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O caminho deixado por Jesús Morlán para o futuro da canoagem brasileira

Passado o luto pela morte do treinador espanhol, trabalho da seleção prossegue. Isaquias e companhia querem honrar o mestre com mais medalhas em Tóquio-2020

Por Alexandre Senechal - 22 nov 2018, 08h59

O técnico da seleção brasileira de canoagem Jesús Morlán pode não ter resistido ao câncer no cérebro que o debilitava há dois anos. Mas o experiente treinador espanhol, dono de oito medalhas olímpicas, deixou bases sólidas para que o Brasil siga disputando o pódio nos próximos anos. O planejamento é tão adequado que tanto o Comitê Olímpico do Brasil (COB) quanto a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) vão manter o programa implementado pelo espanhol. O auxiliar técnico Lauro de Souza Júnior, preparado pelo próprio Jesús para ser seu substituto, será alçado ao posto de treinador principal – o que era um desejo dos próprios atletas.

Em 14 de novembro, três dias depois da morte de Morlán e apenas um dia depois do velório, membros do COB e da CBCa ainda estavam em Lagoa Santa, cidade mineira que abriga a seleção, para começar a discutir os próximos passos. Em uma reunião que contou com a presença dos medalhistas olímpicos Isaquias Queiroz e Erlon de Souza, do diretor de esportes do COB Jorge Bichara, do supervisor de canoagem velocidade da CBCa Alvaro Koslowski, o grupo decidiu pela continuidade do trabalho com a mesma estrutura que Jesús Morlán dispunha. O objetivo é realizar um sonho do treinador espanhol: conquistar duas medalhas nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Morlán morreu de câncer aos 52 anos COB/Divulgação

“Mudar uma metodologia a dois anos dos Jogos é uma medida incabível. O Lauro tem uma relação muito boa com os atletas e eles confiam nele”, conta Koslowski. O minucioso planejamento a longo prazo deixado por Jesús e os bons resultados conquistados nos últimos anos fizeram com que as entidades não abandonassem o projeto da canoagem. “Os atletas não queriam modificar o modelo. Eles sabem que o processo de evolução é gradativo, de olho na competição-alvo daquele ano”, completa Bichara.

“Pinda”, como Lauro é chamado carinhosamente pelos atletas – é natural de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo – participou do planejamento de 2018 e 2019 e recebeu vários ensinamentos diretos de Morlán desde a chegada do espanhol ao Brasil, em 2013. “Ele brincava que eu estava fazendo doutorado. Não tenho como pagar tudo o que ele me ensinou. Poucas pessoas no mundo tiveram a oportunidade de aprender com um treinador tão vitorioso”, relembra o brasileiro, emocionado.

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Nos últimos meses, Lauro percebeu que o comportamento do técnico estava diferente. Ele passou a chamá-lo com maior frequência para conversar sobre treinamentos, a abordar detalhes técnicos e comportamentais dos atletas e passar-lhe mais responsabilidades na rotina do grupo de canoístas. Tanto que foi Lauro quem desenhou o planejamento de 2019 junto com Jesús Morlán. “Acho que ele sentia que estava da hora de me passar o bastão, porque não acreditava que estaria por aqui muito mais tempo”.

Lauro de Souza Júnior tem seu primeiro compromisso como técnico principal da seleção brasileira de canoagem ainda esse ano. O calendário de competições já acabou, mas ele viajará para Portugal com Isaquias e Erlon no início de dezembro para encomendar o barco que será utilizado no mundial na Hungria. Trata-se do primeiro grande passo sem Jesús. O definitivo será dado em Tóquio, em Julho de 2020.

O medalhista Isaquias Queiróz posa com a foto de Jesus Morlán Léo Drummond/Nitro/.
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