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O dilema do UFC: respeitar o esporte ou priorizar o show?

Cancelar uma noitada de lutas ou colocar um lutador menos credenciado para enfrentar um campeão? Decisão pode comprometer a credibilidade da franquia

Por Davi Correia 17 set 2012, 07h55

“Essa luta faz algum sentido? É claro que não! Mas o que importa é que eles querem lutar”, disse Dana White sobre o duelo entre Anderson e Bonnar no UFC Rio

Os irmãos Frank e Lorenzo Fertitta e seu amigo de infância Dana White se enchem de orgulho quando dizem que transformaram o MMA em um dos maiores esportes do mundo, na modalidade que mais cresce no planeta. Sonhando alto – talvez até demais -, falam até em transformá-la em esporte olímpico. Mas num momento em que a febre das lutas só faz crescer, com eventos realizados até na Suécia e na China, o UFC tenta resolver um problema que pode afetar a sua credibilidade: as lutas marcadas de última hora com a substituição improvisada de atletas que sofrem lesões. Esses problemas físicos são cada vez mais comuns entre os lutadores, que encaram uma preparação duríssima para os combates. Quando se machucam às vésperas dos seus confrontos, acabam sendo trocados, de forma a evitar o cancelamento das noites de lutas. Como nem sempre é possível achar uma boa – e justa – solução, há muitos casos de lutadores que não mereciam ganhar a chance de entrar no card mas acabam sendo escalados mesmo assim, principalmente em função de sua popularidade. São, em resumo, a melhor solução do ponto de vista do espetáculo, mas não do esporte. Com isso, a franquia se depara com um dilema: preservar o aspecto esportivo ou pensar nas lutas apenas como espetáculos, como fonte milionária de receita?

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O caso que melhor retrata o problema é a busca por um rival para Jon Jones, um dos melhores e mais populares atletas do UFC. Mesmo com alternativas de última hora, o UFC teve de cancelar seu primeiro evento em onze anos por causa da lesão de Dan Henderson, que enfrentaria Jon Jones no UFC 151, em 1º de setembro. Nos últimos anos, várias lesões atrapalharam disputas de cinturão, mas essa foi a primeira vez que a alteração de última hora não evitou o adiamento da noitada de combates. Atual campeão dos meio-pesados, Jones conquistou o cinturão depois que Rashad Evans se lesionou e perdeu a chance de desafiar o brasileiro Maurício Shogun. Jones, então com 24 anos, não era muito conhecido pelos fãs fora dos Estados Unidos, mas o UFC não arriscou perder milhões com patrocínios, publicidades, ingressos e pay-per-view. Jon Jones passou por uma situação semelhante nas últimas semanas. Agora no posto de campeão, foi consultado sobre o adversário substituto depois que se soube da lesão de Dan Henderson. A luta foi oferecida a Lyoto Machida e Maurício Shogun, que a recusaram pelo curto tempo de preparação que teriam. A solução proposta por Dana White foi convidar Chael Sonnen, recentemente derrotado por Anderson Silva, que decidiu subir de categoria mas ainda nem estreou entre os meio-pesados. Jones não aceitou.

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Quem venceria um duelo entre Jon Jones e Anderson Silva? E uma luta entre o Spider e Georges St-Pierre? Faça a simulação dos combates e saiba quem tem mais chances. Acesse o infográfico e confira as notas dos lutadores

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“Chael Sonnen não tinha nada a perder com essa luta. Ele vem de uma derrota. Por que colocaria meu título em jogo contra um lutador perigoso que não está credenciado a brigar pelo cinturão?”, disse Jon Jones em entrevista ao programa de TV americano MMA Hour. O discurso do campeão faz sentido e contraria a opção do UFC – que, em casos como esse, sempre costuma escolher não o próximo da fila, mas sim um adversário que atraia o público e evite prejuízo no evento. O problema é o resultado de uma peculiaridade da franquia: não existe um ranking de lutadores para escolher quem será o próximo desafiante de um campeão do UFC. As lutas são escolhidas pelos dirigentes e oferecidas aos atletas. O UFC costuma dar liberdade aos lutadores mais conhecidos para aceitar ou não os adversários, mas deixar a decisão na mão deles não é exatamente a melhor solução. Depois de muita confusão, o escolhido para enfrentar Jon Jones foi Vitor Belfort, que luta uma categoria abaixo, entre os médios, e estava treinando para enfrentar o americano Alan Belcher, no terceiro UFC Rio, em outubro. O brasileiro tem uma história vitoriosa no torneio, mas recentemente perdeu a disputa de cinturão para Anderson Silva e, aos 35 anos, está mais perto da aposentadoria do que das disputas de cinturão. Do dia para a noite, ficou a uma vitória de ser campeão de uma categoria em que nem costuma lutar. Em mais uma demonstração de que pensa mais no show do que no esporte, Dana White marcou uma luta de exibição para substituir uma disputa de título na terceira edição do UFC Rio, no mês que vem. E ele admite abertamente que a ideia de colocar Anderson para enfrentar o americano Stephan Bonnar num duelo com peso combinado é meio sem pé nem cabeça. “Essa luta faz algum sentido? É claro que não! Mas o que importa é que eles querem lutar”, disse. Leia também: O campeão José Aldo promete mais um show no UFC Rio 3

Treino duro – Distorções como essas deverão continuar acontecendo no UFC. Afinal, é comum ter de substituir um lutador numa noitada da franquia por causa de lesões nos treinamentos. As contusões sempre afetaram os atletas profissionais, principalmente os lutadores. Com o crescimento do MMA e a competitividade cada vez maior entre os atletas, todos treinam muito duro – e acabam se machucando antes mesmo dos combates. Os contratados do UFC costumam lutar entre três e quatro vezes em um ano, e cada desafio demanda em média três meses de preparação. Em alguns casos, a vontade de lutar faz com que os atletas demorem a informar sobre as contusões. No caso do UFC 151, Henderson só avisou os dirigentes quando concluiu que não tinha chance nenhuma de se recuperar. “Estou lesionado há três semanas, mas estava otimista, achava que poderia melhorar”, lamentou. “Não foi a primeira vez que me machuquei durante uma preparação”. O UFC não tem como controlar os treinamentos e não tem como garantir que seus contratados reportem imediatamente cada problema físico sofrido numa preparação. A franquia precisa, porém, melhorar seu trabalho de substituição dos atletas lesionados, principalmente nas lutas que valem título. Caso contrário, corre o risco de ver grandes campeões derrotados por sortudos que ganharam uma chance de última hora. E isso pode ser desastroso para a reputação da franquia entre os fãs. Leia também:

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