos, hoje o clube inglês vale pelo menos três vezes mais que a soma investida inicialmente. Um de seus acionistas minoritários é o craque do basquete LeBron James, que tem 2% do Liverpool. No início deste mês, a equipe anunciou um acordo com a Nike, que fabricará seus uniformes a partir da próxima temporada e pagará cifras equivalentes às que recebem os gigantes Barcelona e Real Madrid.

Mas, para entrar para a história como o grande time de uma era, falta algo ao Liverpool de Klopp: mais títulos. “O futebol é traiçoeiro, então não se sabe quanto essa boa fase pode durar. Portanto, é preciso aproveitá-la ao máximo e conquistar o maior número de taças possível”, diz Honigstein, o biógrafo. Com tamanha vantagem, o título inglês — o primeiro em trinta anos — parece estar no papo. Basta ver se a equipe conseguirá defender a posição de melhor time euro­peu: o Liverpool enfrenta o Atletico de Madrid no próximo dia 18, pela primeira partida das oitavas da Cham­pions League. E, antes que se tome o caminho fácil, o da comparação do Liverpool com a fama planetária de outra turma da pesada da cidade, os Beatles, convém lembrar que apenas George Harrison admitiu aberta, mas discretamente, torcer pelos Reds. Paul, John e Ringo têm raízes no outro grande clube local, o Everton — embora na capa do mítico Sgt. Pepper’s desponte Albert Stubbins (1919-2002), renomado artilheiro do Liverpool no pós-guerra.

Publicado em VEJA de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672

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