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O campeão César Cielo

Numa frase de 38 palavras, dessas que ocupam pouco mais que o espaço aceito por uma mensagem no Twitter, ofegante, quase assustado, César Cielo, o homem mais rápido do mundo dentro d’água, referiu-se quatro vezes ao estrago que o acúmulo de ácido lático em seu sangue produziu nos 46s91 do recorde mundial dos 100 metros, em Roma, na quinta-feira da semana passada. “Está doendo muito agora, estou com dores fortes no corpo, mas tinha decidido que ia ser uma prova em que eu sentiria mesmo muita dor, a mais dolorida da minha vida”, disse. “Minhas pernas estão muito, muito pesadas”.

A dor, nas provas rápidas da natação, é tão lancinante que só tem um remédio: a vitória. Só o primeiro lugar no pódio de um campeonato mundial, com o melhor tempo da história, ou o ouro olímpico, como o dos 50 metros em Pequim, é capaz de aliviar a sensação de queimadura interna provocada pelo acúmulo de ácido lático no sangue quando ele é produzido em esforços musculares sobrehumanos. “Só aguenta a dor quem vence”, diz Fernando Scherer, o Xuxa, medalhista de bronze nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, nos 50 metros, e em 2000, no revezamento 4 x 100.

Ao deixar a piscina do Foro Itálico, abraçado pela imponência de um conjunto esportivo construído nos anos 1930 por Benito Mussolini, Cielo ainda exibia manchas vermelhas dos tapas no peito e pernas que ele mesmo se aplica antes de cair na água em um gesto de autoflagelação que ajuda a empurrar a adrenalina às alturas e mostrar a si mesmo que a dor queima mas não assusta nem paralisa – é uma amiga.

Uma hora antes da quente tarde romana, Cielo entregou-se a uma liturgia estranha que há algum tempo se tornou comum nas salas de aquecimento das competições de nado.

Durante 40 minutos, com a ajuda de dois membros da delegação brasileira na Itália, concentrado a ponto de se ouvir a respiração, Cielo sentou-se numa cadeira. Pôs um saco plástico nos pés e com o auxílio de luvas cirúrgicas começou o processo de vestir o maiô de competição feito com materiais especiais e tecnologia da NASA. De tão ajustado, o maiô é quase aplicado sobre a pele como se fosse um adesivo. De tão fino, exige que o nadador use luvas cirúrgicas pois um fiapo de unha mais afiado pode rasgá-lo. Passar pelo plástico nos pés, escorregadio, foi fácil. Depois, num movimento lento e minucioso, com dedos a eliminar as saliências, a segunda pele de poliuretano foi cobrindo o restante do seu corpo.

Aos 22 anos, 1m95 e 80 quilos, o paulista de Santa Bárbara d’Oeste estava pronto para entrar nos verbetes de enciclopédia da prova mais nobre da natação. O último recorde mundial brasileiro numa piscina foi obtido em 1982, com Ricardo Prado, então aos 17 anos, nos 400 metros medley. Antes, a única marca fadada a permanecer nas enciclopédias foi a de Manuel dos Santos, também nos 100 metros, em 1961. Cielo, no entanto é o primeiro brasileiro a ser campeão mundial e olímpico.

Enfim, o Brasil tem um herói. Um herói sem atos secretos, disciplinado, concentrado e calmo, sem namoradas para distraí-lo do rígido plano de treinos. “É um sujeito de rara capacidade de concentração”, diz Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas, duas de prata e duas de bronze. Vindo do aplicadíssimo Borges é mais do que um elogio. É parte da consagração. Gustavo Borges agora é o segundo maior nadador brasileiro de todos os tempos. O primeiro é Cielo. O feito do novo César romano ajudou também a descontaminar as manchetes dos jornais há tempos dominadas pelos relatos cada vez mais assustadores das pilantragens políticas nacionais.

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