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Nunca foi tão difícil para atletas se prepararem para a Olimpíada

Em tempos de pandemia, clubes fechados, viagens canceladas, competições suspensas

Por Alexandre Senechal, Luiz Felipe Castro Atualizado em 14 Maio 2021, 09h30 - Publicado em 14 Maio 2021, 06h00

Improviso no quintal

“O início da pandemia foi complicado, as pistas fecharam e cheguei a treinar no gramado do condomínio. Os campings no exterior foram fundamentais.”
Márcio Teles, 27, corredor

No esporte de elite, cada detalhe conta. Alimentação, descanso, ritmo de treinos, disponibilidade de equipamentos, remuneração, ambiente, tudo isso pode de alguma maneira afetar o rendimento. Como reagir, então, quando o planeta está diante de uma das maiores crises de saúde da história, que paralisou as atividades esportivas e que ameaça a vida de qualquer indivíduo — seja ele atleta ou não —, em todas as partes do mundo? Pois é esse o desafio que se impôs aos competidores que deverão ir à Olimpíada de Tóquio em busca de medalhas. Jamais foi tão difícil se preparar adequadamente, e os obstáculos são ainda mais acentuados em países com tremendas deficiências, como o Brasil. O sufoco é imenso, mas não é menor o desejo dos atletas de transpor as barreiras da pandemia.

Os casos mais curiosos ocorreram no início do surto. Viralizou mundialmente a imagem de um canoísta argentino classificado para os Jogos, Sebastián Rossi, remando dentro de uma pequena piscina na residência de sua namorada. Na longínqua Ochsenhausen, cidade alemã com cerca de 9 000 habitantes, o mesa-tenista carioca Hugo Calderano, uma das maiores promessas brasileiras, também teve de se virar. Com seu centro de treinamento fechado, o sétimo colocado do ranking mundial não teve opção senão levar uma das mesas do clube para casa. “Não dava para treinar realmente, porque o espaço na minha sala é pequeno”, disse a VEJA. “Foi só para manter um pouco do contato com a raquete e a bola.” Improvisos como esses se repetiram até que a situação melhorasse, o que nem sequer chegou a acontecer, de fato, no Brasil.

Isac Santos, 30, jogador de vôlei, com a esposa, Luíla -
Isac Santos, 30, jogador de vôlei, com a esposa, Luíla – Pedro Vilela/Getty Images

Treino é treino, jogo é jogo

“A seleção não atua desde 2019 e é preciso jogar, não só treinar. O último ano foi bem difícil, tivemos de nos adaptar. No auge da pandemia, a forma que encontrei foi continuar treinando em casa.”
Isac Santos, 30, jogador de vôlei, com a esposa, Luíla

Enquanto muitos países controlaram a pandemia com maior eficiência e, assim, puderam reabrir seus centros de treinamento e realizar campeonatos sem público, o Brasil acabou ficando para trás. Ciente do cenário calamitoso, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) agiu rápido e bem. Atletas de diversas modalidades são unânimes em dizer que os campings no exterior, especialmente a chamada Missão Europa (veja no quadro), que teve início em julho do ano passado, foram fundamentais. “O COB trabalhou intensamente para encaixar atletas em lugares do mundo onde houvesse condições para superar as adversidades”, diz o presidente da entidade, Paulo Wanderley.

arte olimpíada

Recentemente, 29 representantes do atletismo participaram de um cam­ping em San Diego, nos EUA, como parte do Programa de Preparação Olímpica (PPO). “Foi ótimo voltar a ter uma estrutura ideal, fomos até vacinados”, revela o carioca Márcio Teles, destaque da corrida de obstáculos, que no início da pandemia teve de treinar em um gramado em frente à sua casa, em Campinas (SP). Até o início dos Jogos, todos os atletas e membros da comissão técnica serão vacinados, uma medida que gerou controvérsia. Segundo garantiu o Ministério da Saúde, as doses foram doadas pela Pfizer e pela Sinovac e não desfalcarão de maneira alguma o Programa Nacional de Imunizações.

