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O que eu sou?

André Brasil, nadador de 34 anos, dono de catorze medalhas paralímpicas, foi proibido de continuar a competir

Nasci como uma criança normal, com 4 quilos e 250 gramas, em 23 de maio de 1984. Mas, pouco tempo depois, quando eu tinha uns 2 meses, talvez 3, minha mãe percebeu uma fraqueza na minha perna esquerda enquanto me carregava no colo. Ela é enfermeira e tinha muito contato com médicos. Numa avaliação profissional, descobriu que eu tinha poliomielite, paralisia infantil. Aí começou a longa jornada da minha vida. Que não foi só minha, mas da família inteira.

Fiz a primeira cirurgia corretiva com 1 ano e 3 meses. Foram diversas até os meus 7 anos. Passei boa parte da infância dentro de hospitais. Meus amigos eram os do leito ao lado. Em vez de jogar bola, apostava corrida de cadeira de rodas com quem também estava internado. A partir dos 9 anos, dei uma pausa nessa rotina de ir de doutor em doutor para que pudesse viver um pouco. O medo era quando eu chegasse ao estirão da puberdade. Era possível que a diferença de tamanho entre as pernas aumentasse, o que me traria problemas de coluna. Voltei a um consultório quatro anos mais tarde, quando descobri que não precisaria de outra cirurgia. E foi o esporte que ajudou meu corpo a se adequar às limitações de ter uma perna 5 centímetros mais curta que a outra.

Como qualquer adolescente, eu tinha vergonha. Não queria usar bermuda e mostrar que uma perna, além de mais curta, era mais fina. Estudei em um colégio no qual os professores de educação física me estimulavam a participar. Mesmo que fosse o último a ser escolhido, tinha de fazer parte do time, em qualquer modalidade. Quando a aula era na piscina, eu adorava. Podia mostrar minhas melhores habilidades, como meus amigos faziam no futebol. Esse estímulo foi fundamental para que entendesse mais minha limitação e crescesse como pessoa, até entrar no esporte paralímpico.

Mas eu já era atleta desde antes. Considero-me um nadador profissional desde os 11 anos, quando recebia 150 reais de ajuda de custo para nadar, com todos os garotos, pelo Vasco. Depois da puberdade, os demais atletas deram um salto muito maior que o meu dentro da natação, e já não conseguia mais me destacar. O momento crucial foi quando meu pai me chamou para assistir à reprise de uma prova do Clodoaldo Silva (nadador que também acumulou catorze medalhas em Paralim­píadas) nos Jogos de Atenas, em 2004. Foi a primeira vez que o esporte paralímpico teve notoriedade na TV.

Voltei, então, meus esforços para o chamado esporte adaptado. Comecei a disputar provas em 2005, e, na quarta-­feira 24 de abril, depois de catorze anos de conquistas, me disseram que eu não era mais elegível. Se não sou uma pessoa com deficiência, apta para estar no esporte para deficientes, poderia participar do esporte para não deficientes. Mas, se nem isso consigo fazer, há um ponto de interrogação, ou dois. Onde eu me enquadro? O que eu sou?

Quando me integrei ao universo paralímpico, foi um drama. Tive de preparar um dossiê de estudo para provar minha limitação. Não fui aprovado de primeira, mas, com a ajuda do Comitê Paralímpico Brasileiro, analisaram meu caso com paciência. Apesar de não aceitarem todos os exames, pude competir. Quatro recordes mundiais e três Paralimpíadas depois, voltei, agora, à estaca zero. É normal que atletas passem por outras avaliações, que mudem de categoria, mas não que sejam impedidos de competir, como aconteceu comigo. O resultado dos exames que realizei catorze anos atrás e o dos de hoje são iguais. Tanto que ainda posso disputar provas de nado de peito, nas quais a força dos braços é que faz a diferença, mas nunca me dei bem nesse estilo. O que me dói é não poder ter escolhido o momento de parar de nadar. Estou sendo forçado. Mas para mim não acabou. Não tenho vergonha de admi­tir que estou fora. Mas quero sair de cabeça erguida. Luto para evitar que outros atletas passem pelo que estou passando.

Depoimento dado a Alexandre Senechal

 

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2019, edição nº 2633

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