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Jorge Mendes: o agente das mais vultosas transações do futebol europeu

Empresário por trás da carreira de Cristiano Ronaldo fez um império com transferências de jogadores e técnicos para os maiores clubes do planeta

A última janela para a transferência de jogadores entre times do futebol europeu fecha-se em 2 de setembro. Até lá, muitas trocas de camisa devem acontecer no mercado esportivo mais rico e efervescente do mundo. Fala-se muito do possível retorno de Neymar ao Barcelona, clube do qual saiu pela porta dos fundos quando forçou a negociação com o francês Paris Saint-Germain, em 2017. Até a quinta-feira 18, porém, a movimentação mais vultosa em termos financeiros havia sido a do jovem português João Félix, atacante de 19 anos revelado pelo Benfica, de Lisboa, e vendido por 126 milhões de euros (o equivalente a 531 milhões de reais) ao Atlético de Madrid — a quarta maior negociação da história. Antes mesmo de o acordo com o clube espanhol se concretizar, quando a cada dia o nome de Félix era associado a um grande clube diferente, o craque mirim mostrava-se tranquilo sobre seu futuro. “Tenho a sorte de ter o melhor agente do mundo, Jorge Mendes”, gabava-se.

A confiança de Félix tem fundamento: Jorge Mendes, também português, é considerado o melhor empresário do planeta. Aos 53 anos, 23 deles dedicados ao mercado de compra e venda de futebolistas, Mendes venceu oito vezes a única eleição conhecida da categoria, promovida pelo Conselho de Esportes de Dubai (a foto acima, aliás, é da última premiação). Mendes gerencia a carreira de grandes nomes do futebol, entre os quais a joia mais preciosa é outro compatriota: Cristiano Ronaldo, o CR7, hoje na Juventus de Turim. Seu campo de atuação, porém, vai muito além da Península Ibérica. Ele tem trânsito livre nos principais polos futebolísticos do planeta, inclusive o Brasil.

A máxima do universo empresarial de que para cada aposta que dá certo existem centenas de outras que ficam na promessa não parece valer para Jorge Mendes. O empresário é uma espécie de rei Midas da bola. “Quando Jorge escolhe trabalhar com um atleta, ele praticamente lhe coloca um selo de qualidade”, disse a VEJA o luso-brasileiro Deco, ex-­jogador com passagens marcantes por Porto e Barcelona, bicampeão da Liga dos Campeões da Europa. “O sucesso dele se dá não apenas pela boa relação com os jogadores, mas também pela confiança estabelecida com os donos dos clubes”, explica o ex-cliente do agente, que começou a carreira europeia no minúsculo Alverca de Portugal e acabou vendido, em 2004, por 21 milhões de euros aos catalães do Barça. A “taxa de acerto” de Mendes traduz-se nas cifras de seus negócios (veja o quadro abaixo). Apenas a venda de João Félix rendeu ao empresário português e a um sócio uma comissão de 12 milhões de euros — a praxe é pagar 10% do valor da transferência ao intermediador do negócio. De acordo com a revista Forbes, Jorge Mendes foi o segundo agente esportivo que mais faturou no ano passado (376 milhões de reais, ficando pouco atrás do americano Scott Boras, especializado em jogadores de beisebol). Sua empresa, a Gestifute, é um império futebolístico responsável por administrar a vida profissional de mais de uma centena de atletas e treinadores. Tamanho sucesso nos negócios fez o nome de Mendes aparecer nas listas de homens mais ricos de Portugal, algo inimaginável para alguém que nem completou o ensino médio.

O homem que hoje movimenta milhões com apenas um aperto de mãos nasceu em um subúrbio operário de Lisboa. Filho de um segurança de refinaria e de uma dona de casa, o pequeno Jorge tinha o sonho de tornar-se jogador de futebol — era um lateral-­esquerdo no máximo esforçado. Aos 23 anos, conciliava a carreira no minúsculo Vianense com um plano B mais modesto: era sócio de uma videolocadora. O tino para os negócios rapidamente o levou a desistir de viver da bola (pelo menos, não com ela nos pés). Em 1996, Jorge Mendes já tinha relativo sucesso no setor de restaurantes e casas noturnas, ambos frequentados por celebridades — inclusive, é claro, jogadores. Foi quando intermediou a venda de seu primeiro atleta: o goleiro português Nuno Espírito Santo, que hoje, como treinador, continua a ser agenciado por Mendes. A ambição e a obstinação do cartola português só encontrariam um talento a sua altura anos depois. Em 2002, ele conseguiu roubar de um concorrente o direito de negociar em nome de um jovem jogador do Sporting de Lisboa, à época com 16 anos. Seu nome? Cristiano Ronaldo. A tática usada por Mendes foi convencer em primeiro lugar a mãe do atleta, Dolores Aveiro, de que era o homem certo para cuidar não só da carreira de seu filho dentro de campo, mas principalmente fora dele. Deu certo. Hoje, CR7 vê em seu empresário uma figura paterna que lhe faltava.

Não que a relação dos dois esteja livre de percalços: Cristiano e Mendes, junto com outros clientes empresariados pela Gestifute, foram investigados recentemente pelo Fisco espanhol em um caso de evasão de divisas. Para encerrar a questão, o jogador aceitou pagar uma multa de 19 milhões de euros imposta pela Justiça de Madri por sonegação em seus contratos (todos assinados com a anuência de Jorge Mendes). Quando instado pelo juiz, o maior agente do mundo justificou-se: “Tenho apenas os estudos primários. Mesmo que quisesse (sonegar), não saberia como fazê-lo”. Essa imagem de pobrezinho ele não conseguiu vender.

 (Arte/VEJA)

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2019, edição nº 2644