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Enquanto fora do país a situação já se aproximava do ideal, o aumento das curvas de contágio pela Covid-19 voltou a fechar centros esportivos em diversos estados brasileiros. A montagem de “bolhas”, como são chamados os locais de treino e competição em ambiente fechado, sob rígidos protocolos, tornou-se a solução possível. Em março, as fases finais das Superligas masculina e feminina de vôlei foram realizadas no centro de desenvolvimento em Saquarema, no Rio. Mesmo que bastante elogiada, a medida não foi imune a falhas. A pouco mais de dois meses da abertura dos Jogos, o treinador da seleção masculina, o ex-atleta Renan Dal Zotto, ainda se recupera de um quadro grave de Covid. Internado desde 16 de abril, ele foi contaminado justamente em Saquarema, após assistir a um jogo ao lado de Radamés Lattari, vice-­presidente da CBV, que também pegou a doença. “O Renan é nosso comandante, então é essencial que esteja presente”, diz o central Isac Santos, da equipe do Sada Cruzeiro. “Mas precisamos respeitar o tempo da melhora dele.”

Caio Bonfim, 30, competidor da marcha atlética -
Caio Bonfim, 30, competidor da marcha atlética – Buda Mendes/Getty Images

Melhor agora

“O adiamento foi, na verdade, um alívio, pois a pandemia destruiu a preparação em 2020. Tive de andar na esteira ou em áreas rurais para recuperar a parte física e mental.”
Caio Bonfim, 30, competidor da marcha atlética

Também foram tomadas providências para os Jogos Paralímpicos, que começam em 24 de agosto. O centro de treinamento do Comitê Paralímpico do Brasil (CPB), na capital paulista, foi autorizado a hospedar simultaneamente cerca de quarenta atletas de diversas modalidades. Os Jogos na Ásia marcarão a despedida do lendário nadador Daniel Dias. “Minha ideia era ter me aposentado em 2020”, diz o recordista de medalhas paralímpicas (24). “Já estava tudo planejado e tive de adiar por mais um ano. Precisei preparar não só o físico, mas a cabeça.”

O fato de o Brasil estar na maioria das chamadas listas vermelhas do novo coronavírus é um entrave relevante. Caio Bonfim, quarto colocado da marcha atlética na Rio 2016, retornou recentemente de um campeonato no Equador, onde teve de permanecer dez dias em quarentena. “A alegria por voltar a competir foi maior, olhei pelo lado bom”, afirma Caio, que terminou em segundo no Campeonato Pan-Americano. Paola Reis, atleta do ciclismo BMX, desperdiçou a chance de ir a Tóquio por ter descumprido a quarentena obrigatória ao desembarcar na Europa — ela disputaria um qualificatório na Itália. Ginastas ca­na­den­ses também viram ruir o sonho olímpico, pois a federação local desistiu de mandá-las para o pré-­olímpico previsto para ocorrer no Rio, em junho, por considerar que “o risco para a saúde é muito alto neste momento”.

Daniel Dias, 32, nadador paralímpico -
Daniel Dias, 32, nadador paralímpico – Buda Mendes/Getty Images

Recordista sem ritmo

“Tentamos fazer simulados de competição, mas não é a mesma coisa. Eu me vejo em desvantagem, mas não quero me apegar a isso, nem ficar dando desculpas. Vou a Tóquio para ganhar de novo.”
Daniel Dias, 32, nadador paralímpico

Por ora, os Jogos estão confirmados, ainda que a maior parte dos japoneses se oponha. Não bastasse o fato de não ter seus competidores no esplendor da forma, Tóquio não contará com um componente essencial do espírito olímpico: a confraternização entre os povos. Apenas fãs nipônicos, e em número reduzido, poderão comparecer às arquibancadas. O evento, portanto, não receberá os tradicionais gritos de apoio que sempre levaram os competidores a cumprir o lema olímpico Citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte, em latim). De todo modo, provavelmente haverá pódio e, quem sabe, ele será composto de heroicos brasileiros que driblaram a pandemia.

Publicado em VEJA de 19 de maio de 2021, edição nº 2738

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