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O brasileiro que derrotou o campeão mundial de xadrez

A história do enxadrista intitulado grande mestre, que venceu e arrancou elogios de Magnus Carlsen em partidas pela internet

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 12 Jun 2020, 10h50 - Publicado em 12 Jun 2020, 06h00

Foi, no mínimo, uma inesquecível noite de glória — ou uma façanha para o esporte brasileiro. No último dia 26, trancado em casa, como manda o figurino, o enxadrista Luis Paulo Supi, de 23 anos, o segundo melhor do país e 335º colocado do ranking da Fide, a federação internacional da modalidade, venceu o norueguês Magnus Carlsen, quatro vezes campeão mundial e atual número 1 do planeta, em um amistoso on-line, disputado direto do computador doméstico, em Catanduva, cidade do interior paulista de pouco mais de 100 000 habitantes.

Para sorte de Supi, seu lance de mestre foi filmado pelo próprio Carlsen, o que lhe rendeu fama internacional quase que instantânea entre os aficionados do tabuleiro. O astro escandinavo de 29 anos, já comparado aos lendários Bobby Fischer e Garry Kasparov, promoveu um divertido desafio a distância, reunindo gente de todo o mundo. Carlsen se propôs a chegar ao topo do ranking em um site de partidas virtuais em um só dia. Transmitida em vídeo pela internet, a saga ia muito bem até aparecer Supi — o norueguês, ressalve-se, desconcertado, totalmente desnorteado, viria a perder outras partidas, o que não lhe permitiu cumprir a meta de ir ao topo. Diante do brasileiro, percebendo que se daria mal, Carlsen ficou boquiaberto. “Uau! Uau! Isso foi incrível”, repetiu, ao se dar conta da derrota iminente. “Estava contente só com a oportunidade de enfrentá-lo, o nervosismo bateu mesmo na hora em que percebi que, de fato, poderia ganhar do número 1”, disse Supi a VEJA. Ele iludiu o adversário praticamente imbatível com um movimento incomum: jogando com as peças brancas, sacrificou a dama e deixou Carlsen encurralado. E sacrificar a dama, no xadrez, é coisa de rei. “Havia vislumbrado essa possibilidade umas três jogadas antes, então fiquei torcendo para que ele caísse na armadilha. Foi o que aconteceu”, celebra o catanduvense. Depois do xeque-­mate, ele diz ter recebido mais de cinquenta mensagens de congratulações.

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O feito de Supi aconteceu em uma partida da modalidade conhecida no xadrez como “blitz”, mais dinâmica, na qual os atletas têm até três minutos para pensar e executar um movimento — no jogo clássico, o intervalo entre uma jogada e outra pode levar horas. O resultado pode ter sido surpreendente, mas o brasileiro está longe de ser um principiante. Aprendeu a jogar ainda criança, aos 6 anos, inspirado por um professor do colégio. Na sua trajetória, acumulou sete troféus de campeão brasileiro em categorias diferentes. Desde 2018, tem graduação de grande mestre — além dele, apenas treze brasileiros, incluindo Henrique Mecking, o Mequinho, maior referência da modalidade no país, receberam o título, vitalício, oferecido pela federação internacional. A fama instantânea pode ajudá-lo em sua carreira profissional: Supi não tem patrocinador fixo e conta, no máximo, com apoios pontuais para custear suas viagens. Ganha a vida dando cursos e aulas de xadrez para jovens aprendizes.

Deixar o relativo anonimato, contudo, já atraiu problemas. Dias depois de sua vitória sobre Carlsen, o brasileiro confirmou a boa fase ao bater outro jogador “Top 5”, o russo Ian Ne­pom­niachtchi, o quarto do mundo. Ne­pom­niachtchi, contudo, se mostrou mau perdedor. “O nível de jogo de Supi varia bastante”, escreveu no chat do game. “Às vezes parece um amador e em outros momentos joga como um stockfish.” Stockfish é como os iniciados chamam o software de cálculos e análises de jogadas, usado geralmente para treinamento e terminantemente proibido nas partidas. “Foi uma acusação de trapaça sem fundamento”, defende-se Supi. No dia seguinte, Ne­pom­niachtchi procurou o vencedor com um pedido de desculpas. “Ele disse que estava estressado e acabou falando besteira”, revela o brasileiro. Como em muitas outras atividades, surpreender ou incomodar os gigantes é sinal de estar no caminho certo. E, não, Supi não pediu ajuda ao computador, como se fosse um Deep Blue, a lendária máquina que derrotou Garry Kasparov.

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Publicado em VEJA de 17 de junho de 2020, edição nº 2691

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