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O gol contra da CBF: seleção distante e clubes fragilizados

Três meses depois dos 7 a 1, a cartolagem não aprendeu a lição – ao recorrer a um atalho para reerguer a equipe nacional, abre o caminho para novos fiascos

Por Luiz Felipe Castro - 19 out 2014, 16h50

“Há uma inversão de valores: os times que investem em grandes jogadores são penalizados, enquanto os que não investiram em atletas selecionáveis são os mais beneficiados”, diz o consultor Amir Somoggi

Há pouco mais de três meses, a seleção brasileira sofria a pior derrota de sua história. Passado o choque inicial da goleada alemã no Mineirão, criou-se entre os torcedores a expectativa de que o país do futebol absorveria o golpe, levaria um choque de realidade e entraria numa nova fase. A constrangedora inferioridade dos anfitriões diante dos europeus na semifinal da Copa do Mundo evidenciou que era preciso reformar o futebol brasileiro, desde as categorias de base até a seleção principal – e não só com a bola rolando, mas sobretudo nos escritórios da CBF. Diante da organização exemplar dos atuais campeões mundiais (que hoje têm, além de um grande time, uma estrutura para garimpar novos talentos e uma liga nacional competitiva e rentável), ficou ainda mais claro o que já se sabe há um bom tempo: as cinco estrelas bordadas na camisa da seleção foram tecidas pelo talento dos nossos maiores craques, e não pelo trabalho dos cartolas. Com estádios raramente cheios, clubes endividados, dirigentes ultrapassados e um futebol de baixa qualidade, o país dos pentacampeões poderia, enfim, encontrar um grande legado pós-Copa através do início de um urgente processo de reconstrução e renovação. Mas José Maria Marin e Marco Polo Del Nero recorreram a velhos atalhos – e, num momento em que a CBF deveria trabalhar para restaurar a imagem da seleção, a entidade tem irritado o torcedor e até os craques da equipe nacional. A gestão antiquada da dupla consegue a duvidosa façanha de prejudicar os dois grandes patrimônios (e produtos) da própria entidade: enquanto desfalca os clubes em pleno Brasileirão, a seleção é levada a exaustivas excursões em que atua em gramados ruins, às vezes contra adversários irrelevantes.

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Relembre algumas das bizarrices dos cartolas brasileiros

Ícones da velha cartolagem, Marin e Del Nero tomaram medidas impopulares logo depois dos 7 a 1. Primeiro, a dupla contratou Gilmar Rinaldi para o cargo de coordenador de seleções. O goleiro não tem experiência suficiente para a função e passou os últimos anos atuando como agente de atletas. Em seguida, a entidade foi além e anunciou a mais que surpreendente volta do técnico Dunga – que, depois de deixar a equipe com altos índices de rejeição após a Copa de 2010, não fez nenhum trabalho que credenciasse seu retorno (teve apenas uma passagem discreta pelo Inter, em 2013). Foi o caminho mais fácil e curto para tentar calar os críticos: com seu futebol pragmático e competitivo, Dunga conseguiu bons resultados nos primeiros amistosos. O próprio treinador, porém, deixa claro que não pensa no futuro, mas só no próximo jogo: o objetivo é vencer já, seja como for. Enquanto os alemães traçaram um plano de longo prazo para voltar ao topo, num caminho que consumiu nada menos de dez anos, os brasileiros seguem apostando no imediatismo. Pior ainda é forma como isso tem sido feito. A CBF tem como missões primordiais organizar as competições nacionais e administrar a seleção brasileira, cuja camisa tem prestígio e fascínio inabaláveis por qualquer goleada. O que se viu nas últimas semanas, entretanto, foi exatamente o contrário, ainda que os resultados da seleção de Dunga tenham sido satisfatórios. Mais uma vez, as duas grandes competições nacionais, o Brasileirão e a Copa do Brasil, foram prejudicados por uma falha elementar do calendário da bola. Repetindo um erro que já atormenta os clubes há anos, a CBF segue retirando os principais atletas dos times durante as chamadas datas Fifa (período reservado pela entidade para a disputa de partidas internacionais). Perdem todos: o torcedor, as equipes, os patrocinadores e os próprios jogadores, submetidos ao desgaste da queda-de-braço entre clubes e CBF (como no caso do goleiro Jefferson, do Botafogo, na semana passada).

