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O 7 a 1 nasceu há 15 anos – e está cada vez mais vivo

Estudo encomendado por VEJA destrincha a evolução do futebol alemão, a derrocada do brasileiro e os fatores que contribuíram diretamente para o vexame do Mineirão

No dia 8 de julho de 2014, o Brasil e o mundo assistiram incrédulos a uma das maiores humilhações esportivas da história. O que teria levado a seleção mais vitoriosa do futebol em todos os tempos a conceder sete gols e ser eliminada em casa pela Alemanha de forma arrasadora? Safra ruim de jogadores, um treinador ultrapassado, a ausência do craque e até mesmo o célebre “apagão” alegado pelos protagonistas foram apontados como razões para o massacre do Mineirão. Passado um ano e meio da tragédia e com mais um Brasileirão de baixa qualidade se encerrando – sem falar nos escândalos de corrupção com diversos brasileiros envolvidos – fica mais fácil compreender que o 7 a 1 foi real e, definitivamente, não foi um acidente. A superioridade germânica em Belo Horizonte não foi obra do acaso, mas fruto de uma verdadeira revolução, iniciada há mais de uma década, que envolveu a valorização dos clubes e de suas categorias de base, a modernização da liga e a saúde financeira dos clubes do país. Um estudo inédito feito pelo consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, ao qual o site de VEJA teve acesso em primeira mão, destrincha a soberania alemã e o nosso 7 a 1 de cada dia.

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Nem é preciso analisar aspectos técnicos e táticos para entender a goleada. Antes da seleção montada por Luiz Felipe Scolari, o futebol brasileiro como um todo já havia entrado em enorme desvantagem na semifinal da Copa do Mundo. Conforme mostra o estudo de Amir Somoggi, o renascimento alemão e a derrocada brasileira se iniciaram quase simultaneamente. Em 2000, soaram os alarmes em Berlim quando a seleção alemã foi eliminada na primeira fase da Eurocopa. Envergonhados, os dirigentes do país elaboraram um plano a longo prazo, com investimento pesado nas categorias de base, o uso de metodologias modernas e a valorização de seus clubes.

A Alemanha se preparou muito bem para receber a Copa do Mundo de 2006 – em circunstâncias suspeitas, é verdade, em um caso que vem sendo investigado pela Justiça do país atualmente – e o evento impulsionou de vez o futebol alemão. A Bundesliga, como é chamado o campeonato alemão (organizado pelos clubes e não pela federação, como acontece com o Brasileirão da CBF), se fortaleceu comercialmente, assim como todas as suas equipes, que adotaram políticas fiscais rígidas e uma gestão séria e eficiente.

Há vários anos, a liga alemã registra médias de público altíssimas (a maior do mundo em 2014, com mais de 42.000 torcedores por jogo) e lucros cada vez maiores. Antes de chegar ao tetracampeonato no Maracanã, a seleção alemã já havia conquistado dois terceiros lugares (em 2006 e 2010). O Bayern de Munique e o Borussia Dortmund, as duas principais forças do país, já haviam decidido a Liga dos Campeões de 2013, num claro presságio do que poderia ocorrer na Copa no Brasil.

Na contramão, o Brasil viu nascer o 7 a 1, ironicamente, depois de uma vitória sobre a Alemanha, na final da Copa de 2002. O pentacampeonato na Coreia do Sul e no Japão fortaleceu o caráter exportador dos jogadores do país. Antes, de maneira geral, apenas os craques tinham bastante mercado na Europa; atualmente, qualquer atleta promissor se torna presa fácil para os clubes do velho continente. Sem dinheiro e planejamento para equilibrar suas finanças, os times brasileiros não têm outra opção senão exportar seus talentos.

A seleção ainda obteve bons resultados nas passagens de Carlos Alberto Parreira e Dunga, entre 2003 e 2010, mas os clubes e a organização interna do futebol nacional já agonizavam. Coincidentemente, o Brasil teve a oportunidade de repetir a Alemanha e usar a Copa do Mundo como o motor para o desenvolvimento do esporte no país. No entanto, investiu 8,5 bilhões apenas na construção de estádios – pelo menos três deles se tornaram verdadeiros elefantes brancos, como já se previa – e, por enquanto, não obteve resultados relevantes.

Pecados – O estudo realizado por Amir Somoggi mostrou uma realidade assustadora: o futebol brasileiro recebeu recursos suficientes para obter um desenvolvimento semelhante ao alemão, mas, por incompetência própria, apenas se afundou em dívidas – ao contrário da CBF, que atraiu um batalhão de patrocinadores e lucrou 434 milhões de reais entre 2007 e 2014. Pode soar contraditório, mas o estudo de Amir Somoggi mostra que quanto mais os clubes do país receberam de receitas (sobretudo dinheiro vindo das emissoras que pagam pelos direitos de transmissão), mais eles se endividaram. Nos últimos quatro anos, os 20 maiores clubes do país, somados, apresentaram déficit de 2,4 bilhões de reais. Na lista abaixo, confira dados que comprovam a falta de profissionalismo dos gestores do futebol no Brasil:

Amir Somoggi é a atração desta terça-feira do Papo de Esporte de TVEJA. O consultor falou sobre os pontos principais de sua pesquisa e apontou possíveis soluções para o futebol brasileiro. Assista ao programa abaixo e clique aqui para baixar, na íntegra, o estudo “Futebol alemão x futebol brasileiro. Um fez sua revolução. O outro nem começou”: