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O hino é o fino

Por Maurício Barros 22 jun 2014, 08h28

Se existe uma crítica que não pode ser feita a esses jogadores é a de que não treinem nem joguem com vontade, de que não estejam orgulhosos de defender o Brasil neste Mundial

Tenho visto, ouvido e lido restrições à maneira como os jogadores brasileiros vêm cantando o Hino Nacional antes dos jogos nesta Copa do Mundo. David Luiz faz cara de mau, Daniel Alves mira o infinito. Alguns fecham os olhos. A coisa cresce quando os alto-falantes silenciam e a massa verde-amarela no estádio entoa a capela a segunda parte. Há uma emoção evidente, como houve na Copa das Confederações do ano passado. Um troço bonito demais. Diante do México, Neymar foi às lágrimas.

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Segundo essa visão crítica, porém, estaria havendo um exagero no ato, o que indicaria uma falta de equilíbrio dos atletas brasileiros, uma pilha por demais carregada e que seria responsável por titubeios do time nos minutos iniciais das partidas. “Eles entram com os nervos à flor da pele, feito malucos, saem fazendo besteira.” Não vejo assim. Penso o oposto.

Lembro-me da Copa de 2006, das farras na pré-temporada em Weggis, na Suíça, onde hordas de parasitas se infiltravam entre torcedores para chamar a atenção das câmeras durante os treinos. Lembro-me das baladas em certa noite de folga. Lembro-me, já na Alemanha, do inadmissível sobrepeso de Ronaldo e Adriano, do desinteresse de Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos. O descompromisso daquela seleção de Parreira, cuja eliminação para a França teve como símbolo a famigerada ajeitada de meião do lateral-esquerdo no momento em que deveria estar marcando o carrasco Henry, foi decantado como causa principal do fracasso. Não foi por outro motivo que Dunga, ícone da garra com a camisa 8 do Brasil, o capitão do tetra, para quem “seleção é coisa séria”, foi chamado para substituir Parreira. Um xerifão no lugar do líder gente boa, para resgatar o orgulho de vestir a “amarelinha”.

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O time de Felipão está longe de ser perfeito. Mas se existe uma crítica que não pode ser feita a esses jogadores é a de que não treinem nem joguem com vontade, de que não estejam orgulhosos de defender o Brasil neste Mundial. O que de melhor pode acontecer a um jogador de futebol, do ponto de vista profissional, que ser titular de sua seleção em uma Copa do Mundo no próprio país?

A gente aqui, do lado de fora do campo, não consegue imaginar a fervura no sangue desses caras dentro do ônibus no trajeto do hotel ao estádio, no vestiário ouvindo o som da torcida que chega para o jogo, na hora do aquecimento e quando entram em campo em definitivo para a partida. A hora do hino é quando se põe para fora esse turbilhão, berrando a letra sem compreender lá muito bem seu significado, mas entendendo perfeitamente o que cantá-la coletivamente quer dizer.

Pois que sintam, que chorem, que gritem.

Ou alguém prefere o desdém? E dizer que viver essa emoção tira o equilíbrio é não saber quem são esses jogadores. Júlio César, veterano de Copas, foi por mais de uma temporada considerado o melhor goleiro do mundo, habituado a decisões dos principais torneios europeus com a Internazionale. Daniel Alves é titular há mais de seis anos do Barcelona de Messi, um dos maiores times de todos os tempos, que disputou todas as finais e ganhou tudo. Thiago Silva, David Luiz e Luiz Gustavo dispensam comentários pela maturidade que têm mostrado em campo. Marcelo acaba de ser campeão da Europa com o Real Madrid, sua casa há oito anos. Oscar não parece ser tão novo, Neymar já provou mais de uma vez que não treme. Paulinho, Fred e Hulk são jogadores experimentados, que já viveram tudo isso na Copa das Confederações e jogaram muito bem – se estão abaixo do que podem fazer, a questão é outra. Ou seja: não estamos falando de juvenis, mas sim de gente que, não é de hoje, está sob os holofotes mais iluminados do planeta. A tensão de início é normal para quem sabe que está em algo realmente importante.

Amanhã veremos tudo de novo diante de Camarões. Em tese, o jogo mais fácil para o Brasil até agora nesta Copa – o que não quer dizer muito, vide o que Irã e Gana fizeram com Argentina e Alemanha, só para ficar nos jogos de ontem. Se houver dificuldades, vamos tentar detectá-las com mais substância. Uma falha de esquema, um erro de posicionamento. Ou uma boa jogada do adversário – sim, às vezes ele endurece o jogo porque tem qualidades, imagine só! O resto é psicologia de boteco.

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