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Só na última convocação de Dunga, Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Grêmio, Santos e São Paulo perderam jogadores para a seleção brasileira (sem contar os estrangeiros que também serviram suas seleções nacionais) em fases cruciais das duas competições nacionais. É uma realidade que vem alterando a lógica do futebol. Se, até pouco tempo atrás, ter um jogador de sua equipe na seleção nacional era motivo de orgulho entre os torcedores e boas perspectivas financeiras para os dirigentes, hoje acontece o oposto. Muitos fãs torcem para que seus ídolos não sejam convocados e, de preferência, que sejam preteridos em favor de um representante do rival, que ficará desfalcado. Já os dirigentes, que antes celebravam a chance de ter um jogador de nível de seleção no elenco – o que, naturalmente, garantiria uma maior probabilidade de conquistar títulos e ainda lucrar com uma possível transação -, agora quebram a cabeça com a situação. Amir Somoggi, um dos principais especialistas em gestão e marketing esportivo do país, falou sobre a gravidade desse quadro. “Há uma perda enorme. A começar pelo prejuízo financeiro, pois o clube paga um salário altíssimo, mas não pode contar com o jogador na hora que mais precisa dele. Depois vem o prejuízo esportivo, porque um jogador de seleção, naturalmente, é aquele que decide os jogos e ganha campeonatos. E, por fim, um prejuízo indireto, porque um clube pode perder muito em bilheteria com a ausência de seus ídolos. Isso sem falar no risco de o atleta se machucar em um desses amistosos, que, aliás, na maioria das vezes, não tem importância esportiva alguma”, avalia o especialista.

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Mantida a mesma política, o futebol nacional, cujos astros já são escassos, pode ficar ainda mais esvaziado nas próximas temporadas. Amir Somoggi lembra, por exemplo, que 2016 – ano de Olimpíada no Rio e Copa América nos EUA -, os clubes brasileiros devem ficar mais desfalcados do que nunca. Valerá a pena, assim, manter jogadores de nível de seleção? “O caso do Neymar, em 2012, foi emblemático”, diz o consultor. “O Santos fez um enorme investimento para mantê-lo, bancou salários totalmente fora da realidade e ele quase não jogou pelo seu time naquele ano.” De acordo com o especialista, a atual conjuntura pode acabar favorecendo a mediocridade: para um clube brasileiro, hoje, seria melhor manter um elenco repleto de jogadores completentes e eficientes, mas sem nenhum grande craque. “Há uma inversão de valores: os times que investem em grandes jogadores são penalizados, enquanto os que não investiram em atletas selecionáveis são os mais beneficiados. É um absurdo efeito do nosso caótico calendário.” O Santos, que sofreu demais com a situação nos tempos de Neymar, atualmente paga cerca de 500.000 reais mensais (livres de impostos) ao atacante Robinho, mas não conseguiu contar com ele nos últimos dez dias – ou seja, jogou o equivalente a 166.000 reais de salário no lixo. Recentemente, dirigentes do São Paulo afirmaram que deverão notificar a CBF para que seja feito o ressarcimento dos salários de Kaká, Souza e dos jovens convocados para as seleções de base.

A compensação financeira, apesar de prevista por lei (no artigo 41 da Lei Pelé) nem sempre é cumprida. De acordo com Eduardo Maluf, diretor de futebol do Atlético-MG, é preciso que o clube pressione a entidade para receber. “Nós tratamos direto com a CBF e ela sempre paga. Demora bastante, mas paga.” Ele explica, no entanto, que é feito apenas o ressarcimento proporcional do valor registrado na carteira de trabalho, e não dos direitos de imagem, que representam a maior parte dos ganhos mensais dos atletas no país. Na próxima quinta, Dunga fará uma nova convocação da seleção – e ele já sinalizou que deverá desfalcar os clubes brasileiros mais uma vez em novembro, coincidindo com as rodadas decisivas do Brasileirão e com o primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Contando com o único titular da seleção que atua no Brasil, o Atlético-MG confia que Diego Tardelli não será convocado para os próximos amistosos, contra Turquia e Áustria. “Acredito no bom senso e quero pensar que nenhum jogador dos semifinalistas será convocado. Nós queremos ser parceiros da CBF, mas ela também precisa nos ajudar.” Ele, no entanto, afirma que nunca pediu para que um atleta de sua equipe fosse desconvocado. “O jogador sempre quer servir a seleção e podemos prejudicá-lo se fizermos esse tipo de pedido.” Para Amir Somoggi, no entanto, não é apenas o jogador que pode sofrer retaliações. “A CBF é quem detém todos os poderes, é quem julga os atletas, controla a arbitragem, a organização dos jogos. Por isso, os times nunca querem se indispor com a CBF.”

