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O legado dos punhos erguidos no pódio da Olimpíada de 1968

A luta de LeBron James e Lewis Hamilton contra o racismo ganha mais nitidez aos olhos de um pioneiro, o velocista Tommie Smith, que mudou a história

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 16 out 2020, 11h02 - Publicado em 16 out 2020, 06h00

O ano de 2020 será conhecido, no futuro, pela dramática eclosão do novo coronavírus, mas também pela saudável pandemia de protestos de grandes nomes do esporte contra a violência imposta aos negros pelas autoridades brancas. A onda nasceu depois da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, asfixiado pelo joelho de um policial branco, em maio. No domingo 11 de outubro, ao levar o Los Angeles Lakers ao seu 17º título da NBA, e ao quarto de sua carreira, LeBron James não se ateve às quadras da “bolha” antivírus da Disney, em Orlando: “Somente juntando vozes seremos ouvidos. Temos de continuar lutando contra injustiça social, supressão de votos, brutalidade policial e tudo que é o oposto ao amor”. Naquele mesmo domingo, o piloto britânico Lewis Hamilton igualou o recorde de 91 vitórias de Michael Schumacher, no circuito de Nürburgring, e, uma vez mais, ostentou para o mundo inteiro ver a máscara sanitária com o incontornável lema da hora: Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Não há maneira mais adequada de entender o fenômeno de união do esporte com os problemas do cotidiano do que enxergá-lo a partir da mãe de todos os protestos — a dos atletas que, na cerimônia de premiação dos 200 metros rasos na Olimpíada de 1968, na Cidade do México, ergueram os punhos, ao modo dos Panteras Negras americanos. Aquela imagem talvez seja uma das mais conhecidas de todos os tempos, retrato de um período mercurial. Revisitá-la é atalho para entender cinquenta anos de história.

lÍDER - Hamilton ajoelhado: o grito de um piloto da dimensão de Schumacher – Mark Thompson/Getty Images

VEJA entrevistou com exclusividade Tommie Smith, o vencedor da prova. “Minha vida inteira depois daquela noite foi lutar contra o engano das pessoas que consideraram o gesto como militância”, diz Smith, de 76 anos. “A cabeça baixa não era um desrespeito à bandeira dos Estados Unidos, mas um pedido de proteção. Foi um apelo por união e liberdade.”

A vida de Smith, de seu conterrâneo John Carlos (bronze) e do australiano Peter Norman (prata) nunca mais seria a mesma. Smith e Carlos foram expulsos da delegação olímpica americana e banidos pelo COI, embora não tenham perdido as medalhas. Colegas de treinamento da faculdade San Jose State, na Califórnia, ambos militavam no Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos (OPHR, na sigla em inglês), formado por atletas negros. Norman, branco, acatou imediatamente a ideia de colar no uniforme um adesivo da OPHR e ainda sugeriu que Smith emprestasse uma luva a Carlos — tinham esquecido um par, o que explica o fato de o terceiro colocado ter erguido a mão esquerda. “Aquele homem branco nos olhou com um sorriso de retribuição”, lembra Smith. “Ele nos ajudou a lutar por liberdade e respeito.” Os  americanos carregariam uma das alças do caixão do colega em seu funeral, em 2006, em Melbourne.

Tudo que envolve aquele momento ganhou dimensões espetaculares — o gesto, o discurso silencioso. Até mesmo o tênis Suede, da Puma, que Smith tirou ao subir no pódio, virou modelo admirado, símbolo de uma época e da briga pela igualdade. Mas foram necessárias cinco décadas para que erguer os punhos pudesse soar aceitável. “Em 1968, estávamos enjaulados. Hoje temos mais jovens envolvidos e as redes sociais para espalhar a ideia”, diz o pioneiro, que apenas recentemente ganhou uma estátua e o título de doutor honorário na faculdade pela qual competia, entrou para o Hall da Fama do esporte americano e foi homenageado pelo então presidente Barack Obama. “As honras tiveram um gosto agridoce”, afirma. “Recebi as homenagens já idoso, méritos que pertenciam a um jovem de 24 anos.”

VIDAS NEGRAS IMPORTAM - LeBron (no centro): ativismo na vitória do Lakers – Mike Ehrmann/Getty Images

Nunca é tarde, ressalve-se, porque a controvérsia está longe de ter sido resolvida. No Brasil, por exemplo, há o caso da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, que gritou “Fora, Bolsonaro” diante das câmeras e foi advertida pela Justiça Desportiva. Sim, ela misturou esporte com política, mas não é isso que fazem LeBron e Hamilton, sem que sofram punição? Ou causas podem ser defendidas, mas ataques devem ser reprimidos? Polêmicas e limites à parte, grandes marcas como a Puma, além de outras grifes esportivas, já entenderam a relevância de defender posturas igualitárias. O fato é que o fenômeno ganhou força — e é impossível ignorá-lo. Até mesmo o Comitê Olímpico Internacional começa a pensar em rever seu atávico conservadorismo, abrindo diálogo com atletas que queiram dizer algo na Olimpíada de Tóquio, no ano que vem. O inglês Sebastien Coe, atleta lendário dos 800 e 1 500 metros, hoje presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo, vai direito ao ponto: “Os atletas fazem parte da sociedade e querem refletir o mundo em que vivem. Para mim, isso é perfeitamente aceitável”. Se não fosse a coragem de Smith, Carlos e Norman, a corrida mal teria começado.

Publicado em VEJA de 21 de outubro de 2020, edição nº 2709

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