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No país da Copa, o show do futebol de várzea

A cada fim de semana, campos surrados recebem multidões de atletas amadores e torcedores apaixonados pelo clima de festa e competição

Por Luiz Felipe Castro 25 jan 2015, 07h26

No seu auge, em 2012, uma final da Copa Kaiser atraiu 20.000 pessoas ao estádio do Pacaembu. Em 2014, a média de público dos jogos do Brasileirão foi de 16.555 pagantes; a do Campeonato Paulista, de 5.675 pagantes

No vestiário, o técnico Gordão, do 17 de Janeiro de Vila Rica, deu o nome de seus titulares para a decisão contra a Portuguesa de Teotônio Vilela: Gambá; Zila, Babalu, Nei e Bico; Alemão, Bidu, Maraca, Neizinho, Marcinho Junior e Du Bala. A escalação do adversário foi definida pelo treinador Jarrão: Raphael; Bidu, Amauri, Jefferson e Deivisson; Kel, Papi, Nego, Careca, Pet e Angolano. Com uma hora de atraso, as equipes perfiladas ouviram o hino nacional, torcida e times se emocionaram, e a bola rolou no campo de terra, na final da 19ª edição da Copa Leidiane, um das dezenas de campeonatos amadores que acontecem anualmente em São Paulo, das centenas que acontecem pelo Brasil.

O futebol de várzea teve momentos de glória entre as décadas de 70 e 90, quando um torneio foi transmitido, ao vivo, todos os domingos, pela TV Record:o Desafio ao Galo. Até o final de 2014, uma copa foi patrocinada pela cerveja Kaiser. O investimento foi interrompido, depois de 17 edições, por não trazer o retorno de marketing que a empresa desejava. Mas pouco importa se hoje a várzea não atrai a televisão, nem é vista como oportunidade para grandes patrocinadores. As peladas sobrevivem do calor da torcida, do apoio de pequenos negócios e do empenho dos jogadores – que recebem algum dinheiro ao entrar em campo e sonham, quem sabe, em ser observados pelo olheiro de um clube profissional.

Em um jogo emocionante no CDC Jardim Planalto, na zona leste, num domingo com sol de rachar no fim de dezembro, a Portuguesa garantiu o título da Copa Leidiane. A torcida enlouquecia quando o bom goleiro Raphael, de 26 anos, da Portuguesa, batia tiros de meta que chegavam na área adversária, em busca de uma cabeçada do gigante atacante Angolano – todas sem sucesso. Faltavam poucos minutos para o final, e a Portuguesa perdia por 1 a 0, quando Raphael deu o pontapé mais feliz de sua vida: a cerca de 50 metros do gol adversário e, com a ajuda do vento, a bola morreu no ângulo do goleiro Gambá, até então destaque do 17 de Janeiro de Vila Rica. Encerrado o jogo em 1 a 1, houve decisão nos pênaltis. Raphael, que passou por times profissionais em Minas Gerais, fez três defesas e se tornou o herói do dia.

Ao vencer a disputa nos pênaltis, a Portuguesa deixou para trás outros 95 times e faturou o prêmio de 5.000 reais oferecido pelo patrocinador da copa, a Leidiane Comércio de Doces e Pizzas Ltda, doceria e rotisseria da região Leste, que tem duas lojas. O torneio foi criado pelo comerciante José de Lima, de 57 anos, o Zé da Leidiane, torcedor do Santos e ex-candidato a deputado – o nome da confeitaria que vende mais de 800 bolos por mês é uma homenagem à filha de Zé.

O campo do Jardim Planalto não tem arquibancadas, nem grama – apenas alguns tufos perto das mal traçadas linhas que demarcam o espaço de jogo, bem menor que o determinado pela Fifa para a prática do futebol. No chão de terra, a cada disputa mais firme de jogada sobe poeira, e cada jogador se empenha como se fosse a última partida de sua vida. Na maioria, as equipes de várzea são formadas por jogadores de finais de semana. Alguns times, porém, contam com atletas ou ex-jogadores de pequenos clubes profissionais, que usam a várzea para complementar o orçamento.

O atacante Leandro Damião, do Cruzeiro, com passagens pela seleção brasileira, é um exemplo – raríssimo, é verdade – de hoje de ex-varzeano que chegou ao topo. Até 2006, ele jogava pelo Família Tupi City, equipe do Jardim Ângela, zona sul da cidade, e se destacou por campeonatos amadores até ser levado ao Atlético de Ibirama, em Santa Catarina, onde se profissionalizou.

Os melhores atletas da várzea paulistana recebem dinheiro para atuar. As quantias variam de 100 a 300 reais por partida, mas são religiosamente pagas depois de cada jogo. Para efeito de comparação, um craque da várzea que atue todos os sábados e domingos, ganhando o “bicho” máximo, levaria quase 20 anos para receber o que Neymar fatura em apenas um jogo (o capitão da seleção brasileira recebe cerca de 3 milhões de reais mensais do Barcelona). Árbitros e bandeirinhas também ganham por entrar em campo. “Está ótimo hoje em dia”, diz Alex Sandro Mussulini, funcionário público que trabalha há 20 anos como bandeirinha em partidas amadoras. “Antes, era comum o juiz apanhar, mas atualmente os jogadores nos respeitam.”

Mas há algo mais que dá vida aos jogos da várzea: a torcida. Na final da Copa Leidiane, 3 500 pessoas cantavam, gritavam e consumiam avidamente espetinhos de carne e cerveja a 4 reais a lata. Lídia Tavares da Silva, que cuida da organização do torneio, esperava mais gente. “Hoje estava vazio. O campeonato foi adiado em duas semanas e nessa época do ano muita gente viaja. Aqui costuma ter de 5.000 a 7.000 pessoas.” No seu auge, em 2012, uma final da Copa Kaiser atraiu 20.000 pessoas ao estádio do Pacaembu. Em 2014, a média de público dos jogos do Brasileirão foi de 16.555 pagantes; a do Campeonato Paulista, de 5.675 pagantes. E, ao contrário do que acontece nos jogos dos campeonatos oficiais, o entusiasmo de familiares e amigos dos jogadores de várzea jamais esmorece. Faça chuva ou faça sol, ele é sempre “padrão Fifa”.

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