As donas da seleção – Os desfalques nas equipes brasileiras poderiam até ser aceitos com mais naturalidade caso a CBF estivesse aproveitando essas datas para pavimentar um futuro glorioso para a seleção nacional. Como produto, porém, a seleção tem sido maltratada, ainda que Dunga vá conquistando suas vitórias nos amistosos. Desde 2006, a CBF mantém um acordo comercial que ajuda a rechear os cofres da entidade, mas acaba sendo um empecilho para que a equipe nacional atinja todo o seu potencial. Até 2022, cabe à empresa saudita ISE e sua parceira britânica de marketing esportivo Pitch Internactional o trabalho selecionar as datas, locais e adversários dos amistosos da seleção brasileira. Graças a esse acordo, o Brasil enfrentou, nos últimos oito anos, seleções como Zimbábue, Kuwait, Tanzânia, Omã, Irã, Iraque, Gabão e Zâmbia, sempre fora do Brasil. Coincidência ou não, o time pentacampeão disputou duas Copas no período e fracassou em ambas. Dos 78 amistosos que a seleção disputou desde agosto de 2006, apenas onze aconteceram em solo brasileiro. Nos EUA, foram catorze. Num momento em que se discute o desgaste na paixão do torcedor pela camisa amarela, isso certamente não ajuda. Por causa dos interesses comerciais das empresas que são as donas da seleção nas datas Fifa, o Brasil chegou a jogar contra Equador e Gana na Suécia – e quando chegou a hora de pegar a Suécia, a partida aconteceu em Londres. Nos poucos amistosos que serviram, de fato, como testes relevantes no exterior, o Brasil não foi bem: perdeu para Argentina, Portugal, França, Inglaterra, Suíça e, claro, Alemanha.

Onde o Brasil jogou amistosos

Estados Unidos: 14 vezes

Inglaterra: 12 vezes

Brasil: 11 vezes

Suécia: 5 vezes

Catar: 3 vezes

Suíça: 3 vezes

Alemanha: 3 vezes

*Desde agosto de 2006

Além de disputar partidas nem sempre atraentes, a seleção acaba amargando outros problemas ao deixar a organização dos amistosos nas mãos das empresas estrangeiras. Apesar das convincentes vitórias sobre Argentina e Japão nas últimas datas Fifa, Dunga e seus atletas criticaram abertamente as circunstâncias enfrentadas pelo grupo. Depois de o treinador reclamar da longa viagem e da poluição de Pequim, o craque Neymar, que já é o quinto maior goleador da história da seleção, reclamou bastante da qualidade do gramado do Estádio Nacional de Cingapura, uma exótica mistura de grama esburacada com uma camada de areia. É pouco provável, no entanto, que o descontentamento dos atletas provoque alguma mudança. No passado, Luiz Felipe Scolari já havia se queixado e nada mudou. O contrato entre CBF e ISE dá plenos poderes à empresa, que mantém forte ligação com os mercados asiático e americano – não por coincidência, os destinos das primeiras excursões da nova Era Dunga. Para ter o direito de levar as partidas para onde bem entender, os árabes pagam 1 milhão de dólares (cerca de 2,4 milhões de reais) por amistoso à CBF. Ela costuma revender as partidas por cerca de 3 milhões de reais, além de ficar com todas as receitas das partidas. A empresa saudita, fundada em 1988, já esteve envolvida em diversas denúncias de corrupção, como a que ligou o nome do ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira ao de Mohammed Bin Hammam, ex-presidente da Confederação Asiática de Futebol, banido do esporte por causa de seus rolos.

Para uma entidade modesta de um país pouco tradicional no futebol, 2,4 milhões de reais por jogo poderia ser um cachê irrecusável. Para um colosso como a CBF, instituição multimilionária que atualmente tem contrato com nada menos de quinze patrocinadores (Chevrolet, Nike, Itaú, Vivo, Guaraná Antarctica, Extra, Sadia, Mastercard, Nestlé, Samsung, Gillette, EF Englishtown, Unimed Seguros e Michelin, além de outros parceiros menores), a receita obtida com amistosos em países distantes e contra adversários frágeis está longe de ser essencial. Sobretudo depois da construção das caríssimas arenas que foram utilizadas na Copa do Mundo, seria muito mais racional trazer os grandes duelos – como as partidas contra Colômbia e Argentina -, para as cidades brasileiras. Mesmo com o moral abalado depois dos 7 a 1 para a Alemanha, a seleção de Neymar certamente conseguiria atrair público e retorno financeiro caso jogasse em casa com mais frequência. A seleção de Dunga terá pelo menos uma vantagem em relação ao grupo comandado por Mano Menezes e depois por Felipão nos últimos quatro anos: como terá de disputar as Eliminatórias da América do Sul para o Mundial da Rússia-2018, o Brasil jogará pelo menos nove vezes em casa. Possivelmente serão as únicas chances de ver a seleção de perto até a disputa do próximo Mundial. A não ser por essas raras partidas, o torcedor provavelmente terá de viajar a Miami, Nova Jersey, Londres ou Pequim para presenciar o talento de seus ídolos ao vivo. Ele só terá de abrir mão de acompanhar seu clube do coração, já que o Brasil insiste em ter a única liga importante do futebol internacional a não interromper suas atividades nas datas Fifa.

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