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O fenômeno Liga dos Campeões: melhor que uma Copa

Conheça os segredos do sucesso do principal torneio de clubes do planeta

Por Giancarlo Lepiani, de Londres 24 Maio 2011, 12h23

Se poucos jogos foram realmente espetaculares no Mundial da África do Sul, cada edição do torneio anual europeu tem pelo menos uma dezena de partidas memoráveis

Até a virada do século, nada no futebol internacional se comparava à Copa do Mundo, disputada a cada quatro anos. Mas a última década ficou marcada por um fenômeno notável: enquanto as disputas entre seleções custavam a empolgar, os duelos entre grandes clubes europeus passaram a atrair cada vez mais torcedores de fora do velho continente. E nada representa melhor essa tendência que a Liga dos Campeões, a principal competição entre clubes – de futebol ou de qualquer outra modalidade – no planeta. No fim de semana, Barcelona e Manchester United jogam a finalíssima da edição 2011, no Estádio de Wembley, em Londres. A partida será acompanhada por no mínimo 100 milhões de pessoas pela TV em todo o planeta. Em tamanho, ainda não chega a ser uma Copa, é claro. Mas a competição ganha um sabor cada vez mais internacional a cada ano que passa.

A transformação do torneio de competição essencialmente europeia para megaevento internacional teve seu ponto de partida nos anos 1990. Em decorrência da chamada Lei Bosman – que derrubou as barreiras para que os atletas europeus jogassem em qualquer país da União Europeia, sem limite de número de estrangeiros nas equipes – fez com que os grandes clubes virassem verdadeiras seleções multinacionais. Se no passado as equipes tinham no máximo três reforços estrangeiros em suas fileiras, agora há clubes que entram em campo sem um jogador sequer de seu país de origem. Resultado: torcedores de países da Ásia e das Américas, por exemplo, podem acompanhar partidas disputadas pelos maiores craques do planeta, europeus ou não. Para muitos, ficou muito mais interessante acompanhar duelos da Liga dos Campeões que os jogos entre seleções.

Nesse ponto, aliás, é possível dizer que a Liga européia já superou a Copa do Mundo – e com quilômetros de distância. Se poucos jogos foram realmente espetaculares no Mundial da África do Sul, cada edição do torneio anual europeu tem pelo menos uma dezena de partidas memoráveis, com altíssimo nível técnico e lances extraordinários. Com os melhores atletas em ação, fica fácil transformar o torneio num grande show. E com um retorno financeiro à altura, fica fácil contratar os melhores. Um dos finalistas desta edição pode fechar a campanha com uma receita total de 80 milhões de euros na Liga. Se bater o Barcelona no sábado, o Manchester United terá somado o equivalente a 184 milhões de reais a seus cofres. O valor inclui premiações oferecidas pela Uefa a cada fase, receitas com os jogos em casa e direitos de transmissão de TV.

Bicho gordo – Não por coincidência, os próprios jogadores fazem de tudo pela chance de estar na Liga – os prêmios concedidos aos clubes, afinal, refletem em bichos generosos repassados aos atletas que conseguem disputá-la. Tornou-se comum ouvir jogadores estrangeiros – os brasileiros inclusive – dizendo que aceitaram alguma proposta de transferência porque teriam uma chance de disputar a competição europeia. Eles certamente ouviram dos colegas de profissão que participar dos jogos da Liga é excelente negócio. Os valores variam de time para time, mas eles costumam ganhar alguns milhares de euros – muitas vezes em dinheiro vivo, no vestiário – só para estar entre os convocados para uma partida do torneio. Uma vaga na segunda fase pode render cerca de 80.000 euros. E ganhar o título pode render até meio milhão de euros.

Crianças disputam espaço para tirar foto ao lado da cobiçada taça
Crianças disputam espaço para tirar foto ao lado da cobiçada taça VEJA

Entregar tanto dinheiro aos clubes não seria possível sem uma máquina bem azeitada, à base de muito marketing e primorosa organização. E é exatamente assim que funciona a Liga. A Uefa costuma recrutar profissionais de primeiro escalão em vários países da UE para cuidar de todos os detalhes do evento. Assim como na Copa do Mundo, um time de gigantes (Sony, Ford, Adidas, Heineken e MasterCard) patrocina a competição. A Liga tem até seu próprio hino (gravado, aliás, na mesma Londres que receberá a decisão de sábado, pela Orquestra Filarmônica Real), e a música, repetida à exaustão nas vinhetas das transmissões de TV – padronizadas e obrigatórias, que emissora alguma se livra de exibir -, é reconhecida por torcedores de qualquer parte do globo. Até os sorteios para montar as chaves do torneio viram grandes eventos televisivos.

Hotéis cheios – Dentro da estratégia de transformar a Liga dos Campeões numa Copa do Mundo de clubes, a Uefa dá atenção especial à final, disputada em partida única, em campo neutro. A briga para sediar o evento, aliás, é duríssima, disputada nos mesmos moldes que candidaturas a sede de uma Copa do Mundo ou de uma Olimpíada. As cidades apresentam suas propostas e recebem um extenso caderno de encargos quando são escolhidas. É preciso, por exemplo, ter uma estrutura hoteleira capaz de suportar o fluxo de torcedores estrangeiros, cartolas e convidados – para este fim de semana, Londres já tinha um salto de 65% nas reservas para o fim de semana da decisão antes mesmo que os dois finalistas tivessem sido definidos. E o impacto da partida na economia local se estende às lojas e restaurantes, que deverão lucrar alto até domingo.

Para receber os turistas que chegam à cidade especialmente para a partida, a Uefa monta um festival de rua, com troféu à mostra, exposições sobre os times e a história do torneio e um minicampo – que, no sábado, terá um jogo de astros veteranos, como o inglês Lineker, artilheiro da Copa de 1986. Ele foi nomeado embaixador da final (o jogo também tem bola especial criada pela Adidas, cerimônia de abertura e, claro, produtos oficiais com preços nada modestos). Aberto no último sábado, o festival – montado no Hyde Park, a principal área verde da cidade – passou a disputar as atenções dos turistas com lugares como a Abadia de Westminster e a Torre de Londres. Nada mau quando se trata de uma das cidades mais visitadas do planeta. Mas nada mais justo quando se trata de um evento que representa o melhor do futebol na atualidade.

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